Os Defensores, um Marco na História da TV americana

(E-D) E.G. Marshall e Robert Reed em Os Defensores. (Fotos: CBS/Arquivo)

Por Fernanda Furquim

A TV americana já produziu milhares de séries ao longo de suas oito décadas de existência, sendo que a maioria delas são produções que se perderam no tempo. Mas muitas delas não foram esquecidas porque não eram boas ou não fizeram sucesso em suas respectivas épocas. Elas simplesmente foram vítimas do desinteresse dos executivos de canais em reprisá-las.
Para que uma série seja lembrada pelo grande público é necessário que ela seja reprisada. Quanto maior for o número de reprises, maiores são as chances das novas gerações, e mesmo aqueles que a conheceram quando exibida pela primeira vez, se lembrarem dela. Tendo conquistado o direito de ser reprisada várias vezes, a série precisa ser reconhecidamente boa (especialmente pela crítica) para garantir seu lugar na história da televisão.
Mas o que determina que uma série seja reprisada por décadas a fio? Certamente não é sua qualidade, caso contrário, o quadro histórico da TV americana seria outro. Também não é seu elenco de celebridades, muito embora um nome importante (especialmente no elenco) viabilize sua encomenda. Isto porque um nome pode ser famoso durante um período de tempo, mas não sobrevive após seu auge ou a sua morte (ao menos, para o grande público). Também não é o sucesso que alcançou em sua época, caso contrário, muitas produções ainda estariam disponíveis nas grades dos canais que reprisam séries.
O que determina que uma série seja escolhida pelos executivos de canais que trabalham com reprises é, em primeiro lugar, o fato dela ser a cores (ter sido produzida em p/b é um fator eliminatório para muitas produções); depois, sua capacidade de entreter o público e seu gênero (drama x comédia). Nestes dois últimos casos, ganha mais a comédia. Mas, quando uma série dramática é escolhida, as séries intermediárias ganham disparado do drama puro.
Entende-se por séries intermediárias aquelas produções que oferecem episódios com questionamentos sociais e morais, mas dentro de um universo ou com elementos de entretenimento (ficção científica/fantasia, efeitos visuais, situações cômicas, romance e ação/aventura), que servem como válvula de escape. Já os dramas puros são aqueles que não fazem uso de distrações aos temas abordados, nem tentam suavizar a pílula. Eles são os herdeiros diretos dos teleteatros, formato que dominou a década de 1950, sendo responsável por conquistar a crítica e trazer para o veículo a respeitabilidade que necessitava para se estabelecer. Alguns exemplos atuais que se encaixam perfeitamente nesta descrição de séries são American Crime e Rectify, duas produções que dificilmente serão escolhidas por canais no futuro para serem reprisadas.
Dito isto, é fácil compreender o porquê de Os Defensores/The Defenders ter, de certa forma, se perdido no tempo. Muito embora ela ainda seja lembrada por críticos e historiadores americanos, bem como uma parte da geração que acompanhou a série em sua exibição original, ela perdeu o bonde da história por não ter sido reprisada muitas vezes. Para piorar ainda mais sua situação, foi produzida em preto e branco. Ela poderia ser salva pelo home video. Mas nem este formato está disposto a ajudá-a já que apenas a primeira temporada foi lançada (em 2016) em DVD. Na época, a distribuidora Shout Factory disse que o lançamento das demais temporadas dependeria do volume de vendas da primeira. Visto que estamos terminando 2017 e as demais temporadas não saíram ainda, podemos concluir que não teremos acesso aos demais episódios da série.
Produzida entre 1961 e 1965, Os Defensores foi sucesso de público e crítica, chegando a se tornar a primeira série dramática a ganhar três Emmy seguidos (1962-1964), sendo desbancada somente na década de 1980, quando Chumbo Grosso levou quatro vezes consecutivas a estatueta de melhor drama.
A série é um drama jurídico que ousou abordar temas polêmicos, questionando seus aspectos morais, sociais e políticos. A série foi criada por Reginald Rose (1920-2002), roteirista de teleteatro que ficou famoso com Doze Homens e uma Sentença/12 Angry Men, drama jurídico exibido no teleteatro Studio Oneem 1954. Seu sucesso fez com que o teleteatro ganhasse uma versão cinematográfica em 1957, e muitas outras versões, bem como adaptações, depois desta. Rose estava no mesmo patamar dos grandes roteiristas de TV de sua época, como Rod Serling, Paddy Chayefsky, Tad Mosel e Gore Vidal que, com Rose, formavam o slice of life.
Esta era a denominação dada a um grupo de roteiristas que seguiam um estilo narrativo profundamente preocupado com as questões sociais, políticas e morais, sendo que suas histórias mantinham foco nos conflitos que estas questões geravam no ser humano, seja em relação à sua vida privada ou em sociedade. Este tipo de roteiro  ajudou a formar e a estabelecer o perfil dramático televisivo, posteriormente utilizado pelas séries (em especial os dramas antológicos).
Os Defensores surgiu do teleteatro The Defender, exibido ao vivo em duas partes dentro do Studio One  em 1957. A história apresentava dois advogados (Ralph Bellamy e William Shatner), pai e filho, defendendo um rapaz (Steve McQueen) acusado de matar e roubar uma mulher. Dizem que, quando a série foi encomendada, Bellamy e Shatner recusaram voltar, porque não queriam ficar presos a uma única produção. Assim, E.G. Marshall e Robert Reed foram chamados para substituí-los, interpretando Lawrence Preston, um advogado veterano, e seu filho Kenneth. Shatner apareceria na série mais tarde como ator convidado em cinco episódios, interpretando outros personagens. Anos mais tarde, em 2007, a série Justiça Sem Limites/Boston Legal, apresentou o episódio Son of the Defender, que utilizou cenas de Shatner no teleteatro que deu origem a Os Defensores. Na história, seu personagem, o advogado Danny Crane, é feito refém pelo filho de um homem acusado em 1957 de assassinato. Tentando provar a inocência do pai, ele força Crane e seus colegas a reencenarem o julgamento. Durante o episódio, Crane relembra o caso (é neste ponto que entram as cenas do teleteatro).
O programa surgiu na esteira do sucesso de Perry Mason, primeira série jurídica filmada para a televisão, que fazia um enorme sucesso pela rede CBS. Ocorre que Mason era uma série de entretenimento, que trazia episódios focados em responder ‘quem matou, como e porque’, sendo que cada história terminava com Mason desmascarando o verdadeiro assassino no banco das testemunhas, durante o julgamento de seus clientes (invariavelmente inocentes).
(E-D) William Shatner e Steve McQueen no teleteatro que deu origem à série Os Defensores

Apesar de Os Defensores também apresentar episódios que fazem uso do recurso de revelar o verdadeiro criminoso diante da corte e apelar para algumas situações mais sensacionalistas, seu foco era outro. Aqui, o importante era a lei e a forma como ela era aplicada, o processo legal e suas características, o questionamento moral e ético das leis e suas implicações na vida da sociedade e do ser humano, a capacidade do sistema de fazer justiça, a interpretação dos jurados e a motivação do criminoso. O mistério e a tensão dos tribunais não importavam. Tanto que existem episódios que terminaram sem definição (apenas com sugestões do que poderia ocorrer com o acusado) ou com situação resolvida fora dos tribunais. Além disso, muitos dos clientes defendidos pelos Prestons eram culpados, sendo que a luta dos advogados era a de evitar a pena de morte e não sua condenação.
Dentro desta linha narrativa, Os Defensores buscava (propositadamente) abordar todos os temas tabus e controversos que existiam na época. Ao longo dos 130 episódios produzidos, a série ofereceu histórias sobre pena de morte, os direitos dos pais adotivos em relação aos pais biológicos, crimes cometidos por viciados e pessoas mentalmente perturbadas, abuso de autoridade, busca e apreensão indevida, provas ilícitas, imigração, a lista negra que aterrorizou Hollywood durante o Macartismo, restrições de visto em função da Guerra Fria, espionagem, neonazismo, ateísmo, eutanásia, pornografia, corrupção, recusa a prestar o serviço militar e aborto, entre muitos outros. Agora dá para entender as razões pelas quais a série não foi reprisada, não é?
Entre os episódios mais polêmicos está The Benefactor, sobre um médico que é preso em flagrante e julgado por praticar aborto (na época ilegal). Para defender o médico, os Prestons constroem um caso no qual apresentam a necessidade de se liberar a prática do aborto para preservar as vidas e a saúde de milhões de mulheres que se submetem às mais terríveis condições médicas. Já o promotor público simplesmente defende a lei, que diz que o aborto é proibido, razão pela qual o médico precisa ser condenado. Apesar de adotar uma visão mais liberal da questão, permitindo que testemunhas façam seus discursos morais, o episódio não defende propriamente a prática do aborto, mas os direitos que as mulheres têm em receber atendimento médico quando necessitam realizá-lo (sejam quais forem os motivos, sendo que aqui aparecem testemunhos de mulheres violentadas, menores de idade que ‘deram um passo em falso’ e de mulheres que simplesmente não desejam ter filhos neste momento).
Susan Oliver, atriz convidada em cena de Os Defensores

O tema do episódio fez gerar uma crise sem precedentes tanto para a série quanto para um canal de TV. Pouco antes de ir ao ar em 1962, a série perdeu o apoio de três anunciantes que se recusaram a patrocinar um episódio que defendia a legalização do aborto. Mas, ao invés de engavetar o episódio e colocar uma reprise em seu lugar, a rede CBS insistiu em levá-lo ao ar. Isto porque o dono da CBS, William Paley, era fã da série e exigiu sua exibição. O departamento comercial acionou todas as agências de publicidade de Nova Iorque na busca desesperada de anunciantes interessados em patrocinar este único episódio. Poucas horas antes, eles conseguiram um que cobriu os três que tinham se afastado.
Este caso foi lembrado em 2008 por Matthew Weiner durante a segunda temporada de sua série, Mad Mensituada em uma agência de publicidade de Nova Iorque na década de 1960. Em The Benefactor (mesmo título do episódio de Os Defensores), um dos sócios da agência  tenta encontrar anunciantes para o tal episódio do aborto de Os Defensores.
Segundo a CBS na época, o público recebeu positivamente a história apresentada, o que permitiu que a série mergulhasse mais a fundo nos temas polêmicos nas temporadas seguintes. No entanto, segundo historiadores, ela não adotou o recurso de dar uma solução moral para cada caso, nem tampouco tirou uma carta da manga no último minuto para solucionar situações, embora traga discursos moralistas em diversas ocasiões. A série reconhecia as injustiças e o fato de que, muitas vezes, elas prevalecem. Com isso, os Prestons perderam casos que defendiam, seja em função da realidade do sistema penal ou seja em função da incapacidade dos advogados em provar a inocência de seus clientes perante as habilidades dos promotores. Ainda assim, os episódios tentaram preservar um ponto de vista otimista para o futuro.
Apesar da abordagem adotada e a liberdade que os roteiristas tinham para desenvolver as histórias como achassem melhor, a produção não estava livre de algumas restrições que imperavam na TV americana desta época. Uma delas foi divulgada pelo roteirista Larry Cohenno material bônus da primeira temporada da série em DVD. Segundo ele, os produtores escalaram um ator negro para interpretar um juiz em um dos episódios, mas a CBS pediu que o trocassem por um ator branco porque as filiadas dos estados do sul (que são mais conservadores) se recusariam a exibir o episódio. No máximo, um ator negro poderia interpretar um detetive, jamais um juiz. (Cohen não chega a informar se a troca foi feita, mas vale mencionar que, pelo que sei, atores negros chegaram a interpretar o promotor público em pelo menos dois episódios da terceira temporada e em quatro da quarta, produzidas entre 1964 e 1965).
Incoerências à parte, a forma como a série tratava de temas polêmicos a levou a ser classificada como uma das produções com maior consciência social de todos os tempos, ajudando a abrir caminho para outras produções que seguiram nesta linha (muitas das quais também são pouco lembradas).
Em 1997, o Showtime produziu uma série sequência, também chamada de The Defenders. Novamente estrelada por Marshall, que volta a interpretar Lawrence Preston, a história acompanhou os trabalhos de seu segundo filho, Don Preston (Beau Bridges), que nunca tinha sido mencionado na série original, e de sua neta M.J. (Martha Plimpton), filha de Kenneth, já falecido (Reed morreu em 1992). A série foi composta de três telefilmes, sendo que Marshall faleceu após as filmagens dos dois primeiros.
Atualmente, graças ao DVD, temos apenas os episódios da primeira temporada da série original para guardar para a posteridade, muito embora ela não represente o que Os Defensores tem de melhor para oferecer. Segundo historiadores, neste primeiro momento, a série ainda estava buscando seu rumo, que somente foi definido ao final da temporada, com o episódio sobre o aborto. A temporada traz três ou quatro episódios com situações repetitivas, nos quais, à la M, o Vampiro de Dusseldorf, temos uma pessoa julgada por seus pares em um tribunal não oficial armado com o objetivo de condená-la, mas salva por Lawrence Preston, que por acaso está ou chega no local. Também temos episódios à la Perry Mason, nos quais o verdadeiro culpado é desmascarado enquanto está testemunhando no tribunal.
Por outro lado temos, além do episódio sobre o aborto, histórias que já denunciavam o caminho que a série seguiria, como por exemplo The Quality of Mercy, no qual um médico é acusado de matar um recém-nascido com Síndrome de Down, ao concluir que ele não teria uma vida longa; Young Lovers, sobre um jovem casal vítima das diferenças religiosas de seus pais; The Accident, no qual os pais de uma criança vítima de acidente de carro proíbem o médico de tratá-la porque sua religião não permite; The Attack, na qual um policial é julgado por matar o homem que agrediu sexualmente sua filha, uma criança; The Search, no qual um homem confessa o assassinato pelo qual um cliente de Lawrence foi condenado à morte há seis anos; e The Locked Room, no qual acompanhamos três jurados em sua deliberação (à la Doze Homens e uma Sentença) intercalada com flashbacks do caso em questão, sob o ponto de vista de cada jurado. O box também traz o teleteatro que deu origem à série.

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