segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Rumo ao Sul: Uma Fábula Urbana


Por Flávia Furquim
Rumo ao Sul/Due South é uma série policial criada por Paul Haggis e produzida pelo Canadá em parceria com os EUA entre 1994 e 1999. Ela conta a história de Benton Fraser (Paul Gross), um Polícia Montada que vai a Chicago na trilha do assassino de seu pai, Robert (Gordon Pinsent), também um Montada, e que, por vários motivos, acaba ficando por lá trabalhando para o Consulado do Canadá e auxiliando o detetive da Polícia Ray Vecchio (David Marciano).
É difícil identificar o gênero de Rumo ao Sul. Em sua base, ela é um drama policial. Mas a série é uma produção da década de 1990, período em que se buscava contar histórias cada vez mais realistas, muitas das quais recheadas de cenas de violência. Nesta mesma década, a linguagem cinematográfica exercia forte influência na programação televisiva, e a emancipação feminina, que nas duas últimas décadas já vinha se manifestando, sobretudo através de casais protagonistas, começa, nos anos de 1990, a se firmar com personagens cada vez mais independentes.
Portanto, neste cenário, fica difícil definir o gênero da série. Podemos, de maneira geral, classificá-la como uma dramédia. Gross e Marciano referem-se a ela como uma fábula urbana. Durante suas quatro temporadas, podemos observar a evolução dos temas e da linguagem narrativa, a transição entre drama e sátira e a intromissão do surrealismo, que inicialmente está apenas na presença do fantasma do pai de Fraser, mas que vai progredindo para se incorporar na estrutura narrativa.
Dief e Fraser
Durante as duas primeiras temporadas o foco é o drama e elementos de comédia  permeiam os diálogos e algumas situações. Referências à cultura popular,  tanto na construção dos personagens (nomes de pessoas conhecidas) como nos roteiros pontuam as histórias, mas o que torna o gênero realmente mais flexível é o personagem central, Fraser, e sua relação com os demais.
Fraser é o exemplo do policial clássico de filmes antigos. Ele é totalmente incapaz: incapaz de roubar, mentir ou faltar com o respeito, incapaz de deixar de ajudar alguém em necessidade, incapaz de descumprir ou mesmo burlar a lei. Modelo de virtudes, que não descansa enquanto não cumpre seu dever e que sempre espera o melhor das pessoas, mesmo quando é bastante óbvio que esta expectativa seja totalmente irrealista!
No episódio piloto, Fraser corre riscos impensáveis para prender um bandido que estava praticando pesca proibida com dinamite, matando milhares de peixes ilegalmente. Cena semelhante foi colocada no início da terceira temporada, quando ele quase morre tentando fazer justiça com um indivíduo que estava jogando lixo tóxico próximo a uma cidade – em toneladas!
Sua primeira parceria é com o cão-lobo Diefenbaker, que salvou sua vida quando ainda era filhote. Dief é meio surdo (mas sabe fazer leitura labial) e um tanto temperamental, fugindo de Fraser toda vez que se sente deixado de lado. É com ele que Fraser “dialoga”  compartilhando seus pensamentos. Sua amizade com o cão é, portanto,  ponto central da história e muitos episódios se desenvolvem a partir disto.
Vecchio e Fraser
Em Diefenbaker’s Day Off, a ação se divide entre a investigação de Fraser e o “feriado” de Dief, que passeia pela cidade e acaba perseguido pelo funcionário do Centro de Controle de Zoonoses. Em Pizzas and Promises, Dief sai atrás de um carro roubado, obrigando Fraser a segui-lo porque o cão vai manter a perseguição até alcançá-lo ou “morrer tentando”.
Mas se Dief tem “comportamento” humano, Fraser, por sua vez, rastreia bandidos usando “técnicas” animais: ele fareja o caminho, coloca na boca coisas encontradas no chão (para desgosto profundo de Vecchio, que fica enojado cada vez que o vê fazendo isso – em quase todos os episódios) e usa a audição apurada para distinguir sons e reconstituir uma cena de crime (ChinatownWhite Men Can’t Jump to Conclusions).
Dief representa seu lado instintivo e tem a função de conectar Fraser com suas origens, no frio desolador do Yukon. É lá que ele desenvolve seus traços “sherloquianos”. Vivendo sozinho num ambiente natural agressivo, a observação minuciosa de cada detalhe ao seu redor é sua garantia de sobrevivência e, assim, ao chegar na cidade, consegue compor o perfil de uma pessoa simplesmente analisando detalhes de vestuário, corpo, pequenos gestos, etc., característica que se mostra muito útil ao longo de toda a série.
Mas o humor fica mais evidente quando visto através de seus parceiros humanos, pois os autores ressaltam e exageram propositalmente as diferenças entre eles. Se Fraser é o policial tradicional, correto e “certinho”, Vecchio é o protótipo do policial moderno: emotivo, irritadiço, malandro, impulsivo e que não se importa em driblar a lei para solucionar um caso além de, naturalmente, não confiar em ninguém, sempre se preparando para o pior em cada pessoa que encontra.
Vecchio e Fraser
De origem italiana, Vecchio fala o tempo todo (e sempre em voz alta), gesticula muito e usa roupas chamativas enquanto Fraser é um sujeito calado que está quase sempre com o uniforme impecável. A ginga e a postura flexível de Ray contrastam com a rígida postura militar de Fraser. O estereótipo cultural entre as diferentes nacionalidades também é acentuado e usado como efeito cômico: os canadenses são extremamente educados, gentis, atenciosos e tranqüilos enquanto os americanos (da cidade grande) são apressadinhos, geralmente agressivos, individualistas, nervosos e exigentes.
Vecchio cresceu num ambiente urbano com uma grande família e, divorciado, ainda vive com eles. Apesar de ser bastante sociável e ter amigos, sua grande “paixão” é seu carro, um Buick Rivieras verde de 1971. Fraser, por sua vez, cresceu isolado na regiões mais frias do Canadá. Órfão de mãe, quase nunca encontrando o pai, foi criado pelos avós, passando a maior parte do tempo numa biblioteca. Mas nem só de opostos vive esta dupla. Tanto Vecchio quanto Fraser são movidos pelo objetivo de solucionar um caso, embora a atitude do primeiro seja mais despreocupada e menos obssessiva.
Nas duas primeiras temporadas, existe um forte componente emocional com mensagens positivas. Encontramos personagens envolvidos em algum tipo de crime ou sofrendo alguma injustiça que a dupla de policiais vai investigar e solucionar, tais como um trombadinha que é encontrado com a arma usada para um assalto a banco (Free Willie); o pai de uma criança envolvido em um esquema de fraudes (Diefenbaker’s Day Off); vários casos de intoxicação alimentar causados por fraude de frigoríficos (They Eat Horses, Don’t They?) e o seqüestro de um rapaz pela máfia em Chinatown (Chinatown), por exemplo.
Em One Good Man, Fraser repete os passos do personagem de James Stewart em Mr. Smith Goes to Washington e, tentando evitar que os inquilinos de seu prédio sejam desalojados pelo novo dono (que quer construir no local) toma a palavra e se recusa a parar até convencer a Câmara Municipal a negar permissão para a demolição.
Fraser e Vecchio em “North”
Apesar da aparente inverossimilhança do personagem, que parece ser uma espécie de super-homem, a excelente atuação de Paul Gross o torna bastante verdadeiro. Não há um só momento em que se possa ver um sorriso debochado ou um olhar malicioso, que desmontariam completamente o personagem e a história contada. O tempo todo, o que temos é a candura de um menino e a seriedade de um homem profundamente comprometido com seus princípios morais. Contudo, vários roteiros trouxeram situações que humanizam Fraser, dando oportunidade ao telespectador de enxergar suas dúvidas, seu lado vulnerável e sua luta interna para decidir o que é certo e o que é errado e qual a atitude que ele deveria tomar.
Em North, após a queda de um avião, Vecchio e Fraser estão perdidos na selva perseguindo um assassino. Este seria o momento para o Montada mostrar suas habilidades e tirá-los de lá sem problemas, mas há um agravante: Fraser está temporariamente cego. Ao longo do episódio, observamos sua luta para não perder o auto-controle e para evitar o pânico.
Em The Edge, eles precisam localizar e prender um assassino político que mostra ter habilidades de sobrevivência excepcionais. Parecendo sempre estar à frente de Fraser, este começa a achar que está perdendo “o toque” e tem pesadelos onde se vê julgado por crianças que riem da sua perda de capacidade.
Victoria e Fraser
Mas é em um dos mais bonitos episódios da série, Victoria’s Secret,  que ele se mostra mais desamparado. No passado, havia perseguido uma assaltante de banco, Victoria Metcalf (Melina Kanakaredes), até quase a morte de ambos. Impressionado e dividido, Fraser decidiu cumprir seu dever e a entregou para ser presa. Mas nunca teve certeza de ter agido bem e, ao reencontrá-la, percebe estar apaixonado e tenta consertar seu erro. Este episódio, e sua seqüência, Letting Go, apresentam os momentos mais dramáticos da primeira temporada e desenvolvem com mais profundidade a amizade entre os dois protagonistas.
O humor, no entanto, esteve sempre presente, seja no exagero da caracterização do Montada, seja nos contrastes de personalidades ou no absurdo das situações. No episódio Manhunt, vemos pela primeira vez o velho amigo de Robert Fraser, o Sargento Buck Frobisher (Leslie Nielsen). Ainda que seja basicamente drama e ação, algumas cenas já introduzem o humor histriônico e non-sense pelo qual Nielsen ficou famoso, e que será ampliado em suas próximas aparições em All the Queen’s Horses eCall of the Wild.
Mas é no episódio The Gift of the Wheelman que o surrealismo irrompe de vez, com a presença do fantasma de Fraser Sr., o pai de Benton. É Natal, e Fraser tem se dedicado a ler os diários de seu pai. Uma narrativa em off destas memórias já havia aparecido em episódios anteriores, mas aqui é o próprio espírito que vem para dialogar com o filho.
Robert, Frobisher e Fraser
A princípio, pode-se imaginar que o fantasma é a consciência de Fraser, surgindo nos momentos em que está confuso e precisando de orientação, ampliando e desenvolvendo a história pessoal de Benton. Este recurso também é usado com Ray, que vê o fantasma de seu pai (David Calderisi) de vez em quando. Posteriormente, quando Frobisher e Robert se encontram e se comunicam em All the Queen’s Horses, fica estabelecido o realismo mágico no enredo, abrindo espaço para novos caminhos narrativos.
Um outro aspecto a ser observado sobre a série é que ela retrata o universo masculino, uma característica da época em que foi produzida, e deixa as mulheres como coadjuvantes e convidadas. Não se trata apenas do pouco espaço dado a elas e sim do fato de que são apresentadas através da ótica dos personagens masculinos, ficando um pouco estereotipadas.
Inicialmente, as duas personagens femininas que se destacam são Elaine Besbriss (Catherine Bruhier) e Francesca Vecchio (Ramona Milano). A primeira é uma funcionária civil que trabalha na Delegacia. Sempre elogiada por Vecchio e Benny, sua participação se restringe a fazer pesquisas no computador e a ser mais uma das eternas apaixonadas pelo gentil canadense. No início da terceira temporada, ela conclui seu curso e entra para a força policial, deixando a série.
Já Francesca, irmã divorciada de Ray, completamente fascinada por Fraser, dedica a maior parte de seu tempo a se arrumar, a procurar um marido e/ou assediar Benton que, não desejando magoá-la, sente dificuldades em estabelecer uma distância “segura”. A partir da terceira temporada, ela assume o cargo deixado por Elaine e sua personagem cresce  (e amadurece) um pouco.
Fraser e Francesca
Na segunda temporada, temos a presença de Margaret Thatcher (Camilla Scott), cujo nome é referência à Primeira-Ministra Britânica. Ela é uma mulher que tem a carreira como prioridade, que se orgulha de seu país e tenta dirigir o consulado com mão de ferro. Veio para Chicago fugindo de assédio sexual, mas acaba tendo que se controlar para não assediar Fraser, apesar de que, ao chegar, ela pareça ter uma opinião negativa dele e o tratar com rigidez.
Vemos aqui um exemplo de uma mulher em posição de autoridade tentando ser respeitada por homens sob seu comando através de um comportamento quase agressivo. A situação tem ecos na Delegacia, quando a Comandante Shelly O’Neill (Shelly Miller) aparece como superior do chefe de Ray, o Tenente Harding Welsh (Beau Starr), deixando-o desconfortável (The Witness).
Outras participações femininas reforçam os estereótipos. Podem ser frívolas e/ou mimadas (Chicago HolidayAn Invitation to Romance), submissas à autoridade familiar (Irene (Carrie-Anne Moss), grande amor de Ray em Juliet is Bleeding) ou ex-esposas insensíveis (Angie Vecchio (Katayoun Amini) e Stella Kowalski (Ane Marie Lodder).
As mulheres fortes ou independentes correspondem à imagem das feministas que se esforçam por provar que podem ocupar espaços masculinos, como a própria Margaret; Janet Morse (Wendy Crewson em Bounty Hunter), uma caçadora de recompensas que arrasta os filhos consigo enquanto persegue bandidos; a Agente Especial Suzanne Chapinou (Susan Gibney), por quem Ray se apaixona em You Must Remember This; ou a Polícia Montada Maggie MacKenzie (Jessica Steen em Hunting Season) que tem as mesmas habilidades e técnicas de rastreio de Fraser.
Margaret e Fraser
No fim das contas, a série é toda construída com estereótipos, mas uma outra característica do mundo masculino que aparece com freqüência é a dificuldade que os homens têm de falar sobre suas emoções. Em All the Queen’s Horses, os sentimentos surgidos entre Fraser e Margaret causam um certo embaraço em Robert e Frobisher e são narrados de forma cômica. Em Bird in the Hand, Fraser usa o constrangimento que os homens sentem ao compartilhar suas emoções para, literalmente, salvar sua vida.
terceira e quarta temporadas diferem das duas primeiras por vários motivos: a rede CBS desistiu do projeto, que passou a ter produção exclusiva do Canadá; David Marciano decidiu não renovar o contrato e Paul Gross passou a atuar também como produtor. Fraser ganha então um novo parceiro, Stanley Kowalski (Callum Keith Rennie).
O tom muda um pouco e passa a ser mais cômico e estilizado. Os personagens assumem ares de caricatura, mas sem perder o elo com o drama, que era o fio condutor das duas primeiras temporadas. Novas formas narrativas são exploradas, saindo um pouco da fórmula dos seriados policiais, mas ainda mantendo elementos essenciais, tais como as cenas de ação e perseguições.
O surrealismo já estava presente na figura do fantasma do pai de Fraser, mas agora fica mais evidente, ao ponto de, em um episódio (Doctor Longball), os mesmos atores interpretarem papéis diferentes e nenhum comentário ser feito a respeito das semelhanças físicas. E as mulheres passam a ter mais presença, uma participação mais relevante dentro da série, em sintonia com o crescente fortalecimento da emancipação feminina, em pleno vapor na década de 1990.
A parceria Fraser-Kowalski também trabalha a questão dos opostos. O novo colega é um policial cheio de problemas emocionais. Divorciado, não consegue esquecer a esposa, Stella (os nomes deles fazem referência à peça Um Bonde Chamado Desejo). Para completar, sendo uma advogada, ela volta e meia aparece aparece na Delegacia por estar representando um cliente investigado por eles, tornando difícil separar vida pessoal e profissional.
Kowalski e Fraser
Stanley é um indivíduo fragilizado e que no momento está ainda mais confuso devido à sua recente separação. Assumindo a identidade de Ray Vecchio, que foi trabalhar infiltrado na Máfia, ele está, na verdade, tentando fugir de seus próprios problemas. Fraser percebe isto e, instintivamente, passa a ter uma atitude mais protetora em relação ao colega, mudando a dinâmica que ele tinha com Vecchio.
Antes, o conflito e o humor surgiam da dupla de desconhecidos que estão aprendendo a trabalhar juntos. Vecchio toma para si o papel de “iniciar” Fraser nos mistérios e perigos da cidade grande enquanto este se esforça para adaptar suas técnicas e conhecimentos da vida selvagem em seu novo ambiente.
Quando Stanley chega, Fraser está totalmente adaptado. Mais ainda, está vivendo no próprio Consulado Canadense e tem a companhia constante de Margaret e de Renfield Turnbull (Dean McDermott), um Polícia Montada ingênuo e quase infantil e que admira Fraser como um superior a quem tem por modelo. Protegido pela imunidade política do local, sente-se em sua pátria e, em alguns episódios (AsylumMountie Sings the BluesHunting Season), ele oferece proteção ou exerce a autoridade sobre outros policiais.
Com Kowalski, existe uma espécie de irmandade. Fraser freqüentemente ouve os desabafos do colega e oferece um ombro amigo para os seus lamentos. E, sendo uma amizade mais profunda, os desentendimentos são também mais sérios. Em Mountie on the Bounty, chegam ao ponto de decidirem encerrar a parceria.
Paul Gross e Dief
Com Gross assumindo também o papel de produtor da série, seu personagem dá mais espaço para os coadjuvantes e os conflitos de Stanley, os sonhos de Francesca, as trapalhadas de Turnbull e as tentativas dos detetives Huey (Tony Craig) e Dewey (Tom Melissis) de encontrar uma carreira mais satisfatória ganham mais destaque.
Ainda temos histórias com interesse dramático, mas a produção opta por contá-las de modo mais criativo. Assim, em Seeing is Believing, três testemunhas apresentam três versões muito diferentes de um mesmo assassinato. Em Dead Guy Running, a piada recorrente de um corpo sendo transportado de um lado para outro como se estivesse vivo é convincentemente retratada e em Dead Men Don’t Throw Rice, Fraser vai parar num caixão ao tentar encontrar provas para prender um gângster, provocando uma tremenda comoção entre seus amigos.
Então, seria Rumo ao Sul uma fábula? Bem, ela não tem caráter doutrinador, não passa lições de moral, mas as mensagens positivas e o bom caráter do protagonista, que sempre incentiva as pessoas a serem bons cidadãos e a optarem por mostrar suas melhores qualidades no dia-a-dia podem funcionar como um elemento deste gênero narrativo.
O uniforme impecável de Fraser, que não suja nem mancha mesmo quando ele se atira dentro do lixo, é a metáfora perfeita para seu caráter incorruptível, que permanece intocado mesmo quando circula entre pessoas de moral duvidosa.
A presença marcante de Diefenbaker, um cão, interagindo com humanos como se fosse um deles, também oferece mais uma conexão com esta forma literária, bem como o hábito que tanto Fraser quanto seu pai possuem de contar pequenas histórias: histórias de fantasmas e navios naufragados ou bandidos implacáveis, histórias sobre seu passado ou de pessoas que admiram. Histórias que se desdobram dentro da história, trazendo para a série a tradição da narrativa oral.
E por quê contamos histórias? Elas nos oferecem oportunidades de compartilhar experiências, repassar nosso aprendizado e ampliar nossa própria existência, a partir da vivência de outras existências, reais ou fictícias. E num momento em que as produções se esforçam por serem realistas, explícitas e sem polimentos, Rumo ao Sul oferece um toque de fantasia com histórias envolventes onde os bons exemplos ganham a confiança e a adesão de indivíduos “desencaminhados”, onde o bem triunfa sobre o mal, deixando no telespectador uma sensação, real ou ilusória, não sabemos, mas certamente boa, de que há esperança para a humanidade.


To The Ends Of The Earth: Uma Viagem Interior


Por Flávia Furquim
Nesta minissérie sobre uma viagem marítima não há bandidos ou mocinhos, heróis ou psicopatas. Não há grandes reviravoltas ou cliffhangers e a história não avança num ritmo alucinante ou cômico ou dramático. E acho totalmente compreensível se você, leitor, não conseguir assistir até o fim do primeiro episódio, já que nada realmente significativo acontece antes dele chegar na metade. Nada, é claro, além de mostrar a precariedade das condições do navio, o desconforto e o quanto esta viagem será difícil, angustiante e até mesmo nauseante, tanto para os personagens quanto para o telespectador.
Mas, se insistir, e se histórias que mostram pessoas cheias de peculiaridades convivendo umas com as outras em situações limite são do seu agrado, talvez possa apreciar esta adaptação da obra de William Golding, escritor famoso por seu livro O Senhor das Moscascujo tema principal é a luta pelo poder dentro da sociedade retratada na história de um grupo de meninos perdidos em uma ilha.
Já em To The Ends Of The Earth (disponível no Netflix), uma trilogia publicada durante a década de 1980 e composta dos livros Rites of PassageClose Quarters e Fire Down Below, que são os títulos de cada um dos três episódios da minissérie, o tema principal é o convívio entre diferentes classes sociais e o processo de amadurecimento emocional de um rapaz no início do século XIX.
Edmund Talbot (Benedict Cumberbatch) é um jovem aristocrata viajando para Austrália num antigo navio de guerra, transformado em navio de passageiros, com o objetivo de ocupar um cargo no gabinete do governador, um emprego indicado por seu padrinho, uma pessoa altamente influente. Ele lhe pede que escreva um diário, relatando tudo o que puder sobre a viagem e as pessoas à bordo, com intuito de estimular a capacidade de observação do afilhado.
Edmund Talbot
Passageiros e tripulação formam um grupo muito heterogêneo mas representativo da sociedade britânica da época e, através do diário de Talbot, acompanhamos o esforço de cada um para suportar as dificuldades do longo confinamento, as diferenças de opinião e atitudes e os perigos de atravessar o globo terrestre numa velha embarcação.
Em Rites of Passage acontece uma morte e o capitão Anderson (Jared Harris) pede que Talbot testemunhe a investigação, já que ele é a figura de autoridade mais importante entre os passageiros.  Em Close Quarters, o navio enfrenta uma calmaria e a perspectiva de batalha com os franceses, com quem estão em guerra. Um inusitado baile acontece em pleno oceano e Talbot sucumbe a uma paixão instantânea por Marion Chumley (Joanna Page). Contudo, a viagem se arrasta, o navio sai de rumo e parte da quilha se desprende do navio e afunda. O pânico geral causa uma nova morte.
A história se conclui no terceiro episódio, Fire Down Below, que apresenta um casamento e a rivalidade entre dois tenentes, que debatem sobre a melhor maneira de consertar um mastro partido numa tempestade. Talbot faz amizade com o tenente Summers (Jamie Sives) e, a seu convite, passa a auxiliar na vigília noturna. Após um último grande perigo, chega finalmente a seu destino.
A narrativa se movimenta a partir dos desafios da situação. Talbot é um jovem idealista, ingênuo e bem-humorado, mas inexperiente fora do ambiente em que nasceu e cresceu. Totalmente identificado com os valores e costumes da sociedade de então, exibe uma atitude arrogante que não vem de uma má índole. É apenas o resultado de uma vida fácil, de quem está acostumado a ser servido.
Ao entrar em contato com pessoas muito diferentes de si mesmo, Talbot mostra habilidade social e conversação afável típica da alta sociedade, buscando interagir com as pessoas com sinceridade e entusiasmo mas, ao mesmo tempo, mantendo a distância e respeitabilidade características do cavalheirismo britânico.
Entre os passageiros estão o Reverendo Colley (Daniel Evans), um homem tímido e ansioso por agradar, que tenta fazer amizade com Talbot, sem muito sucesso; Miss Graham (Victoria Hamilton), a filha de um clérigo que se ressente do fato de precisar trabalhar como governanta; o Sr. Brocklebank (Richard McCabe), um velho pintor viajando com a esposa (Denise Black) e a filha Zenobia (Paula Jennings); e o Sr. Prettiman (Sam Neill), um intelectual ativista e ateu.
Talbot e o Capitão Anderson
Na tripulação, além do Capitão Anderson, um homem reservado, anti-religioso, com atitudes ditatoriais e que prefere a companhia das plantas em sua cabine à dos passageiros, estão o tenente Charles Summers e o tenente Deverel (JJ Feild), jovem mais interessado na bebida e nas glórias das batalhas do que em servir num navio de passageiros. Atendendo-o em sua cabine, está Wheeler (Brian Pettifer), um senhor atencioso, marujo experiente e prestativo que ajuda Talbot em todas as suas necessidades.
É interessante observar que, nesta história, não existe uma tentativa de educar o leitor ou telespectador nos valores do “politicamente correto”. Os personagens são apresentados de maneira crua e sem idealizações. São todos preconceituosos, cada um ao seu modo, e possuem igualmente virtudes e defeitos.
A tensão resultante da interação entre os personagens, assim como na vida real, é o que gera os conflitos e as dificuldades. E as mudanças que acontecem nestas interações, decorrentes do amadurecimento pessoal, das amizades e inimizades que se estabelecem e da maneira como cada um enfrenta as situações encontradas são o ponto focal da trama.
Talbot, que inicia a viagem com ingenuidade e idealismo quase infantis, descobre que ter uma posição de autoridade acarreta responsabilidades perante outras pessoas, que olham para ele com respeito mas também como um modelo. Percebe que, se não fosse por sua apatia e indiferença pelo que acontecia à bordo, poderia ter contribuído para impedir as mortes que aconteceram.
Sua auto-imagem se transforma e percebe coisas sobre si mesmo que não aprecia. Esta percepção muda seu comportamento, que vai de uma descontraída atitude de auto-importância, passa pela sensação de se sentir desajeitado e incapaz de agir com eficiência até chegar numa madura aceitação das responsabilidades que seu cargo exigirá dele.
Tenente Summers
Sua amizade com o tenente Summers também contribui para isto. Summers é um homem altamente perspicaz e perceptivo. Vindo da classe baixa, começou como um marujo e ascendeu ao posto de tenente por seu mérito, por sua capacidade de observação e sua competência. Não utiliza suas habilidades para proveito pessoal, mas para aprimorar-se na profissão. Possui o que Talbot não tem, auto-crítica e humildade suficientes para questionar suas próprias motivações ocultas, sobretudo no embate com o tenente Benét  (Niall MacGregor).
Talbot também se aproxima do Sr. Prettiman e de Miss Graham, pessoas que não apenas não pertencem à sua classe social, mas possuem idéias políticas diferentes das suas, e acaba desenvolvendo respeito e admiração por eles, travando discussões filosóficas que ajudarão a passar o tempo perto do final da viagem.
Os temas principais da obra de Golding são a moralidade, religiosidade e a questão do bem e do mal no ser humano. Para isto, coloca seus personagens em situações extremas ou difíceis. Em O Senhor das Moscas, os meninos perdidos em uma ilha revertem para a selvageria, destruindo-se pelo poder. Em To The Ends Of The Earth, Golding parece crer que a convivência humana, ainda que conflituosa, pode sobreviver aos impulsos regressivos que habitam em cada um de nós.
A história questiona inicialmente a indiferença com o próximo, o desejo de humilhar e impor-se aos outros e o poder da vergonha. Apenas um verniz social mantém a convivência entre desconhecidos que estão confinados num ambiente que se desfaz e ameaça sua sobrevivência. Durante a viagem, os relacionamentos evoluem e o navio vai se deteriorando. Acidentes e enfermidades, atos de desespero e hostilidade se entrelaçam com gestos de lealdade e amizade, que provam ser mais eficientes para garantir o sucesso da jornada.
Sr. Prettiman
Os conflitos e os preconceitos entre as classes sociais não têm conseqüências trágicas, mas permeiam todas as cenas. O Capitão despreza os atos religiosos e se diverte em sabotá-los. O Sr. Prettiman vê a todos que não têm estudo como ignorantes e supersticiosos. Talbot cumprimenta Summers em sua habilidade de “imitar com perfeição os modos e o discurso de uma posição mais elevada”. Summers receia ser franco com Talbot por medo de que ele se vingue, usando sua influência com o capitão para prejudicá-lo.
A minissérie parece ser bem-sucedida ao transportar para a tela os temas básicos da obra de Golding. O mal-estar, proposital para o debate de suas idéias, dificulta acompanhar os primeiros momentos, mas a narrativa em forma de um diário, que fornece o ponto de vista de Talbot, nos aproxima de cada personagem. Estes podem ver no outro a personificação de características que admiram ou desprezam e a si mesmos como representantes da verdade, mas precisam uns dos outros para chegarem ao seu destino.
Miss Graham
Ao final, Talbot é um outro homem. Pede notícias dos companheiros de viagem por quem antes sentia apenas indiferença. Miss Graham aconselha Talbot a seguir com sua vida, como fizeram os outros passageiros, e a não aumentar o significado da viagem, apesar de sua longa duração. “A viagem não foi uma odisséia”, diz ela. “Não foi um modelo, emblema ou metáfora da condição humana. Foi apenas uma série de eventos.”
Talvez. Mas esta “série de eventos” reflete os pequenos e grandes dramas cotidianos da sociedade, quando se trata das diferenças individuais, espelhando de maneira interessante como os conflitos surgem e como podem desaparecer a partir da compreensão do outro como um ser distinto de nós mesmos mas, ao mesmo tempo, tão semelhante naquilo que todos temos em comum, nossa humanidade.

Star Trek Continues – Finalizando a Missão de Cinco Anos

Por Flávia Furquim
Como se sabe, Jornada nas Estrelas/Star Trek é uma franquia longa e próspera há mais de 50 anos tanto na TV quanto no cinema. Não se passou nem uma década sem que pelo menos uma de suas versões estivesse no ar ou disponível para o fãs, isto desde sua estréia, em 1966.
Como também se sabe, nem sempre a série foi um sucesso. Ela lutou com a baixa audiência nos primeiros anos e foi salva graças às habilidades de divulgador de Gene Roddenberry, que soube se conectar com os fãs e, juntos, salvaram o programa de ser cancelado ainda no segundo ano. Também foram eles que, posteriormente, a consagraram quando esta começou a ser reprisada.
Roddenberry também estimulou a venda de produtos agregados, material referente à série. Este comércio disponibilizou artigos tais como uniformes, fêisers e comunicadores, miniaturas e manuais da Enterprise, da Federação, mas também fotografias, roteiros, compêndios, vídeos com os famosos erros de gravação e informações sobre bastidores e produção, tanto do ponto de vista da equipe quanto da parte técnica.
STC: cenário de What Ships Are For
A mobilização dos fãs passou a ser um fenômeno à parte. Eles se reúnem em convenções, fantasiam-se de seus personagens favoritos, organizam fãs-clubes, produzem fanzines, escrevem romances (fanfic) e histórias em quadrinhos. E, com a chegada da era digital oferecendo acesso à tecnologia de qualidade e uma plataforma para disponibilização, a Internet, uma nova forma de homenagear a série ficou ao alcance dos trekkers: escrever e produzir episódios inéditos.
Entre as muitas produções disponíveis no Youtube, uma chamou minha atenção: Star Trek Continues, uma websérie que recria o universo da série clássica, com fãs interpretando os mesmos personagens e vivendo novas aventuras a bordo da USS Enterprise. Assim que passou o estranhamento de ver personagens tão conhecidos com rostos e vozes diferentes, eu comecei a ter a sensação de que estava assistindo episódios perdidos da série original. Pesquisando na web, descobri que não sou a única. Muitos fãs da clássica têm esta mesma sensação.
O responsável pelo projeto é Vic Mignogna, ator e músico com um extenso currículo de dublagem de vídeo games e animes. Após dirigir o episódio The Price of Anything, da série de fãs Starship Farragut, Mignogna decidiu realizar seu sonho de dar uma continuidade à missão de cinco anos da série clássica, que havia sido interrompida com o cancelamento.
Cenário de Star Trek Continues
Em parceria com a equipe da Farragut, alugaram um espaço e recriaram o cenário de acordo com as especificações originais, disponíveis na Internet. Ele foi reconstruído centímetro a centímetro, mesmo tamanho e proporções e com uma espetacular atenção aos detalhes, tais como alguns objetos de decoração do alojamento de Kirk (uma estatueta e o espelho). Este grau de fidelidade é a primeira coisa que demonstra a seriedade do projeto. E este foi o primeiro passo.
O dinheiro para o material veio do bolso de Mignogna. Após criarem algumas vinhetas, e depois do sucesso dos primeiros episódios, a equipe utilizou crowdfunding entre os fãs para financiar o restante da produção dos 11 episódios filmados, disponíveis no site Star Trek Continues e  no Youtube, em alta qualidade e com legendas em inglês, português, espanhol, italiano, francês, russo, alemão, catalão, croata, húngaro e tcheco.
Mas obter cenários precisos por si só não bastaria para garantir a grande verossimilhança com a Jornada nas Estrelas que nós conhecemos. Uniformes, acessórios e objetos de cena podem ser obtidos facilmente, e com observação e pesquisa, se recriam os penteados e maquiagem característicos da década de 1960.
Mas Mignogna estava atento a todos os detalhes, tais como iluminação e ângulos de câmera. Na época, por causa da baixa definição dos televisores, havia diálogos inteiros em close-up ou com planos até a cintura. Eu sempre senti que isto aproximava os personagens do telespectador, como se estivéssemos participando da conversa. Já para os efeitos especiais, buscou-se evitar o uso do CGI e realizar cenas da maneira como se fazia na época, sempre que possível.
Outro detalhe lembrado é a trilha sonora. A música incidental de Jornada nas Estrelas é parte fundamental da atmosfera dos episódios. Embora ela também esteja ao alcance dos fãs, já há muito tempo, Mignogna não se limitou a introduzir trechos tirados diretamente das gravações originais. Como músico, ele valoriza a sincronização da música com a ação.
Assim, na sua edição, ele eliminou e/ou acrescentou compassos para encaixá-la perfeitamente com as sua cenas, alterou andamentos, acelerando ou desacelerando conforme a necessidade, acrescentou digitalmente instrumentação adicional e mudou a tonalidade de alguns trechos para criar continuidade entre os temas musicais.
Mignogna, Stinger, Doohan, Huber, Specht e Imahara

Mas alguns episódios (Come Not Between the DragonsDivided We StandThe White Iris e To Boldly Go Parte II) receberam um tratamento mais especializado: uma orquestra de fãs se reuniu para executar a trilha sob a regência de Andy Farber, professor da disciplina de Arranjos em Jazz na Juilliard School of Music e integrante da Jazz Orchestra do Lincoln Center.Ele também compôs material novo, mas inspirado nos temas clássicos.
Estão no elenco o próprio Mignogna, como o Capitão Kirk e Todd Haberkorn como Spock. O Dr. McCoy foi interpretado por Larry Nemecek nos episódios 1 e 2 e depois por Chuck Huber, e Chris Doohan, filho de James Doohan, recriou o papel do Sr. Scott. Temos ainda Grant Imahara, como Sulu, Kim Stinger, como Uhura e Wyatt Lenhart como Chekov. Mas uma nova personagem foi criada para integrar a tripulação da nave. A Dra. Elise McKennah (batizada assim em homenagem à personagem de Jane Seymour em Em Algum Lugar do Passado/Somewhere in Time), interpretada por Michele Specht, é a conselheira da USS Enterprise. Kipleigh Brown é a Tenente Smith, Cat Roberts é a Tenente Palmer e Steven Dengler é o Tenente Drake.
Atores conhecidos aceitaram participar sem remuneração, tais como John de LancieMichael ForestLou FerrignoColin BakerJamie BamberAnne LockhartErin GrayClare KramerNicola Bryant e Cas Anvar entre outros. Marina SirtisMichael Dorn e Jason Isaacs emprestaram suas vozes para o computador da Enterprise, o computador da nave no universo espelho e como um dos psiônicos, respectivamente. Amy Rydell, filha de Joanne Linville, reprisou o papel de sua mãe como a Comandante Romulana em The Enterprise Incident.
Outras pessoas ligadas à história de Jornada também fizeram cameos ou contribuíram nos bastidorestais como Rod Roddenberry, filho de Gene, Bobby Clark (que interpretou o Gorn, em Arena), ou Craig Huxley, que interpretou o sobrinho de Kirk em Operation:Annihilate! e uma das crianças em And The Children Shall Lead. Como músico, Craig patenteou um instrumento de alumínio chamado de Blaster Beam, que foi usado por Jerry Goldsmith para a trilha sonora de ST: The Motion Picture, por James Horner para ST: The Wrath of Khan, e por Robert Prince para o episódio Spaced Outda terceira temporada de A Mulher Maravilha/Wonder Woman.
Mas o que torna Star Trek Continues realmente especial são os roteiros. Como disse Mignogna, muita gente, quando pensa em Jornada nas Estrelas, se lembra da nave, dos efeitos especiais, das tecnologias futuristas, o triunfo da ciência moldando o futuro da humanidade, das cenas de ação, luta física e batalhas espaciais, das raças alienígenas, Klingons, Romulanos, das cenas românticas, as mulheres sensuais, do destino trágico dos redshirts/camisas vermelhas, e por aí vai.
Ainda que tudo isto faça parte daquilo que a série representa, não se pode esquecer que esta parte sempre foi apenas a roupagem. O verdadeiro espírito de Jornada nas Estrelasé a história que estimula o debate, a reflexão sobre temas sociais, políticos, éticos, morais ou filosóficos apresentados sob diferentes pontos de vista, quase sempre sobre situações ou questões relevantes em sua época.
McCoy, Kirk e Spock
A série original surgiu e foi produzida na tradição iniciada por Rod Serling e seus contemporâneos, que produziram Além da Imaginação/Twilight Zoneutilizando a fantasia e a ficção científica para abordar temas atuais e que costumavam ser censurados na TV dos anos de 1950. Com o passar do tempo, fãs, e até mesmo produtores, parecem se identificar mais com a roupagem do que com o conteúdo, a história a ser contada.
Há quem argumente se a Jornada clássica não estaria conduzindo opiniões ao invés de simplesmente mostrar um debate, construindo o enredo para que o público concorde com desfecho proposto. Se comparada com outros dramas da época, pode-se chegar a esta conclusão.
O didatismo na TV vem desde a década de 1950, quando se procurava “educar” o público com soluções prontas e adequadas ao American Way of Life. Mas o movimento do “politicamente correto” só começaria a se cristalizar a partir da década de 1980 e já é possível detectar sua influência nos roteiros de JNE: A Nova Geração.
Acontece que Jornada clássica é uma utopia sobre um futuro positivo. Ela necessariamente assume uma posição condizente com a sua mensagem, mas o faz mostrando os pontos de vista de ambos os lados de um confronto. E, se não é um drama puramente de debates, também não pode ser considerada somente entretenimento.
O elemento de capa-e-espada, o humor e o romance podem ser o meio perfeito para levar o debate e a reflexão a um público bem maior, que não estaria primeiramente interessado em sentar-se frente à TV, após um dia cansativo de trabalho, e assistir discussões filosóficas sobre a vida.
Tudo isto precisou ser levado em consideração na hora de tomar decisões relativas a este projeto. O objetivo era dar continuidade à série clássica e servir de elo entre ela e os filmes do cinema e versões mais recentes da franquia, e é este objetivo que norteia a equipe na hora de tomar decisões estilísticas e de roteiro. Por exemplo, o formato narrativo e o estilo de atuação são os mesmos da década de 1960.
STC: Pilgrim of Eternity
Quando perguntado se, ao interpretar Kirk, Mignogna faz sua versão do personagem ou se interpreta William Shatnerinterpretando Kirk, ele deixa bem claro que, para criar a ilusão de continuidade, é preciso que os trekkers reconheçam o capitão tal como ele era na versão original. O mesmo, é claro, se aplica a todos os outros personagens.
Houve também um cuidado especial a ser tomado. A série e seus atores foram parodiados e satirizados por muitos comediantes, ainda que carinhosamente, como fãs que também são, mas Mignogna sentiu que precisava exercer um certo limite na imitação para que não parecesse caricatura. Filho de pais separados, o ator tem Shatner como figura paterna em sua memória afetiva e, como ator de animes, participando de convenções, conheceu pessoalmente e fez amizade com ele. Deseja, portanto, respeitar o legado destas atuações. Mas, acima de tudo, deseja que sua produção seja levada a sério.
Do ponto de vista da história, já no primeiro episódio vemos Kirk experimentando uma versão primitiva do holodeck. A personagem da Dra. McKennah é introduzida como participante de um programa experimental para a função de conselheiro de naves estelares. A decisão sobre a existência desta função dependerá do relatório de Kirk e sua opinião sobre se ela é relevante ou mesmo necessária.
Outra questão que surge para quem quer conectar duas versões de uma história separadas pelo tempo é a necessidade de buscar elementos semelhantes na construção do roteiro. Isto foi feito no cinema, com a retomada do personagem de Ricardo Montalban em A Ira de Khan/The Wrath of Khan, mas também em vários episódios de JNE: A Nova Geração/ST:The Next Generation e se repete, sempre que possível, em todas as novas versões da franquia.
Assim, no primeiro episódio, Pilgrim of EternityMichael Forest reprisa seu papel como Apolo em Who Mourns for Adonais?. O envelhecimento físico “precoce” do personagem é o ponto de partida para a ação desta aventura que acontece apenas dois anos depois dos eventos originais. Há cenas inspiradas em Charlie X e ST:The Motion Picture.
STC: Lolani
Em Lolania Enterprise encontra um sobrevivente de uma nave Telarita e surge uma discussão ética sobre seu destino. Cenas inspiradas em Space SeedFairest of Them All retoma o universo espelho de Mirror, Mirror, e dá seqüência à proposta de Kirk ao Spock do universo paralelo (com o detalhe de reproduzir a conversa final entre os dois vista no episódio da clássica). Em The White Iris, Kirk é assombrado por fantasmas de seu passado enquanto um planeta aguarda ajuda da Federação para se proteger de uma grande ameaça. Personagens de vários episódios reaparecem para compor a história. A dificuldade de Kirk de tomar decisões também conecta o episódio com Enemy Within.
Divided We Stand é um episódio épico que traz uma aventura no passado histórico da Terra. Kirk e McCoy estão aprisionados no tempo enquanto uma infestação alienígena ameaça a nave.Em Come Not Between The Dragonsuma criatura atormentada invade o casco da nave e coloca a tripulação em alvoroço em sua perseguição. O episódio pode ser relacionado a um fenômeno atual muito comum nas redes sociais hoje em dia. Grande participação feminina. Embracing the Winds discute um dilema ético já presente na série antiga. Enquanto tenta explicar o motivo de algumas incoerências da série clássica, cria alguma controvérsia própria. A Enterprise é enviada numa missão aparentemente rotineira enquanto Kirk é chamado a uma base estelar para decidir sobre uma questão que pode ter implicações diplomáticas para a Federação.
Em Still Treads the Shadow temos um episódio seqüência ao episódio The Tholian Web. A Enterprise descobre uma nave perdida com um passageiro improvável. O roteiro é construído a partir de várias referências e/ou elementos de outros roteiros, entre eles, The Deadly YearsCourt MartialSecond Chances (The Next Generation) e do filme 2001: Uma Odisséia no Espaço.
What Ships Are For é, na minha opinião, um dos melhores. A idéia para a história veio de uma conversa entre Mignogna e outro colega sobre como muita gente começou a assistir Jornada nas Estrelas em preto e branco. O roteiro, muito bem escrito, mostra ambos os lados de uma questão altamente relevante nos dias de hoje, na melhor tradição da série clássica. Kirk luta para ajudar uma sociedade cujos habitantes possuem uma visão muito distinta de seu mundo isolado. Podemos ver elementos de Let That Be Your Last BattlefieldMiriA Taste of Armageddon, mas de maneira bastante sutil.
Os dois últimos episódios, To Boldy Go Partes I e II, trazem a conclusão empolgante do projeto e da missão de cinco anos. Para resolver o mistério de uma nave perdida, Kirk deve retornar ao lugar onde tudo começou e enfrentar um adversário incrivelmente poderoso. Uma ponte perfeita para o primeiro filme da franquia no cinema, Star Trek: The Motion Picture.
STC: What Ships Are For
A despeito das semelhanças propositais, trazidas por estas inúmeras referências, as diferenças são inevitáveis. E não me refiro ao fato de os atores serem outros, imprimindo necessariamente um pouco de suas próprias personalidades e maneirismos. Acontece que mais de 40 anos se passaram entre o último episódio da original, em 1969 e o primeiro da websérie, em 2012. A sociedade evoluiu muito e se encontra em um momento bem diferente. A própria série inspirou muitos pensadores que, por sua vez, modificaram a sua realidade a partir das idéias abordadas no programa.
Como conciliar a questão das mulheres na nave? Se em 1966, colocá-las como parte da tripulação parecia avançado, hoje já não se pode restringi-las às pequenas participações da original. Mas, se ampliarem a participação feminina, não haverá justamente um choque para a sensação de continuidade?
Outra questão interessante é o papel da Federação e de Kirk como fornecedor de soluções. Há quem se incomode com a idéia da Federação dos Planetas ditando as soluções para os conflitos encontrados, numa clara identificação Federação/Estados Unidos. Em JNE: A Nova Geração já há indícios de uma evolução neste pensamento e a primeira diretriz/prime directive de não interferência é interpretada mais rigorosamente do que na série original.
A solução encontrada por Mignogna, ainda que possa suscitar controvérsias, me parece boa. Kirk se encontra em um ponto de crise em sua vida pessoal, questionando suas ações, suas decisões e as conseqüências das mesmas. Em muitos aspectos, é um personagem mais passivo do que o que estávamos acostumados a ver. Isto não é incoerente, se pensarmos que a crise faz parte da vida humana e todos nós, em algum momento, nos encontramos fazendo este tipo de perguntas.
A maioria das séries daquela época não cultivava este tipo de evolução. Os personagens eram o que eram e cada nova história era como se fosse a primeira (ou única). Hoje, este arco é desenvolvido por praticamente toda série dramática, em maior ou menor intensidade. Então, se isto pode não parecer típico da série original, quem nos garante que, se tivesse continuado, não teria caminhado nesta direção? Já havia indicações desta possibilidade em 1969, em episódios tais como Requiem for Methuselah ou Paradise Syndrome.
Uhura, Smith, McKennah e Palmer
Esta escolha ajudou a minimizar o estereótipo de herói infalível de Kirk, mas também abriu espaço para a participação feminina. A personagem de McKennah também contribui para isto. Se as tripulantes originais seguem mais ou menos na linha da série clássica, esta personagem, por ser nova, não está presa a um passado já conhecido. Sua atitude mais “moderna” pode ser explorada sem receio de criar contradições.
Talvez pareça um pouco moderna demais, por certo. Mas, por ser ela a única, podemos interpretá-la como um daqueles espíritos que surgem de tempos em tempos apontando uma nova direção. E as décadas de 1960 (e 1970, já que esta continuidade teria sido filmada no seu início) estavam cheias de pessoas assim, sonhando com o aparentemente impossível.
A intenção inicial era a de completar a missão em 13 episódios. De acordo com Mignogna, a Paramount decidiu impor limitações a produções de fãs depois que uma das equipes recolheu dinheiro para fazer um longa, viajou para promovê-lo, mas nunca o realizou. Aparentemente, eles usaram o dinheiro para financiar seus salários. Mignogna decidiu não entrar em choque com a empresa, reduzindo o número de episódios do seu projeto. A filmagem dos três últimos aconteceu após esta restrição, mas o dinheiro já havia sido recolhido.
A recepção dos trekkers tem sido boa. Existe inclusive a discussão sobre se os eventos da websérie poderiam ser incorporados ao cânone. De minha parte, concordo sem restrições. O desenvolvimento da história leva a uma transição lógica para o momento em que reencontramos a tripulação em Star Trek: The Motion Picture, desde pequenos detalhes, tais como o uniforme, até o porquê dos personagens terem tomado o rumo que tomaram antes de se reunirem novamente para investigar V’ger.
Alem disso, isto já aconteceu antes. Os prenomes de Sulu e Uhura foram criados por fãs. Vonda McIntyre apresentou o nome Hikaru em seu romance The Entropy Effect e, após ser aprovado por Roddenberry e George Takei, entrou para o cânone em Star Trek VI: The Undiscovered Country. Isto se repetiu quando William Rotsler criou o nome Nyota para o livro Star Trek II Biographies e foi usado oficialmente no filme de J. J. Abrams de 2009.
Então, vale a pena conferir Star Trek Continues? O profissionalismo adotado em todos os aspectos, a paixão com que todos os envolvidos se dedicaram na realização do projeto, a atenção minuciosa aos pequenos detalhes e o desejo sincero de homenagear uma série que tem uma relevância histórica indiscutível são aparentes no resultado final. Os episódios têm qualidade. Como na clássica, alguns são mais envolventes que outros, mas eu colocaria os melhores lado a lado com os melhores da década de 1960 sem pensar duas vezes!
Deixo aqui o trailer dos episódios.


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