sexta-feira, 26 de março de 2010

Opinião: Big Love/ Amor Imenso

O texto abaixo contém spoilers!


"Big Love" é uma série produzida pela HBO que finalizou recentemente sua quarta temporada. Já renovada para uma quinta, a série deu a Chloe Sevigny o Golden Globe de melhor atriz coadjuvante em séries dramáticas. Criada pelos novatos Mark V. Olsen e Will Scheffer, a série estreou em 2006. Esta não era uma produção sobre a qual tinha a intenção de algum dia escrever minha opinião. Mas, nessa semana a atriz Chloe Sevigny concedeu uma entrevista ao jornal The Onion sobre a qual desabafou sua opinião sobre a quarta temporada da série, classificando-a como uma telenovela.

O fato de uma atriz chegar ao ponto de assumir esta postura sobre uma série que ainda está em produção, e, acima de tudo em um canal que prima por qualidade, é louvável. Fico feliz que nem todos os atores americanos vestiram o verniz de "tudo é lindo" e "todos são maravilhosos", ao se referirem às produções e colegas com os quais trabalham. Chega a ser insuportável ler ou assistir a entrevistas de atores que já vem preparados com as respostas: "é o melhor trabalho que já tive" ou "são as melhores pessoas com quem já trabalhei". Não que não possa ser verdade, mas quando a verdade engessa, você passa a não dar mais atenção ao que é dito por eles. As entrevistas deixam de ter personalidade, transformando-se em marketing.

Não há verdade mais cristalina que a afirmação de Chloe sobre "Big Love". Uma produção que surgiu com a proposta de trazer "para a mesa de discussões" uma religião que durante anos pregou a poligamia e sobre a qual ainda existem questões que geram polêmicas, "Big Love" decepciona. Ao carregar o logo da HBO, subentende-se que a série traz a qualidade tão arduamente desenvolvida ao longo dos anos por este canal. No entanto, o que seria um embate de ideologias se transformou em uma pseudo proposta representada por um amontoado de situações mal desenvolvidas dentro de uma narrativa de telenovela.


A série traz um homem, Bill (Bill Paxton) expulso de casa aos 16 anos, mas que ao longo da vida lutou para se fazer sozinho, transformando-se em um respeitável empresário e pai de família, vivendo em uma cidade do estado de Utah. Bill é o típico americano que poderia estampar qualquer cartaz do American Way of Life. Mas, Bill não tem a religião certa para isso. Ele vem de uma comunidade mórmon que vive ilegalmente dentro da ideologia tradicional dessa religião, a qual prega a poligamia. Só esclarecendo, a poligamia entre os mórmons deixou de existir oficialmente em 1890, quase 60 anos após sua implantação; mas ainda existem grupos tradicionalistas que mantém a prática, o que causa uma divisão ideológica dentro da própria igreja  (algo que até o momento não foi explorado na série).

A comunidade em que Bill nasceu e cresceu é formada por pessoas que praticam ilegalmente a poligamia. Acreditando que não fazia mais parte dessa ideologia, Bill se casou com uma mulher, Barb (Jeanne Tripplehorn) que seguia outra religião. O casal teve filhos, e ao longo de mais de 10 anos viveram o sonho americano. Mas, Barb descobriu que tinha câncer e o medo de perder a esposa levou Bill de volta à sua religião; consequentemente, restabeleceu suas crenças e ideologias.

Assim, ele convence a mulher a se converter e a concordar em deixá-lo desposar uma segunda esposa. A escolhida é a filha do líder (Harry Dean Stanton) da comunidade mórmon, Nikki (Chloe Sevigny), uma jovem que já tinha sido entregue por seu pai a um homem mais velho (Zeljko Ivanek), com quem teve uma filha.  Extremamente crítica, perfeccionista e religiosa, Nikki acredita que Bill tem o potencial para se tornar o novo líder religioso, substituindo seu pai quando ele morrer aos 100 e poucos anos (idade que o mestre disse que chegaria - embora não tenha cumprido a profecia). Após alguns anos Bill percebe que precisa de uma terceira esposa e escolhe uma mulher ainda mais nova que a segunda. Quase da idade do filho mais velho, Margie (Ginnifer Goodwin ) é a deslumbrada do grupo. Filha de uma alcoólatra e louca para ver o mundo, Margie se deixa seduzir pelos encantos e figura paterna de Bill, com quem se casa e tem filhos.


A série começa aí, quando Bill já está casado com três mulheres, com as quais tem, em média, dois a três filhos, cada. A primeira temporada introduz o público às questões que para nós são desconhecidas: os princípios da religião mórmon e a forma como Bill consegue esconder da sociedade sua situação. Vivendo fora da comunidade que prega sua crença, Bill, suas três esposas e filhos, precisam driblar as leis do estado e do país, que proíbe a poligamia.

A situação é realmente interessante, visto que, em paralelo, temos situações opostas: o estilo de vida de Bill tentando fazer parte de uma sociedade que não aceita sua crença, em contraste ao estilo de vida dos membros da comunidade, a princípio representados pela família de Bill e de Nikki. Nessa, temos uma sociedade tentando manter o mundo que conhecemos afastados de seu dia-a-dia e de suas crenças.

Mas, a série falhou em desenvolver a realidade da situação proposta, que serviriam para dar suporte à sua estrutura. O que os roteiristas fazem é pincelar as questões legais da situação de Bill, bem como as questões psicológicas, religiosas, políticas e sociais. O que vemos na série é uma amostragem desse universo, sem que, de fato, se mergulhe nele.


Facilitando a vida dos personagens ao resolver muita rápido questões que têm implicâncias muito mais profundas, a série se preocupou mais em martelar na tecla de como as esposas de Bill abraçam a religião e aceitam a presença uma das outras. Com isso, deixaram em segundo plano o desenvolvimento dos demais personagens e temas, que trabalhariam os contrastes ideológicos e políticos. Para piorar, a série tomou partido, transformando a religião mórmon em um circo, com poucos argumentos para se defender. Sem argumentos, não existe embate ideológico.

Introduzindo novos personagens sem terem conseguido desenvolver aqueles que já existem, os roteiristas criaram ao longo da série um verdadeiro caldeirão, que transbordou na quarta temporada. Foi aqui que a série atingiu o fundo do posso. A quarta temporada teve apenas 9 episódios, número menor que as três primeiras; mas, mesmo que tivesse o número de 12 episódios, não creio que os roteiristas tivessem capacidade de desenvolver de forma qualitativa a quantidade de situações e personagens propostos.

Em sua entrevista ao The Onion, Chloe classificou a quarta temporada como uma telenovela. Quem acompanha a série terá de concordar. A narrativa de telenovela já estava clara desde a primeira temporada, mas ao invés de desaparecer, ela foi crescendo, passando feito um trator pela história e pelos personagens, chegando ao seu ápice nessa quarta pavorosa temporada.


Em nove episódios vemos Bill se candidatar ao Senado, conseguir apoiadores, fazer sua campanha e ser eleito. Nove episódios!!! Nesses mesmos 9 episódios vimos o Cassino que eles construíram em associação à uma tribo indígena, passar por diferenças culturais entre seus funcionários, enfrentar uma investigação financeira (juntamente com a empresa de construção que Bill já mantinha desde o início da série), culminando em uma crise de imagem que surgiu a partir de passeatas realizadas por membros de outra crença religiosa (e por trás dessa história existe outra, sobre a qual nem vou falar).

Nesses mesmos nove episódios também vemos a filha mais velha de Bill se casar, atropelar uma jovem índia, roubar-lhe o bebê com o intuito de substituir o seu que ela perdera em um aborto involuntário; mudar de idéia e devolver a criança, culminando em decidir mudar-se com o marido para outra cidade.

Tem mais! Nesses nove episódios a comunidade descobre que seu líder está morto. Desperdiçadamente, não foi desenvolvida a situação piscológica e política que teria se estabelecido entre os membros com a perda do líder. Apenas acompanhamos rapidamente os preparativos de seu enterro, o funeral e a decisão de quem irá substituí-lo. Pronto, fim dessa questão. Mas, aí vem outra: Alby, o sucessor natural, assume o comando do acampamento e quando todos pensavam que ele se tornaria um líder pior que seu pai, os roteiristas lhe dão um novo rumo: ele se apaixona por uma advogado que frequenta um grupo de apoio para deixar de ser gay. Ao longo dos noves episódios, os dois passam pela difícil aceitação do fato, então mantém uma relação, a qual é descoberta pela esposa do advogado, que se suicida.


Achou que acabou? Tem mais! Nesses 9 episódios ainda temos a mãe de Bill, uma contrabandista de pássaros, viajar até o México na companhia de seu marido, uma das esposas irmãs e o neto mais velho. Esqueci de mencionar, o rapaz foi expulso de casa pelo pai depois de descobrir que o filho beijou sua esposa mais jovem. E é aqui que a série chega em seu mais baixo nível até agora: o sequestro da família de Bill. Sabendo do sequestro, Bill viaja com o irmão até o México onde discute com a polícia local, pega em armas, e como um cowboy, decide resgatar sozinho seu filho e seus pais, e, é claro, ele consegue, sem grandes consequencias (ao menos para eles). Vou finalizar aqui a lista de abobrinhas propostas pelos roteiristas, mas garanto que tem mais!

É decepcionante ver uma série com uma proposta tão interessante ser desperdiçada com tanta facilidade. Se os roteiristas tivessem um objetivo e mantivessem o foco, "Big Love" poderia se transformar em uma belíssima série, que trataria um tema polêmico de forma crível, delicada e prática. Ao invés disso, optaram pela narrativa melodramática e superficial do tema, sobrando pouco para ser apreciado. A quarta temporada não é um caso isolado como a atriz Chloe Sevigny parece acreditar. Essa falta de cuidado vem em um crescendo desde a primeira temporada.

5 comentários:

Rafa Bauer disse...

E ela acabou se retratando...
Tem um excelente artigo sobre o caso:
http://www.hitfix.com/blogs/2008-12-6-the-fien-print/posts/celebrities-shouldn-t-need-to-apologize-for-having-opinions

Fernanda Furquim disse...

Muito obrigada pela indicação! Excelente mesmo! Já esperava que ela fosse obrigada por contrato a se retratar, mas ao menos ela falou, mesmo sabendo que teria que pedir desculpas!

tex_30 disse...

Primeira vez que discordo de você. As três primeiras temporadas foram excelentes, com ênfase na primeira e terceira temporadas,

Fernanda Furquim disse...

Fique à vontade em discordar, Tex, no problem! Para mim, as três primeiras temporadas deixaram a desejar, ficando na promessa. Fiquei na expectativa de que entrariam mais cedo ou mais tarde no universo proposto, mas não o fizeram.

Wans disse...

Fernanda, eu tb concordo com vc sobre a 4ª temporada. Foi uma chuva de besteiras sem tamanho. Não aguentava mais a candidatura do Bill e a esse Cassino. Antes ele tivesse continuado com a Homer Plus e focado na religião. Mas gostei muito das outras temporadas e achei a última cena da 4ª incrível!

E Clhoe é realmente a atriz de Big Love. É sempre um prazer v~e-la em cena.

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