sexta-feira, 2 de abril de 2010

Entrevista Exclusiva: Ron Moore Fala Sobre Caprica


Quando foi anunciado o remake de "Battlestar Galactica", os fãs da série clássica ficaram divididos. Quando a série chegou ao fim, a divisão aumentou. Muitos a consideraram "nada a ver" com o original, outros a consideraram melhor desenvolvida que a produção dos anos 70. O final de "BSG" também causou polêmica, mesmo entre os fãs da nova versão.

Então, surgiu a notícia de que seria produzida uma spinoff, sob o título de "Caprica", a qual retrataria a origem dos cilônios 58 anos antes dos fatos ocorridos em "BSG". Muitos ficaram ansiosos, outros, preocupados. Essa reação é compreensível, afinal, não há como negar que a tendência da televisão aberta, atualmente, é a criação de séries que possam ser transformadas em franquias, ou seja, que possam gerar spinoffs para que o tema seja explorado até o limite. Quando isso começa a ocorrer com produções da TV a cabo, e, ainda por cima, com séries que se propõem a desenvolver conteúdo e personagens e não apenas uma fórmula, a preocupação tem fundamento. Além de "Caprica", o SyFy americano tem interesse em produzir outra spinoff com base em "BSG", projeto que ainda está restrito à uma intenção. 

"Caprica" demorou para sair do papel e levou mais algum tempo para que o piloto fosse exibido. Também levou tempo para que os episódios produzidos para a primeira temporada fossem levados ao ar, a ponto da mídia americana começar a expecular se o projeto tinha sido cancelado antes mesmo de estrear. Mas "Caprica" estreou em janeiro desse ano exibindo 9 episódios iniciais; os demais, que completam 18, serão levados ao ar na TV americana a partir do dia 17 de setembro desse ano.


As opiniões sobre essa primeira amostra da série são divididas, tal qual sua predecessora. Não se sabe ainda qual será o futuro de "Caprica"; se ela conseguirá chegar ao nível que "BSG" chegou, se conseguirá se destacar criando 'vida' própria, ou até mesmo se chegará a uma segunda temporada. Os índices de audiência ainda não definem o futuro da série. Ela estreou com uma média de 1.6 milhões de telespectadores, número bom para a TV a cabo; ao longo da exibição dos demais episódios, a média se manteve na casa de 1 milhão, sendo que o último episódio exibido registrou uma média de 1.1 milhões. Será preciso conferir a receptividade que os episódios restantes terão para se definir a continuidade ou não da série.

Mas, com certeza, "Caprica" tem história para contar e se um dos roteiristas e produtores é Ron Moore, um dos responsáveis por "BSG", é de se concluir que esteja em boas mãos. Recentemente tivemos a oportunidade de conversar com o produtor por telefone. Gostaríamos de aproveitar e agradecer à Universal por ter possibilitado essa entrevista. Foi uma conversa rápida, mas esclarecedora, na qual ele falou sobre os trabalhos em torno de "Caprica" e seus objetivos acerca da série. Ainda não há previsão de quando ela chegará ao Brasil. Nem mesmo se aporta primeiro via DVD ou TV a cabo. A Universal já lançou o piloto da série para locação e, a princípio, planeja disponibilizar a primeira parte da primeira temporada no segundo semestre desse ano. Até lá, confiram o que Ron Moore teve a nos dizer.

Ron Moore

TVS - Como surgiu a idéia de produzir uma série prequel de "Battlestar Galactica" e por que produzi-la?

RM - A série começou a se desenvolver na época em que produzíamos a segunda temporada de "BSG". A ideia era explorar a origem dos cilônios. Nessa mesma época, outro roteirista, Remi Aubuchon, ofereceu à Universal um projeto sobre inteligência artificial. Então o estúdio sugeriu que nos encontrássemos com ele para trocarmos ideias. Foi o que fizemos e foi a partir daí que a idéia para "Caprica" surgiu.

TVS - Até onde Caprica é uma prequel e até onde ela seria uma continuação de "BSG"?

RM - É uma prequel. Ela é totalmente situada no passado de "BSG", por volta de 50 anos antes da minissérie que deu origem à série. Gira em torno de duas famílias, os Graystones e os Adamas, e também em torno de suas respectivas filhas. Em função dos eventos que envolvem suas filhas, as duas famílias se encontram, dando início a uma sequência de eventos que irá levar à criação dos cilônios.  

Os Adamas

TVS - Quais referências sociais, políticas e religiosas que você pretende desenvolver com Caprica?

RM - Teremos um pouco de cada. As questões políticas que foram abordadas em "BSG" também fazem parte de "Caprica", pois vamos lidar com o terrorismo, a segurança nacional, liberdade religiosa, fanatismo, embates ideológicos, e problemas de imigração; na forma como os imigrantes lutam para assimilar a cultura e hábitos da nova sociedade e na forma de como a sociedade cria preconceitos em torno da imigração. Essas são questões extremamente contemporâneas, as quais fazem parte de uma série que, por acaso, traz um contexto de ficção científica.   

TVS - Vocês pretendem abordar alguma linha temática que não tenha sido abordada em "Battlestar Galactica"?

RM - Bom, é um mundo diferente. "BSG" era sobre um grupo de pessoas que estavam aprisionados em suas naves espaciais, após a destruição de seus mundos. Então, é uma questão claustrofóbica em um ambiente pós-apocalíptico. Em "Caprica", eles estão livres, vivendo em uma sociedade ainda estável. Nossa intenção é contar diferentes histórias que não seriam possíveis dentro do ambiente e do contexto de "BSG".   

Os Graystones

TVS - Vocês buscam referências em outras produções ou na literatura para o desenvolvimento de Caprica, além do universo que foi criado em Battlestar Galactica?

RM - Não, não. Grande parte é desenvolvida com base em nossa realidade contemporânea; outra parte tem base na história de temas que me interessam. Eu me interesso por história. Então, algumas coisas que fazemos têm um paralelo com a história do Império Romano, ou com o período da Reforma, ou mesmo com a civilização ocidental. Nesses períodos eles meio que incorporaram os embates monoteísmo versus politeísmo na Europa Ocidental. Também trabalhamos com paralelos da história dos Estados Unidos; sua cultura e problemas que o país enfrenta no momento atual. Outros temas que desenvolvemos é a luta das Nações Unidas em unificar os diversos países e seus interesses competitivos, em torno de objetivos comuns. Então, dá para afirmar que as influências são bem variadas.

TVS - Existe alguma restrição imposta pelo canal para o desenvolvimento da série? Você sente algum problema ou restrição (seja do canal ou do público) em levantar questionamentos em relação à religião ou à política?

RM - Não. Nós temos algumas situações que geram censura, como por exemplo os contextos gráficos, como a nudez, ou o excesso de violência, ou o tipo de linguagem que podemos ou não utilizar. Mas não temos problemas em relação ao desenvolvimento do conteúdo da série. Isso não. Porque é ficção científica, e o gênero é meio que uma desculpa para poder explorar temas. Podemos explorar questões dentro do universo da ficção que jamais poderíamos sequer chegar perto dentro de uma produção do gênero drama contemporâneo.

TVS - Será apresentado na série o início da história dos cinco cilônios, vistos em Battlestar Galactica?

RM - Acho que não. Mas nunca se sabe. Os últimos cinco cilônios não surgiram na mesma época que esses cilônios de Caprica. Eles somente surgiram quando a primeira guerra cilônia ocorreu e isso fica 10 ou 12 anos à frente dos fatos que estamos tratando agora no começo de "Caprica". Então, não dá ainda para saber se conseguiremos ou não chegar nesse ponto da linha de tempo.  

TVS - Além do passado de Adama, veremos o passado de mais algum personagem de Battlestar Galactica?

RM - Nós não temos nenhum plano a esse respeito nesse momento, mas nunca se sabe. Se fizermos, não vamos ampliar demais e não faremos na primeira temporada.

Da esquerda para a direita: Zoe, Lacy e Clarice

TVS - A série tem um número de temporadas planejados ou será desenvolvida por tempo indeterminado?

RM - Não, não tenho um número de temporadas planejado. Mas eu também não sabia quantas temporadas teria "BSG" quando começamos a produção.  

TVS - O que o público americano prefere, ficção científica que explora ciência e aventura, ou ficção com desenvolvimento dramático?

RM - Não saberia dizer, acho que é uma pergunta difícil de responder. Acho que depende se você se refere a filme ou televisão. Acho que nos filmes, certamente, vão preferir mais ação e aventura, pois essas são produções mais populares. Mesmo existindo algumas produções de ficção científica mais sensíveis, elas não fizeram tanto sucesso quanto as produções dedicadas à ação e ao escapismo. Na televisão, o jogo é outro. Os dois tipos de produções, as mais sensíveis e as de aventuras escapistas, têm conseguido fazer igual sucesso junto ao público. 

TVS - Para acompanhar "Caprica" é necessário passar primeiro por "Battlestar Galactica"?

RM - As pessoas conseguirão acompanhar a série tendo ou não assistido "BSG". Nós desenvolvemos a história de forma que fosse compreensível para qualquer pessoa. Se você conhece "BSG", vai acompanhar "Caprica" e aproveitar as muitas referências à "BSG", entendendo melhor seu universo em relação aos cilônios, bem como sua cultura. Mas se você nunca viu "BSG", acho que irá conseguir se envolver com os personagens e a história e acompanhá-la sem nenhum problema.

 Trailer dos próximos episódios de "Caprica":

Um comentário:

th3m@d0xt3r disse...

bela matéria! sou fã de BSG e agora de Caprica e certamente serei fã deste outro spin-off citado, muito bom!

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