Sensitive Skin, Remake Canadense de Série Inglesa


 Por Fernanda Furquim



Entre julho e agosto, o canal HBO Canadá exibiu os seis episódios produzidos para a primeira temporada de Sensitive Skin. Este é um remake canadense de uma série britânica apresentada pelo canal BBC2 entre 2005 e 2007. A versão original teve duas temporadas com um total de doze episódios. O remake ainda não teve sua renovação anunciada.

A série original foi criada por Hugo Blick, que já ofereceu as ótimas The Shadow Line e Roger & Val Has Just Got In. Ele também escreveu The Honourable Woman (a qual ainda não tive oportunidade de conferir, mas está na minha lista das próximas produções a assistir). Infelizmente não conheço a produção original de Senstivie Skin. Portanto, não tenho como comparar as duas versões. Assim que conseguir conferir a série britânica, comentarei aqui. Por enquanto, meus comentários se restringirão ao remake canadense.

Este era um projeto antigo da atriz Kim Cattrall (Sex and the City) que desde 2008 vinha tentando viabilizar a produção de Sensitive Skin. Nesta época, ela chegou a fazer um acordo com a HBO americana pelo qual ela concordava em voltar a interpretar Samantha na primeira versão cinematográfica de Sex and The City se o canal produzisse a série.

Denis Lawson e Joanna Lumley na versão original da série 


Uma primeira adaptação foi assinada por Mitchell Burgess e Robin Green, de A Família Soprano, mas sua produção não foi aprovada pelo canal. Ao invés de cancelar o projeto, a HBO o transferiu para sua filial no Canadá, que escalou o ator e roteirista Bob Martin para assinar o roteiro. Martin é um dos roteiristas da excelente Slings & Arrowsuma das melhores séries canadenses do últimos anos, que gerou um remake brasileiro com o título de Som & Fúria, o qual ficou abaixo da qualidade da série original. Como ator, Martin aparece em Sensitive Skin interpretando o amigo da personagem de Cattrall na galeria de arte.

Tendo em vista a boa receptividade da série original e o currículo de Martin, as expectativas eram de que o remake valesse a pena conferir. Infelizmente, ele não consegue mergulhar fundo em sua proposta, permanecendo todo o tempo na superfície do tema. Existem bons personagens, mas a sensação que a série deixa é de um tema desperdiçado.

Na história, Cattrall interpreta Davina, uma mulher de meia idade que, tendo conquistado tudo que desejava na vida, entra em crise, questionando seus sentimentos, desejos e futuro. Davina é casada com Al (Don McKellar, de Sling and Arrows), com quem vive em um condomínio ultra moderno localizado em um bairro de Toronto. Al é um escritor inseguro e hipocondríaco que busca em Davina a segurança emocional que precisa. Mas, quando Davina entra em crise, ela começa a se fechar, afastando-se emocional e socialmente do marido, da família e dos amigos, que por vezes não compreendem seu comportamento.


O texto abaixo contém spoilers.

Quando a série tem início, a impressão que temos é a de que Davina é a protagonista da história. No entanto, conforme seu estado depressivo aumenta, ela vai se diminuindo dentro da trama, colocando-se em segundo plano. Sem que o telespectador perceba, Al se torna o protagonista da história. Assim, ao invés de acompanharmos as dúvidas e inseguranças de Davina, testemunhamos a trajetória de Al.

O telespectador só percebe que o foco mudou quando descobre, junto com Al, que Davina tomou uma importante decisão em sua vida, mas não a compartilhou com o público: iniciou um romance com outro homem. Nós não temos qualquer acesso a esse romance. Não acompanhamos a decisão da personagem em tomar esta iniciativa e, mesmo depois da revelação, não somos convidados a presenciar o tipo de relação que Davina mantém com ele. Consequentemente, não temos ideia sobre o que ela pensa ou sente sobre esta relação ou sobre a forma como ela trocou o marido pelo amante. Por outro lado, continuamos a acompanhar a trajetória de Al: a forma como ele reage ao fato, o que ele pensa e sente, e as consequências do fim da relação com Davina.

A crise de meia idade de Davina inicia com um sentimento de insatisfação. Sem saber com o que está insatisfeita, ela começa a se incomodar com a sua idade. Ela então conhece Greg (Marc-André Grondin), um professor de piano que passa a dar aulas para Al. Interessado em mulheres mais velhas, Greg tenta seduzir Davina. A princípio ela parece interessada no rapaz mas, logo percebe o complexo de Édipo de Greg e se afasta. A personagem ainda tenta se envolver com outro homem, mas a situação é rapidamente resolvida.

Don McKellar e Kim Cattrall


Existem algumas cenas nas quais o subconsciente de Davina se expressa através de alucinações. Ela se vê conversando com seu duplo ou com mortos. Mas estes momentos são desperdiçados pelo roteiro. Tendo em vista que Davina não conversa com as pessoas sobre sua situação, estes momentos seriam a oportunidade que ela teria para se questionar ou tentar colocar as ideias e sentimentos em ordem. Ao invés disso, as cenas são rápidas e utilizadas apenas para expressar frases popularizadas em livros de autoajuda. Após a segunda alucinação, o recurso se torna repetitivo e sem brilho.

Ao longo da temporada, vemos Davina se encolhendo emocionalmente. Sua depressão a mantém na inércia. Ela não busca qualquer tipo de ajuda, seja através de terapia ou conversas com amigos e o marido. Cada vez mais calada e pensativa, ela é incapaz de expressar seus sentimentos. Ela vai se fechando e, aos poucos, desaparecendo, embora se mantenha presente fisicamente, abrindo caminho para Al se tornar o protagonista da história. Para aqueles que desejam se tornar roteiristas, é muito interessante acompanhar essa passagem, que é feita de forma sutil.

Al, por sua vez, tem dificuldades de ficar calado. Manifestando suas opiniões, por mais superficiais que sejam, ele parece uma bola que vai batendo nas paredes e a cada batida muda de direção. Sua insegurança o faz perder oportunidades, como a de divulgar seu trabalho em um programa de rádio; e seu medo de ter alguma doença grave o leva a visitar regularmente seu médico, Dr. H. Cass (Eliott Gould), ótimo personagem e utilizado na medida certa.


Dr. Cass atende Al há anos, explorando ao máximo os medos e insegurança de seu paciente. Colocando-se como uma pessoa atenciosa e preocupada com Al, ele planta em sua mente dúvidas sobre seu estado de saúde, que levam o paciente a pagar (caro) por mais um exame ‘só para ter certeza de que não é nada’.

No elenco de personagens também temos Orlando (Nicolas Wright, de Accidentally on Purpose e Manhattan Love Story), o filho de Al e Davina. Mantendo uma postura negativa sobre a vida, ele culpa os pais por todos seus problemas. O principal é o fato dele ser estéril, razão pela qual foi abandonado pela namorada, que desejava ter filhos. Agora Orlando tem um cachorro, para compensar.

Davina tem uma irmã, Veronica (Joanna Gleason, vista em The West Wing e The Good Wife), casada com Roger (Colm Feore, de The Borgias), com quem tem um filho, Michael (Chad Connell). Davina e Veronica não são as melhores amigas. Com um comportamento mais conservador e crítico, Veronica culpa Davina por todos seus problemas e neuroses. Ela se realizou através do marido, um homem de negócios que, ao entrar na meia-idade, perde o emprego. Mas isto não parece ser problema para ele, que sempre sonhou em se tornar artista.

O brasileiro Felipe Camargo faz participação recorrente
na segunda temporada da série estrelada por Kim Cattrall.


No elenco de apoio também está Clé Bennett (Shattered), um personagem mal aproveitado. Ele é Theodore, um traficante de rua que demonstra ter uma boa base cultural, o que o torna capaz de circular por diversos ambientes. Theodore faz amizade com Al quando transforma a frente do prédio em que ele vive em seu ponto de venda.

A série, de um modo geral, tem bons personagens, o problema são as situações que eles vivem, que são mal exploradas, mantendo-os na superfície. O que ajuda na construção dos personagens (tornando-os mais interessantes) é a forma como sua psicologia é expressada através do ambiente e cenários.

Quando a série tem início, somos informados de que o casal vendeu a casa em que moravam, bem como seus móveis, ficando só a cama (a qual é utilizada apenas para dormir e ler). Acreditando que a mudança de ambiente a fará reiniciar sua vida, Davina abre mão de seus bens materiais, mantendo intacto apenas seu relacionamento com Al, que permanece o mesmo no novo apartamento. Aos poucos, ela percebe que também precisa abrir mão de Al (mas como já comentei, não testemunhamos quando ela toma esta decisão ou de que forma).


Ao entrarmos no ambiente, percebemos que ele está todo pintado de branco. Sem móveis ou cortinas, cercado por enormes janelas, o apartamento parece uma tela em branco (referência à galeria de arte onde Davina trabalha) esperando para ser pintada. A insegurança de Davina faz com que ela adie o início da decoração. A falta de cortinas e a grande quantidade de janelas expõe a rotina do casal para o mundo, revelando que Davina está aberta a novas experiências, desejando ser vista e compreendida. O mesmo não ocorre com Al, que se incomoda com o apartamento (e consequentemente com a postura da esposa). Um dia ele decide pintar uma das paredes de vermelho, acreditando que Davina ficará satisfeita com a mudança. Mas a cor que representa o sangue da vida para Al é interpretada por Davina como a morte. Al estragou sua tela.

O primeiro móvel que Davina compra é um sofá tão desconfortável quanto sua vida no momento. Ao se sentar no sofá (retratado na primeira foto), ela busca várias posições que possam lhe trazer algum prazer de estar sentada nele (representando as tentativas, embora pequenas, de mudar de vida). Mas, não encontrando, ela acaba se sentando no chão (ação que representa a inércia da personagem). Davina quer mudar, mas não se sente confortável para tomar uma atitude.

O melhor episódio da temporada é o último, no qual os personagens finalmente começam a se olhar e a compreender seus problemas. A última cena sugere que Davina dará uma nova oportunidade ao seu casamento com Al. Mas, se a série for renovada e seguir a produção original, o que teremos é Davina se tornando protagonista de sua vida.

Sensitive Skin é uma produção da Rhombus Media, em parceria com a Baby Cow Productions, responsável pela série original.


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Texto publicado em 2014 no blog Nova Temporada da VEJA.com, onde fui colunista entre 2010 e 2016.

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