segunda-feira, 8 de março de 2010

Breves Comentários Sobre O Prisioneiro


Em uma manhã de setembro de 1967, jornalistas ingleses foram convidados a participar de uma coletiva de imprensa na qual seria apresentada a eles uma nova série da produtora ITC (canal ITV), chamada "O Prisioneiro". Ao chegarem no local, eles foram conduzidos ao porão onde encontraram Patrick McGoohan, já famoso por "Danger Man", preso em uma jaula. À sua frente, duas ou três fileiras de cadeiras, onde os jornalistas se acomodaram. Acostumados a este tipo de evento, eles ficaram esperando a exposição do que seria esta nova série criada, produzida e estrelada por McGoohan.

No entanto, só encontraram silêncio. Ele não pronunciou uma única palavra, apenas ficou em pé, dentro da jaula, olhando para eles. Após um tempo considerado longo, os jornalistas começaram a se incomodar a ponto de, irritados, formularem perguntas do tipo: "O que você está fazendo aí dentro?". Mas, como resposta, ouviram outra pergunta, do tipo: "Onde eu deveria estar?"


Nos minutos que se seguiram, os jornalistas tentaram obter de McGoohan informações sobre a série, "do que se trata?", perguntavam, ao que o ator respondia algo como "o que vocês esperam ver?". Para toda pergunta, McGoohan respondia com outra pergunta. Ao final do evento, que não deve ter durado muito tempo, os jornalistas foram embora sem terem conseguido arrancar de McGoohan uma única informação sobre a nova série.

E isto era "O Prisioneiro", uma série que tinha como objetivo provocar o questionamento. Em nenhum momento, desde sua apresentação à imprensa, até o último episódio exibido (e mesmo posteriormente em entrevistas), o ator Patrick McGoohan planejou responder qualquer pergunta levantada na série. E justamente em função disso, "O Prisioneiro" se tornou uma das produções mais cultuadas e respeitadas de todos os tempos. Muitos tentaram reproduzi-la, mas falharam,  justamente por ignorar seu principal elemento: não responder perguntas.


Considerado o Franz Kafka das séries de televisão, Patrick McGoohan criou, em parceria com  George Markstein, um universo próprio, sombrio, repleto de dúvidas e inseguranças, tal qual o período sócio-político e econômico no qual a série foi concebida e exibida.

Um agente pede demissão de seu cargo para logo depois acordar em uma ilha, conhecida como Vila, onde uma nova sociedade o aguardava. Sua casa foi reproduzida em todos os detalhes, mas, da porta para fora, não era Londres que ele via, e, sim, uma espécie de resort para onde, supostamente, agentes do mundo inteiro, aposentados ou afastados, eram levados. Cada um respondia a um número. Nosso agente passou a ser conhecido como Número 6, tendo o Número 2 como uma espécie de governador do local. O Número 2 queria saber os motivos pelos quais o Número 6 tinha pedido demissão, resposta que nem ele e nem o público, conseguiu.


Cada episódio era carregado de duplo sentido e metáforas. A série se transformou em matéria de Semiótica em faculdades dos EUA e Inglaterra. Até hoje é possível assistir e descobrir novos elementos, visto que o tempo fez com que símbolos e signos apresentados na série pudessem ter uma nova interpretação.

Ao longo dos anos, a série inspirou três teorias básicas, tendo como referências diálogos, personagens e situações dos episódios. A primeira, é a mais óbvia. O Número 6 é um agente que foi sequestrado pelo governo (talvez inimigo) e mantido prisioneiro na Vila na qual tentam arrancar-lhe informações secretas. A segunda, apresenta um olhar oposto, no qual o Número 6 seria um agente duplo, que, prestes a ser descoberto, tenta voltar para seu país de origem, mas é sequestrado pelo governo britânico e levado a um local onde outros agentes duplos são mantidos. Lá, ele é torturado para revelar informações sobre o outro governo, além de uma confissão sobre sua condição.


A terceira teoria levantada, apresenta a Vila como sendo um projeto criado pelo próprio Número 6. Tendo apenas o alto escalão à par de seu envolvimento, ele teria planejado e executado uma situação na qual é levado à Vila, local para onde são enviados agentes com informações secretas as quais o governo britânico teria interesse em obter. Tratado como um dos prisioneiros, ele é interrogado por pessoas que não sabem de sua verdadeira condição. Seu objetivo na Vila seria testar a segurança, além de avaliar o potencial de cada candidato a Número 2, sem conhecer os métodos que seriam aplicados para "quebra-lo".

Em torno dessas três teorias básicas, giram dezenas, ou centenas, de outras que surgiram na tentativa de se explicar cada elemento e símbolos introduzidos em cada episódio da série.


Quando a TV a cabo surgiu, tomou para si a função de produzir séries que desenvolvam seu conteúdo como se fosse um filme arte, ou um livro no qual temos personagens mais complexos; a TV aberta ficou com o puro entretenimento de massa. No entanto, antes da TV a cabo existir, surgia de tempos em tempos uma ou outra produção que hoje seria considerada produto de TV paga.

Personagens de séries tem como principal função conquistar o interesse de uma grande massa, tomando para si características que reflitam o comportamento do cotidiano, explorando a cultura popular e adotando visões morais consideradas corretas (mesmo quando, aparentemente, são personagens que contradizem essa postura moral). Ao longo dos anos, as séries foram criando "fôrmas", nas quais os roteiros e personagens são encaixados para atender os interesses de mercado e de público. A cada década, algumas séries surgiram para quebrar essa fôrma (ou fórmula), elevando o nível das produções seriadas ao determinar um novo patamar a ser alcançado.


"O Prisioneiro" é uma dessas produções, considerada muito à frente de seu tempo. Cada vez mais o público televisivo exige ser surpreendido com roteiros e personagens mais elaborados; mas ainda assim, matém um aspecto de cultura de massa, ao exigir respostas explicativas para cada dúvida levantada. "O Prisioneiro" negou qualquer resposta a seu público. O objetivo era estimular cada telespectador a levantar suas próprias hipóteses a partir de elementos disponibilizados na série, a qual tinha como base a cultura da época com sua própria visão do futuro da humanidade.

McGoohan chegou ao ponto de romper a parceria com Markestein, defendendo a decisão de não responder nenhuma pergunta. Markestein queria que o último episódio apresentasse o Número 6 escapando da Vila, tornando-a de conhecimento público, prendendo os responsáveis e assumindo, assim, a figura do herói imbatível que o público tanto gosta e já se acostumou a ver na séries de TV. McGoohan disse não; a parceria foi desfeita e o último episódio trouxe, até na última cena, mais questionamentos.


Quando o remake americano foi anunciado, uma dúvida pairou sobre os fãs da série original: seria mais uma das muitas tentativas da TV, especialmente a dos EUA, em reproduzir a essência do que foi a série "O Prisioneiro", ou apenas a exploração de um título já conceituado?

Por mais que a minissérie produzida pela AMC e exibida no Brasil este mês pela HBO, tenha conseguido trazer em seu texto uma conceito que retrata a idéia originalmente explorada pela série inglesa, ela não foi capaz de compreender sua essência. Vários foram os motivos, entre eles, o personagem principal não ter razão de existir, muito menos motivo razoável para se tornar o Número 6; outra questão, a mais óbvia, é o fato da minissérie ter oferecido uma resposta conclusiva no final. Com isso, ela se tornou apenas mais uma a utilizar o conteúdo explorado por "O Prisioneiro".

A série original foi construída em cima de uma ideologia; a minissérie que leva seu nome foi construída com o objetivo de reproduzir essa ideologia, sem de fato adotar uma para si. Na minissérie temos um jovem que acorda no meio do deserto. Ele encontra um velho à beira da morte que lhe pede para passar uma mensagem a uma terceira pessoa. Capturado, é levado à uma Vila na qual se torna um prisioneiro e recebe o número 6, pelo qual passa a ser chamado. O Número 2 introduz o Número 6 ao seu novo ambiente, no qual é apresentado a seu irmão, que ele acreditava ter morrido quando ainda era criança. Com o tempo Número 6 se torna espião do Número 2, que tenta descobrir possíveis traidores.


Outras situações ocorrem, as quais fazem um paralelo com alguns episódios da série original, como por exemplo, a mulher com quem 6 se envolve ou, quando ele assume a posição do Número 2. A minissérie explora um tema já visto em outras produções, que é a do universo paralelo, neste caso, o sonho/imaginação x a realidade. Com isso, tal qual as demais que trabalharam esse tema, a minissérie faz um alerta no qual discute uma situação atual: as pessoas estão trocando o universo real pelo virtual.

No entanto, embora a minissérie tenha conseguido desenvolver sua história a contento, ela não justifica o status de sua produção. Poderia ter sido vendida como qualquer outra minissérie, a qual, inevitavelmente, seria comparada ao "Prisioneiro"; mas, no momento em que carrega o status de remake, ela falhou em desenvolver o conteúdo proposto, ignorando o princípio básico da série: nunca oferecer respostas conclusivas.


5 comentários:

Rubens disse...

Do jeito que voce descreveu "The Prisoner" original, a serie deve ter desagradado e irritado bastante o público em sua época... Como assim inventar um monte de mistérios e não resolver nenhum?...

Fazer o público perder o tempo dele acompanhando a historia durante semanas (ainda bem que as séries britânicas sao curtas), e depois não dar-lhe a mínima satisfação sequer?...

Fernanda Furquim disse...

As respostas são interpretativas, e aí é que está a beleza da série.

Matheus disse...

Eu vi o remake, mas não vi a original.
Achei o remake bastante confuso, não apenas pelo que você disse, do Nº 6 sem foco, mas parece que o próprio roteiro se perdeu na confusão e quando explicou, pareceu que aí que a confusão foi maior ainda...

Opinião de leigo, claro...
Enfim, não gostei muito do remake, mas não sei se conseguiria assistir uma série sem respostas hehe
Realmente parece estar à frente do seu tempo =)

Anônimo disse...

Um fato interessante é que, nos a-
nos 80, o grupo inglês de Heavy Me-
tal Iron Maiden em seu álbum de 82
The Number Of The Beast, homenageou
esta clássica série na música The
Prisoner, onde na introdução da mes
ma, se escuta: You are information,
information,information...Why? you
are number two(oh was a number one?
),you are a number six...as a num-
ber,are a free man! Ah,ah,ah,ah,ah!
Steve Harris,o líder da banda,deve-
ria ser fã da série, tanto que teve
que pedir permissão ao próprio pro-
tagonista da mesma prá usar a sua
voz na música. Fato curioso êsse,a-
posto que quase nenhum fã dessa sé-
rie conhecia essa historia.

Flávio disse...

Ausência de respostas essenciais... Oh shit! Exatamente como a vida! Hahaha

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