The Heavy Water War, Minissérie Norueguesa Retrata Missão Histórica na 2ª Guerra Mundial

 


Por Fernanda Furquim



No mês de janeiro, a TV norueguesa exibiu a minissérie The Heavy Water War/Kampen om tungtvannet, produção em seis episódios que retrata uma história real ocorrida durante a 2ª Guerra Mundial. Tratando do mesmo tema da série americana Manhattan, sobre a criação da bomba atômica nos EUA, a produção norueguesa acompanha a trajetória dos alemães no desenvolvimento da bomba e a luta dos aliados para impedi-los.

Falada em inglês, norueguês e alemão, contando com um bom elenco e uma bela fotografia, a minissérie é narrada sob três pontos de vista.

Em 1939, o cientista alemão Werner Heisenberg (Christoph Bach), vencedor do prêmio Nobel de Física, por sua contribuição na descoberta da mecânica quântica, passa a trabalhar para o governo nazista para o desenvolvimento da bomba atômica. Suas motivações são simples: a guerra está a serviço da ciência. Governos vão e vem, ideologias mudam, mas a ciência permanece, evoluindo. Heisenberg foi um jovem nerd, totalmente dedicado à ciência, sem tempo para a vida social ou familiar. Até que conheceu Elisabeth Schumacher (Peri Baumeister), filha e irmã de economistas, com quem se casou pouco depois.

Quando a minissérie tem início, Heisenberg e Elisabeth têm dois filhos, com um terceiro a caminho. O governo nazista está fazendo ‘uma limpa na sociedade’, afastando judeus, negros e homossexuais do convívio com a raça ariana. O passado de Heisenberg o compromete. Durante anos, ele elogiou publicamente homens da ciência como Max Born, James Franck, que foram seus professores, Niels Bohr (Søren Pilmark, de Forbrydelsen), com quem ainda mantinha amizade, e Albert Einstein, que já se encontrava exilado nos EUA. Por esta razão, Heisenberg se tornou alvo das investigações da Gestapo, que tinha como uma de suas missões ‘limpar’ as Universidades da influência dos judeus.

Chamado para ser interrogado, Heisenberg consegue se esquivar de qualquer suspeita sobre sua lealdade à Alemanha ou à ciência. A Gestapo então levanta dúvidas quanto à sua masculinidade. Sem nunca ter tido um relacionamento com mulheres antes de se casar, e tendo muitos amigos homens, com quem costumava acampar, Heisenberg se torna um alvo da caça aos homossexuais, o que o condena ao campo de concentração. Ele é salvo pela mãe de Heinrich Himmler, Comandante do 3º Reich, que conhece a mãe de Heisenberg. Libertado, ele é indicado pelo próprio Himmler a integrar o grupo de pesquisas da bomba atômica. Rapidamente Heisenberg prova seu valor e assume a responsabilidade pela pesquisa com água pesada. A partir daí, seu trabalho se torna alvo dos aliados que, desconfiados da grande quantidade de água pesada adquirida pelo 3º Reich de uma hidrelétrica na Noruega, conclui que os nazistas estão construindo a bomba atômica.

Heisenberg não é o personagem central da minissérie. Ele representa um dos pontos de vista da trama, tendo o governo nazista como cenário de suas decisões e ações.

Equipe da força de ataque aliada



A Inglaterra estava a par da aquisição da água pesada por parte dos nazistas, visto que o cientista e professor universitário norueguês Leif Tronstad (Espen Kloumann Høiner) se mantinha em contato com a resistência. Um dos pesquisadores da água pesada na Noruega, Tronstad também foi um dos responsáveis pela construção da fábrica na hidrelétrica de Vemork. Tronstad estava a par de todos os procedimentos do local, o que o tornou uma peça chave para os britânicos que, pressionados pelos americanos, precisavam elaborar rapidamente um plano e treinar voluntários a toque de caixa para destruir o local.

Tentando preservar as vidas de funcionários e de suas famílias que moravam na área, bem como a própria hidrelétrica, Tronstad elabora um plano para destruir apenas o local onde se fabrica a água pesada. Esta é a motivação de Tronstad. Afastado da família e de seu país, ele precisa se adaptar rapidamente ao modo de pensar dos aliados, que defendem a ideia de que a morte de civis são danos colaterais. Tronstad e os britânicos, com as pressões dos americanos como pano de fundo, representam o segundo ponto de vista da trama.

O terceiro é o de Bjørn Henriksen (Dennis Storhøi), diretor da hidrelétrica Vermork, em Rjukan, que pertence ao grupo Norsk Hydro. Em 1940, pouco antes dos alemães invadirem a Noruega, a França fez um acordo com a empresa para adquirir todo o estoque de água pesada de Vemork. O acordo também previa que a hidrelétrica continuaria vendendo água pesada para a França durante todo o período da guerra, sendo que o pagamento seria realizado após o término do conflito. Quando os alemães chegaram, Axl Aubert (Stein Winge), representante do grupo que administra a hidrelétrica, pede a Henriksen que atenda também os interesses dos nazistas.

Para o empresário Henriksen, o importante é manter os empregos e as vidas de seus funcionários, bem como a empresa intacta. Ele vê a guerra como algo passageiro, uma situação com a qual ele precisa lidar para que ele e os negócios possam sobreviver. Esta é a motivação de Henriksen, um ex-militar norueguês que sofre forte influência de sua esposa, Ellen (Maibritt Saerens), uma mulher da alta sociedade que está presa em um lugar isolado sem saber o que está acontecendo na fábrica.

Bjørn e Ellen Henriksen são personagens fictícios. Na história, ele representa o somatório de diferentes diretores da empresa, entre eles Bjarne Eriksen, que ocupou este cargo durante a guerra. A postura adotada por Henriksen é a mesma que Eirksen teve durante o conflito.

Talvez por ser fictício Henriksen teve mais liberdade de explorar suas emoções e opiniões. Ele e sua esposa são os personagens que de fato vivenciam um pouco mais os conflitos morais que enfrentam. Muito embora Heisenberg e Tronstad enfrentem questões morais, eles não mergulham nestes aspectos da trama. Seus conflitos se fazem presentes, mas eles se mantêm na superfície, servindo apenas como referência para o telespectador compreender as decisões e ações dos personagens. Bjørn e Ellen são os únicos que ganharam cenas que levam o telespectador a acompanhar, ao menos um pouco, seus dilemas. Os demais ficam presos no retrato histórico dos fatos.

Embora mantenha a esposa afastada de seus negócios, Henriksen tem uma relação muito próxima com Ellen. Ela compreende a guerra e suas consequências, mas não entende o que o marido possa estar fazendo de tão importante que atraia o interesse dos alemães e, consequentemente, dos aliados. Seu medo de sofrer um ostracismo por parte da sociedade norueguesa por colaborar com os nazistas, e a falta que um filho faz em sua vida, levam Ellen a cobrar do marido atitudes que o colocam em conflito com seu cargo.  As cenas dedicadas ao casal acabam sendo mais interessantes que as de Heisenberg e sua esposa, que o apóia até entender que o trabalho do marido poderá provocar a destruição de cidades e a morte de pessoas.

Høiner e Friel



Outra personagem fictícia é Julie Smith (Anna Friel, de Pushing Daisies, American Odyssey), uma oficial inglesa que atua como responsável pela seção escandinava das Operações Especiais. Sua presença na história contraria a realidade, visto que não havia oficiais femininas participando da elaboração do plano de ataque à hidrelétrica. Na vida real, o cargo de Julie era ocupado pelo Coronel John Skinner Wilson, um oficial escocês.

Tendo perdido o marido em ação, Julie não está disposta a se envolver emocionalmente com outro militar. Durona e exigente, ela cobra constantemente da equipe a mesma dedicação que ela dá ao esforço de guerra. No entanto, aos poucos, Julie deixa transparecer suas preocupações e sofrimento com a perda de vidas. Sua presença na história não chega a ser importante, embora ela participe diretamente da elaboração dos planos de ataque. A função de Julie na trama é a de fazer uma referência às poucas oficiais femininas que de fato ocuparam cargos importantes durante a guerra. No desenvolvimento da história, ela também tem a função de elevar o aspecto humano no núcleo de personagens compostos pelos aliados. Mas, como ocorreu com os demais, seus conflitos morais não chegam a interferir na história, sendo apresentados de forma superficial.

A trama também nos oferece alguns pontos de vista menores, porém igualmente importantes, como a de alguns soldados que participaram da ação, enfrentando a fome, o frio e o inimigo, bem como a de moradores da região da hidrelétrica (representados aqui pela empregada de Ellen e sua filha).

Embora os personagens ofereçam um grande potencial dramático, o objetivo da minissérie é o de apresentar ao telespectador os bastidores dos ataques dos aliados à hidrelétrica, retratando de forma cronológica e histórica as dificuldades que cada etapa enfrenta, bem como suas consequências. Mas, apesar do tema, não dá para classificar a produção como uma minissérie de ação. Isto porque ela também falha em criar tensão e suspense nas cenas dos ataques. Por se tratar de uma história cujo desfecho é conhecido, fez falta a construção do suspense durante a ação. O próprio ataque à hidrelétrica, e depois ao ferry boat que transportava água pesada, são mostrados de forma rápida e sem grandes obstáculos.

A minissérie foi bem recebida pela crítica norueguesa (de um modo geral) e pelo público, conquistando uma boa audiência, com cerca de um milhão de telespectadores, ao vivo. The Heavy Water War é uma das produções mais caras da TV norueguesa, sendo que um dos objetivos dos produtores foi o de reconhecer a importância histórica de Tronstad.

Ainda não há informações sobre quando a minissérie será exibida no Brasil, mas ela está disponível em DVD e Blu-Ray no mercado internacional. Vale lembrar que o canal americano FX está desenvolvendo a minissérie Telemark, a qual apresentará a luta dos aliados e dos noruegueses para impedir que os nazistas construam a bomba atômica, destruindo a hidrelétrica Vemork localizada no condado de Telemark, Noruega.


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Texto originalmente publicado em 2015, no blog Nova Temporada da VEJA.com, onde fui colunista entre 2010 e 2016.

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