segunda-feira, 24 de maio de 2010

A Bela e a Fera no TCM


Em setembro de 1987, a CBS apresentou ao público uma nova versão do clássico conto de fadas A Bela e a Fera/Beauty and the Beast. O drama romântico de Ron Koslow explorava o relacionamento entre Vincent, um místico homem meio-fera, e Catherine Chandler, uma promotora de Manhattan com quem ele desenvolve uma misteriosa ligação empática. Este homem com rosto de leão e personalidade ao mesmo tempo nobre e explosiva fora abandonado quando bebê diante do Hospital Saint Vincent, em Nova Iorque, onde foi resgatado por um estranho conhecido apenas como Pai. Desde então ele vive nos subterrâneos da cidade, em um complexo de túneis que serve de lar para uma sociedade formada por pessoas que, por motivos diversos, abandonaram a superfície, região na qual transitam apenas de forma obscura.

É desta forma que Vincent e Catherine se conhecem. Certa noite, aproveitando a escuridão para caminhar pelo Central Park, ele encontra a jovem gravemente ferida, desfigurada, largada como morta após ter sido violentada e esfaqueada. Contrariando as regras dos túneis, ele leva a estranha a seu mundo e a trata até ficar curada. Ele, no entanto, a mantém de olhos vendados. Ao vê-lo pela primeira vez, a promotora (intepretada por Linda Hamilton) fica chocada com sua inesperada aparência de leão, mas a voz acalentadora que ela ouvira durante sua recuperação já havia conquistado sua amizade e dado início à forte ligação empática que se processa entre os dois.


Após fazer vários papéis por trás de máscaras de maquilagem, Ron Perlman avisou seu agente que só desejava personagens com rosto limpo. Alguns dias depois, contudo, ao pegar o jornal da manhã encontrou um roteiro de A Bela e a Fera, e como este era menor do que o jornal, decidiu lê-lo primeiro. Antes do final, ele estava no telefone perguntando ao agente o que deveria fazer para obter o papel de Vincent. Durante a produção ele ficaria tão fascinado com o texto, que todo o esforço para aguentar a maquilagem criada por Rick Baker valeria a pena.


Antes de Perlman conquistar o papel título, Roy Dotrice também fizera um teste para o mesmo personagem. Mas quando o ator certo apareceu, Dotrice achou que estava completamente fora do projeto. Duas semanas mais tarde, os produtores lhe ofereceram o papel do Pai. Atuar em uma série semanal era um sonho, mas desenvolver o personagem foi uma tarefa difícil, pois ao final do piloto, Dotrice sofreu uma grave lesão no quadril, que o forçou a usar uma bengala e fazer cenas curtas, a maioria delas sentado ou encostado em algo. Após a recuperação de Dotrice, a bengala e o caminhar manco permaneceram como parte do personagem.


Através das estórias de Vincent e Catherine, Nova Iorque se divide entre um mundo aparte, de aparência medieval, e a atmosfera caótica de Manhattan, e, aos poucos, a crescente amizade entre a bela e a fera promove uma transformação. Esta, porém, não ocorre como no clássico conto de fadas, no qual a fera torna-se um belo príncipe. Ela acontece na alma de Vincent, não se limitando apenas a ele. Sem permitir que a violência e os tiroteios, comuns em séries de ação, interferissem no conteúdo da série, ela misturava fantasia e realidade, de forma a permitir a gradual evolução do relacionamento entre os dois. A questão, no entanto, não era consumá-lo com uma união permanente e sim explorar suas ramificações em cada episódio, mostrando outras formas de expressar afeto.


O conceito era um desafio para os roteiristas. Na busca de novas tramas interessantes, eles se reuniam durante horas para discutir os rumos da série. Dada a dificuldade de encontrar estórias interessantes, que misturassem romance e crime, as reuniões foram batizadas de The Brotherhood of Pain (Irmandade da Dor). Os novatos no grupo tinham particular dificuldade com a linguagem de Vincent, carregada de sabedoria clássica e sensibilidade, ao mesmo tempo em que soava informal. Toda a série é permeada pela erudição de Vincent, tanto através da música quanto da literatura, com citações de grandes escritores, como William Shakespeare, Charles Dickens, Mark Twain, Rudyard Kipling e Oscar Wilde, e o som encanador de vários mestres, entre eles Beethoven, Chopin, Schubert, Vivaldi e Haydn.

A sensibilidade de Vincent fica clara desde o piloto, onde ele conclui uma carta dirigida a Catherine com o poema Somewhere, de Edwin Arnold.

Somewhere there waiteth in this world of ours,
For one lone soul, another lonely soul.
Each choosing through all the weary hours,
And meeting strangely at one sudden goal.
Then they blend, like green leaves with golden flowers,
Into one beautiful and perfect whole.
And life's long night is ended,
And the way lies open onward to eternal day.

"Em algum lugar neste mundo,
Uma alma solitária espera a outra, também solitária.
E ambas se procuram no passar enfadonho das horas,
E estranhamente encontram-se em um lugar inesperado.
E fundem-se, como as folhas verdes com as flores douradas,
Num todo belo e perfeito.
E a longa noite da vida termina,
Abrindo-se a sua frente o caminho para o dia eterno."

A fórmula básica era simples: os mundos de Vincent e Catherine deveriam de alguma forma se cruzar. Mas a última coisa que Koslow e seu time desejavam era um espelho de O Incrível Hulk, com tramas consideradas corriqueiras, que mostrassem Catherine em perigo no começo e sendo salva por Vincent no final. O difícil era encontrar um motivo novo a cada semana para que estes mundos se encontrassem de forma inesperada. Um bom exemplo é o episódio Ozymandias (da primeira temporada), no qual o mundo de Vincent corre o risco de ser exposto quando o empresário Elliot Burch (Edward Albert) começa a construir um prédio na área acima dos túneis. Cabe a Catherine evitar a continuação da obra, mesmo que para isso precise casar-se com Elliot.


Catherine e Elliot Burch

Com o tempo, tanto roteiristas quanto fãs começaram a ficar intrigados com o mundo subterrâneo. Quem vive lá? Quem lidera? O que comem? O que vestem? Onde exatamente fica este lugar? Koslow pretendia filmar a série em Nova Iorque, onde os personagens vivem e onde de fato existem túneis subterrâneos. Ele acreditava que dessa forma a diversidade entre o ritmo frenético de Manhattan e a tranquilidade do mundo inferior ficaria mais clara. Além disso, Los Angeles (local da produção) não tinha metrô naquela época (ele começou a funcionar nos anos 90), por isso a produção viu-se obrigada a reaproveitar um cenário de metrô encontrado no estúdio. Eles também tomaram a liberdade de acrescentar um toque de fantasia aos túneis da cidade, com a criação de câmaras e setores, como The Whispering Gallery (galeria dos sussurros) - com uma ponte de madeira sobre um abismo -, e The Chamber of the Winds (câmara dos ventos) - com canos através dos quais mensagens são enviadas.


No piloto, Vincent explica a Catherine que seu mundo é um lugar secreto sob a cidade; secreto porque “muitas pessoas boas dependem dele para ter segurança. Não há mapas que mostrem onde estamos. É um lugar esquecido. Mas é agradável e seguro, e todos temos o espaço necessário. Então vivemos aqui e fazemos o possível. E tentamos cuidar uns dos outros.” Em vez de esclarecer a questão, os roteiristas preferiam responder às perguntas com explicações diversas, contando estórias diferentes sobre diferentes moradores do subterrâneo. Alguns estavam lá para fugir de alguma injustiça, outros procuravam um santuário longe da cidade grande. Em An Impossible Silence (primeira temporada), o Pai explica seu lar como sendo coisas diferentes para pessoas diferentes. “Para alguns, é um lugar de cura e segurança. Para outros, é nosso lar. Mas todos temos que decidir o que este lugar significa para nós.”

Entre eles, reina o ideal de paz, justiça e fraternidade sob a liderança do Pai, cuja vida fora destruída pela era McCarthy. A presença de tecnologia é ínfima e a importância dada à mente é primordial. Mas este mundo não é perfeito, pois as falhas comuns do ser humano também habitam os túneis. Por isso, até mesmo nesse mundo secreto, um sentido de ordem e organização é imposto para corrigir as falhas que eventualmente causem o desequilíbrio da comunidade. A punição é determinada pelo Conselho e pode chegar ao banimento no caso de faltas graves. A sobrevivência dos moradores dos túneis também depende de indivíduos de fora, pessoas de confiança, como Catherine, com quem mantêm um intercâmbio.

Inicialmente, a CBS não queria apresentar o povo do mundo subterrâneo, pois temia que o público reagisse negativamente. Por isso, as primeiras estórias começaram nas ruas de Manhattan, em particular, no escritório da promotoria, onde Catherine trabalha. Foi graças aos bons índices de audiência que os roteiristas conquistaram a liberdade para abordar o povo dos túneis. Um dos episódios-chave desta conquista aconteceu, por acaso, em consequência da necessidade de reduzir custos. Como locações e cenários eram os itens mais caros da produção, eles decidiram fazer um roteiro centrado em um desmoronamento nos túneis, onde Vincent e o Pai ficam presos. Curiosamente, a intenção inicial de economizar com Shades of Grey não se concretizou, pois a estória acabou exigindo a construção do cenário desmoronado e dos locais de trabalho de Catherine e Elliot. Mas com Shades of Grey estava finalmente quebrada a barreira dos ditames da rede sobre o povo do subterrâneo.



A segunda temporada começou com atraso devido a uma greve de roteiristas. Quando a série retornou na metade de novembro, diversas séries cômicas da ABC já estavam no ar há seis semanas, e ficou impossível competir com a audiência já conquistada por elas. Nessa fase, surgiu a ideia de mostrar o lado festivo da comunidade dos túneis. Em Dead of Winter, eles se reúnem para a Winterfest, festival que celebra o início desta comunidade incomum. Catherine, que agora é vista como protetora e amiga, é convidada. De fato, sua conexão com o mundo subterrâneo torna-se tão forte, que alguns episódios depois, em Orphans, a morte de seu pai a faz pensar em viver nos túneis permanentemente. Apesar de utilizar basicamente um único ambiente, Dead of Winter não foi simples e barato, como esperado. O tal ambiente teve de ser construído e foi o mais caro de toda a série. Além disso, foi necessário contratar extras para dar à festa a sensação do tamanho.

Em meio à temporada, a série enfrentou mais dois problemas. Primeiro, houve uma greve de motoristas de caminhão, o que limitou as gravações ao estúdio. Por isso, esta fase apresenta mais ênfase no mundo subterrâneo. Afinal, era inviável mover as filmagens para locações externas sem transporte. Também nesta época, houve uma queda na audiência e a rede exigiu que os roteiristas aumentassem as doses de ação e violência. Assim, a primeira parte compõe-se de episódios lentos centrados nos personagens, enquanto a segunda é mais movimentada. A presença do vilão Paracelsus (Tony Jay) permitiu criar estórias cada vez mais sombrias, envolvendo a natureza misteriosa e agressiva de Vincent. Ao final, ele começa a sofrer de alucinações. Durante um de seus ataques, ele foge pelos túneis completamente transtornado. Catherine vai a seu encontro passando por caminhos escuros, dominados pelos gritos enlouquecidos de Vincent. Então ela chama seu nome... E assim termina a temporada.


Vincent e Paracelsus

Quando a trama recomeça, Vincent se recupera, mas perde a ligação empática que tinha com Catherine. A terceira temporada também começa com um grande problema: Linda Hamilton ficara grávida e logo precisaria se afastar. A situação se agravou com a decisão da CBS em produzir apenas 12 episódios. Uma longa discussão sobre o futuro de Catherine deixou claro que havia apenas duas saídas: substituir a atriz ou eliminar a personagem. Uma vez tomada a decisão de eliminar Catherine, a CBS observou que sua morte deveria acontecer no começo, ou o público jamais aceitaria a entrada de um novo personagem feminino. Assim, durante uma investigação, Catherine é raptada por Gabriel (Stephen McHattie), um perigoso criminoso, que na verdade está mais interessado no bebê que ela carrega, filho de Vincent. Felizmente, a ligação empática de Vincent retorna, porém, não com Catherine e sim com a criança. Seu instinto o leva a ela, mas já é tarde, seu filho desapareceu e Catherine morre em seus braços vítima de uma dose letal de drogas.

Mesmo estando na terceira temporada, alguns ainda não haviam captado a essência da série: as aparências não importam, o amor é transcendente. Foi o caso de um dos diretores executivos da rede, que em mensagem a Kim Le Master, chefe de programação na época, protestou contra a gravidez da personagem, a qual classificou de bestial.


Vincent e Diana Bennett

O desaparecimento de Catherine abriu o caminho para a entrada da detetive Diana Bennett (Jo Anderson), novo personagem feminino, que chega para investigar o caso. Apesar da popularidade da série e de seu sucesso entre os fãs, especialmente mulheres, a insistência da rede em transformá-la em um drama policial e a perda de Catherine acabou levando ao cancelamento, em agosto de 1990.


André Filho e Monica Rossi
Vincent e Catherine na versão dublada



Ron Perlman e Linda Hamilton atualmente
(cliquem para ampliar)


Explorem a diversidade dos mundos de A Bela e a Fera todas as terças e quintas, a partir de 6 de julho, às 19h, no TCM.

7 comentários:

Alfonso disse...

A Bela & A Fera era uma série legal...A terceira temporada da série passou aqui no antigo canal TeleUno. Se eu não estiver enganado, apenas a terceira temporada nunca passou na TV aberta daqui.

Pelo que fiquei sabendo, já nessa época a Linda Hamilton começou a apresntar sintomas de distúrbio bipolar. Embora ela tenha continuado a atuar, a doença acabou prejudicando irreversivelnente sua carreira. É uma pena pois a Linda Hamilton é uma atriz que já demonstrava o talento que tinha no primeiro Exterminado do Futuro. Mas, em A Bela & A Fera, ela pôde fazer uma personagem que combinava melhor com o jeito dela. A química que havia entre Linda e Ron Pearlman era perfeita.

Pena que A Bela & A Fera não saiu aqui em DVD. É uma série cujas qualidades mereciam ser redescobertas.

E eu sou fã de carteirinha da Linda Hamilton...

Ligiane disse...

Será que não tem chance de sair, Fernanda ?
Obrigadaaaaa

Unidade de Carbono no Palido ponto Azul disse...

Engraçado que a carreira do Ron Perlman, continuou bem, mesmo com o fim da série. Onde precisavam de um cara feio ou meio monstro ele estava lá. "O nome da Rosa", "Alien 4", "HellBoy", "A Ilha do Dr.Moreau", "Star Trek nemesis", "Harry o monstro" e várias dublagens para animações como Batman, Superman e ai vai.

Miriã disse...

gosto muito desse site... fico bem informada com respeito aos seriados... será que vcs sabem onde encontro para baixar o seriado "A Bela e a Fera/Beauty and the Beast"?? obrigada.

Anônimo disse...

Eu particularmente gosto muitos destas minisseries,desta epoca da decada de 60,70 e 80 pois sou desta epoca..alias hoje não ha mais produções como as daquela epoca..

Laype Perseguini disse...

Assistir novamente este seriado, foi uma viagem as lembranças da minha adolescência. O Ron e a Linda dão aos personagens um toque de poesia que nos faz desejar ser um dos dois ou estabelecer com alguém vínculos tão profundos e sinceros. Me emocionei há 20 poucos anos atrás e hoje me vejo tomada por emoção semelhante...Lindos!

Layde Perseguini disse...

Prezado,
Já fiz várias buscas a Trilha Sonora deste seriado, mas não obtive êxito.
Poderia dizer se existe?
Naturalmente toda a trilha me intessa, mas se conseguir identificar a cantora que canta a música tema, já consigo amenizar minha ansiedade.
Obrigada.
abraços
Layde
e-mail: laydeperseguini@ig.com.br

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