sexta-feira, 28 de maio de 2010

Opinião: O Fim de uma Era


Estamos passando por um período que define o início de uma nova etapa na televisão americana. O ano de 2010 também registra o final de séries da TV aberta que deixaram sua marca na primeira década do século XXI, a exemplo de "24 Horas", "Lost" e "Heroes", bem como de "Lei & Ordem", que durou 20 anos. Encerrar uma década é levar à reflexão do que ela representou em termos de televisão e, em especial, em relação à história dos seriados americanos.

Essa década viu o formato dos reality shows se estabelecerem. Tendo surgido nos anos 60 (não estou levando em consideração os game shows), esse formato se estabilizou junto à programação americana a partir de 1989, com a estreia de "Cops", pela Fox. De lá para cá, a presença de reality shows na grade dos canais foi crescendo a ponto de influenciar a narrativa das séries ficcionais. Essa influência direta culminou com a produção da década que se encerra, na qual vimos surgir um número maior de docudramas. Através dessa narrativa, temos personagens acompanhados por uma câmera para qual se dirigem vez por outra.

Creio que não haja dúvidas de que os reality shows saíram vencedores na disputa pela audiência com as séries ficcionais, as quais perderam público mesmo somando-se aqueles que deixam gravando para assistir depois. Muitos podem apelar para os números de donwloads ilegais para alardear o sucesso dessa ou daquela série, mas, devemos lembrar que esses números registram, também, a audiência internacional. Embora o público estrangeiro seja importante, a audiência doméstica ainda é o principal fator determinante para a continuidade de uma produção.

Em relação ao formato seriado, muito se fala sobre aquelas que dominaram a audiência ou as manifestações através da Internet. Algumas publicações elegeram as melhores da década; outras, as mais representativas. Tem séries que entraram para a história graças à sua popularidade, outras, em função da proposta e, tem outras, que ficaram marcadas pelas duas: proposta e popularidade. Mas, o que representou essa década em termos televisivos? Como ela será lembrada? Por séries específicas ou por seu tema?

Fãs de títulos específicos com certeza afirmarão que essa primeira década do Século XXI representa o surgimento de suas séries favoritas. Mas, devemos ter em mente que esses primeiros dez anos trouxeram um valor à parte à TV americana, o qual não foi planejado, mas que promoveu uma mudança significativa em sua estrutura narrativa, tornando-se importante para a história do formato.


No dia 11 de setembro de 2001, os ataques terroristas ao território americano promoveram uma mudança de pensamento, que dominou as séries de TV ao longo de toda a década. Sua influência nas séries não se restringiu apenas ao fato ocorrido, mas, também, na forma como os roteiristas passaram a abordar as questões sócio-políticas, bem como os aspectos culturais que o ato gerou; introduzindo mudanças de comportamentos e linhas de pensamentos dos personagens em relação a si mesmos e a outros povos.

Os ataques terroristas, logo no início da década, aleijou as sitcoms americanas, qualquer que fosse sua abordagem: familiar, cultural, de ambiente de trabalho ou de relacionamentos de amizades. Como fazer rir um povo que da noite para o dia se viu despojado de um sentimento de segurança em relação à algo que até então só acontecia no quintal do vizinho?

Vindo do sucesso de produções como "Friends" e "Seinfeld", que lidavam com histórias sobre relações de amizade e ambiente; bem como de sitcoms familiares, como "Everybody Loves Raymond", "The Nanny" e "Mad About You", além de "Frasier, que mesclava os dois temas, as sitcoms pareciam que dominariam a década seguinte.

Mas a década foi representada pela produção das séries dramáticas, a quais conseguiram, rapidamente, explorar o fato e suas consequencias (lembrando que "24 Horas" não foi criada em função dos ataques terroristas, mas se beneficiou deles). A maioria das séries americanas dessa década, incluindo "Heroes" e "Lost", que se tornaram produções representativas desse período, foram criadas e desenvolvidas como resultado direto dos ataques terroristas. Sendo que "Lost" teve início explorando o mesmo signo que representa os ataques: a queda de um avião.

Mesmo nas sitcoms surgiu uma que teve sua construção de roteiros e personagens girando em torno do fato: "Whoopi", claramente inspirada na inglesa "Fawlty Towers", estrelada por Whoopi Goldberg, trouxe referências diretas aos ataques terroristas em território americano, e duras críticas à administração de George W. Bush.


Os ataques abriram as portas para uma discussão religiosa na forma como a fé e a vida é retrada em cada cultura ou passaram a ser percebidas pelos próprios americanos, que questionaram mais a fundo o sentido da vida. A cultura estrangeira se transformou rapidamente em tema de séries ou em abordagens de tramas, através de personagens estrategicamente incluídos no elenco das produções americanas, a maioria interpretados por atores estrangeiros. Em "Lost", vemos uma verdadeira Nações Unidas, na qual 'países' não se entendem, não confiam um no outro ou apelam para a traição para alcançar seus objetivos e satisfazer seus interesses, na luta para se definir quem domina o planeta, tendo como pano de fundo aspectos religiosos e de fé.

Algumas séries trouxeram a proposta de fazer amizade com o 'inimigo'; outras, os apresentaram como metáforas do medo e da morte, tal qual ocorreu com os comunistas nas séries dos anos 50 e 60. Tentar compreender outros povos e a forma como pensam, bem como transformá-los em amigos ou aliados passou a ser uma regra nas séries dessa década. Não é à toa que os 'nerds' conseguiram ser tratados como iguais, já que os próprios estrangeiros tiveram esse privilégio.

Seja qual for a abordagem (direta ou indireta), o tema em torno dos ataques terroristas predominou até mesmo nos bastidores da indústria, onde ocorreram mudanças. Influenciados não apenas pelo comportamento que se originou dos ataques mas, também, pela crise econômica e pelo avanço da Internet e da TV a cabo, a televisão americana abriu um pouco mais as portas. Elas ainda não estão escancaradas, mas nota-se a diferença, que, provavelmente, será melhor estruturada nas décadas seguintes.

A TV americana abriu as portas para a co-produção internacional, bem como um maior número de adaptações de séries estrangeiras, além das inglesas, as quais já são tradicionais. Israel tem sido, por enquanto, o país que tem recebido maior atenção, mas a ordem nos bastidores televisivos americanos é a de ficar de olho na produção internacional como um todo, em busca de séries que possam ser adaptadas para a cultura americana.

Com o fim de algumas produções que mais exploraram o tema da década, aliado ao aparente renascimento das sitcoms (fato este que pode trazer um equilíbrio de gêneros), bem como o crescimento da co-produção estrangeira, o universo dos seriados tem grandes chances de sofrer uma mudança significativa em seu formato ou abordagem, a qual poderá definir a próxima década. Estou ansiosa para ver o resultado!

3 comentários:

Ivo disse...

Mais um excelente artigo.

Meus parabéns Fernanda.

Rafa Bauer disse...

Excelentes reflexões.

Falando em séries populares e de qualidade, eu acho que é significativo o ano de 2004. Foi nesse ano que surgiram: Lost, Desperate housewives, Veronica Mars, House, Battlestar Galactica, etc... E internacionalmente, é de se destacar que em 2004 também surgiu Epitáfios...

Até hoje aguardamos um ano como aquele, de grandes estreias, para se iniciar um novo ciclo de sucessos. E, pelo que vi nos promos apresentados, não vai ser na próxima fall season... hehe Só levo fé, por incrível que pareça, nas novas séries da NBC...

Fernanda Furquim disse...

Obrigada Ivo e Rafa pelas participações.

De fato, Rafa, muitas produções significativas para um período começam a surgir por volta da metade de uma década.

O início de cada década é o que os historiadores chamam de ajustes.

Isso porque a TV comercial americana teve início em 1945.

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