quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Comentários Sobre o Remake de V

A série que promete trazer uma nova abordagem para a minissérie/série "V" dos anos 80 estreou ontem à noite nos EUA conquistando uma audiência de 13.95 milhões de telespectadores. Uma ótima estréia para uma produção que vem colecionando problemas nos bastidores. Desde atrasos com roteiros até a tentativa de se retirar o nome de seu criador, Kenneth Johnson, dos créditos, finalizando com a decisão de exibir apenas 4 episódios este ano, deixando os demais para março de 2010.

Em função da apreensão da ABC para com a série, a mídia intensificou a presença de "V" nos meios de comunicação estimulando a curiosidade e as expectativas do público. Não se sabe ainda se a série conseguirá manter a audiência conquistada, mas se depender da crítica americana, sua popularidade deverá ser grande.

Cuidado com pequenos spoilers!

A série traz os mesmos elementos e enredo da produção original, mudando apenas personagens e a ordem de alguns acontecimentos. Uma das principais diferenças é que a nova versão não faz uma relação direta com o nazismo; ela relaciona os alienígenas ao terrorismo. Com isso, o símbolo do V, utilizado no original como o V da vitória (símbolo de uma luta contra o nazismo) aparece na nova série como símbolo dos alienígenas, os quais são chamados de Vs. A pichação da letra nos muros se torna, assim, um símbolo de invasão e não de vitória.

Nesta nova versão temos Erica Evans (Elizabeth Mitchell) no lugar de Julie Parrish. Erica é uma agente do FBI que trabalha na prevenção de ataques terroristas. Tal qual Julie, ela se mantém na defensiva em relação a presença de extra-terrestres no planeta Terra.

Erica tem um filho adolescente, Tyler (Logan Huffman), que, aparentemente, representa três personagens do original: Robin, a filha de um cientista que se apaixona por um alienígena, ficando grávida deste; Daniel, filho de judeus que se une aos alienígenas tornando-se parte da "liga jovem" que ajuda os visitantes a patrulhar a Terra; e Sean, filho de Mike Donovan, repórter investigativo que luta contra os visitantes. Se bem me lembro, na série original, Sean é sequestrado pelos alienígenas que o utilizam como arma para deter Mike. Nesta nova versão, Tyler apresenta elementos destes três personagens do original: ele se interessa por uma alienígena e em função disso ele se une a um programa dos visitantes o qual tem o objetivo de "divulgar sua cultura aos terráqueos". Além disso, ele é filho da heroína da história, portanto, poderá no futuro exercer a função de Sean.

No lugar de Mike Donovan temos o Padre Jack Landry (Joel Gretsch), que tem sua fé em Deus e na Bíblia posta em dúvida com a chegada dos alienígenas. Tal qual Mike, ele é um dos poucos que não "cai na conversa" de Anna, líder dos extraterrestres. Mas ao contrário de Mike, e em função de sua condição de Padre, ele não assume imediatamente uma postura guerrilheira contra os visitantes. Representativamente, o vemos agir como um, dentro de sua área. Ao invés de pegar em armas ou utilizar sua câmera de video para gravar flagrantes, como Mike fazia, Jack usa a palavra como munição de guerra contra os visitantes. Dirigindo-se à sua congregação, ele realiza a mesma função. Em resposta à sua postura, um de seus congregados lhe passa informações que o levarão a unir-se a um grupo de resistência contra os alienígenas.

Um dos aspectos interessantes desta nova versão é o fato de que somos apresentados a situações que estão ocorrendo em paralelo, mas que nós, público, não vemos, até que o personagem cuja vida acompanhamos, seja apresentado a elas, tal qual ocorre em uma boa parte das séries policiais. Em uma série de ficção e ação como "V", era de se esperar que a evolução dos acontecimentos fossem testemunhadas por nós, público; e quando elas chegassem aos personagens centrais, nós já estaríamos a par. Mas, visto que os fatos da série original já são conhecidos, então, de certa forma, já fomos apresentados a eles.

Por outro lado, com esta abordagem, a série corre o risco de perder o interesse do público, que mesmo sabendo do que se trata, quer acompanhar o desenrolar dos acontecimentos. Por exemplo: não vimos o grupo de resistência se formando e não vimos como eles descobriram que os alienígenas são lagartos. Só ficamos sabendo que eles já têm este conhecimento quando Erica e Jack participam de uma reunião do grupo.

Os demais personagens já apresentados no episódio piloto desta nova versão são Anna (a brasileira Morena Baccarin), que substitui Diana da série original. Aqui a personagem é mais sutil em suas más intenções para com a Terra. Com aparência de uma jovem doce e serena, contrastando com a imagem forte e incisiva de Diana, temos uma líder política, ao passo que Diana era visivelmente uma líder militar. Assim sendo, Anna une as funções de Diana e de John, que era de fato o líder dos alienígenas. Talvez ela reúna também as funções de Steven, que substituiu John.

Temos também Chad Deckker (Scott Wolf), apresentador de um telejornal que é escolhido por Anna para conduzir sua primeira entrevista dirigida ao povo da Terra. Em uma cena que lembra o filme "Frost/Nixon", vemos Anna, tal qual Nixon, manipulando a entrevista a seu favor, deixando Chad, na figura representativa de Frost, acuado, funcionando como um reles peão. Sua ambição versus seu ego o leva a um conflito, aparentemente moral, mas que na verdade nada tem a ver com isso, já que de moralista ele não tem nada. Chad deve substituir Eleanor Dupres, mãe de Mike no original, que se une por interesse aos alienígenas, tornando-se aliada. A diferença é que Eleanor realmente acreditava na aliança, confiança esta que Chad não parece inclinado a ter.

No lugar de Brian, o alienígena por quem Robyn se apaixona no original, temos Lisa (Laura Vandervoort), uma jovem lagarta que percebe o interesse de Tyler por ela, o que a leva a induzi-lo a se unir ao grupo de jovens que servirá de ligação entre a Terra e os alienígenas, uma espécie de representantes culturais. No lugar de Willie, o alienígena bonzinho, que faz parte da resistência contra a invasão da Terra, temos Ryan (Morris Chestnut), que está apaixonado por Valerie (Lourdes Benedicto), personagem que substitiu a garçonete Harmony.

A série tem uma boa história como base, personagens interessantes, em especial o Padre que deverá, assim espero, mergulhar em um conflito de fé, já que a Bíblia não prevê os fatos que estão ocorrendo. Mas existe um porém. O desenvolvimento do roteiro do episódio piloto apresenta uma tendência que vem ocorrendo nas séries produzidas pela TV aberta americana: cortar caminho para chegar logo ao objetivo da história. Este tipo de desenvolvimento remonta os anos 80, década em que os arcos das séries passaram a ser explorados com maior frequência, influenciados pelo sucesso das minisséries que surgiram nos anos 70.

Por estarem ainda iniciando uma linha narrativa, era comum ver que muitos roteiristas se deixavam levar pela ansiedade ou pela pressa em chegar a um clímax ou situação mais intensa, sem se preocupar em traçar um caminho mais realista para que os personagens chegassem em tal lugar. Um dos maiores benefícios que a série "24 Horas" trouxe para este formato foi justamente dar atenção aos detalhes, os quais movimentam os personagens que levam à um desenvolvimento da ação.

A atenção a estes detalhes levam a um efeito dominó, tornando a situação mais crível, principalmente para produções com base em ficção e fantasia. Estas são as que mais precisam se ater aos detalhes para que possam coexistir com as séries dramáticas, as quais retratam a realidade de uma sociedade.

A grande promessa da temporada, "FlashForward", falhou miseravelmente neste aspecto, comprometendo o desenvolvimento de personagens e história. Epsera-se que "V" não siga o mesmo caminho, muito embora o piloto tenha apontado para esta direção. Será que foi isso que alertou os executivos da ABC quando eles decidiram adiar a produção dos novos episódios da série, sob a alegação de que os roteristas precisavam de tempo para desenvolver melhor os roteiros? Espero que sim!

O piloto inicia bem com a chegada dos alienígenas à Terra, remontando o mesmo impacto causado nos anos 80 com a produção original. Mas logo depois já temos o primeiro sinal de que a história vai cortar caminho: quando Erica procura por seu filho na multidão, e sem problemas nenhum, o encontra. Não havia de fato necessidade para ela encontrá-lo tão rápido. A continuação da história não dependia disso. Por outro lado, a dificuldade de encontrá-lo poderia ter trazido um realismo e maior tensão ao momento retratado. A partir desse fato vemos o desenvolver da história podar situações que só poderiam ter sido desenvolvidas no episódio piloto.

Por exemplo: não vemos a reação dos governos à chegada dos alienígenas; também não vemos a reação do público à assimilação de que os extraterrestres estão na Terra. Após a chegada, temos um desnecessário e prejudicial salto de três semanas no tempo. O que se desenvolve a partir daí são "clips" de momentos vividos pelos personagens em relação à situação. Desperdiçadamente vemos situações que foram desenvolvidas nos dois episódios da primeira minissérie serem comprimidas em um único episódio: a chegada dos alienígenas, o jovem Tyler se deixar seduzir por eles e decidir se unir aos extraterrestre, a formação de um grupo de resistência, a descoberta de que os alienígenas são lagartos, e a proposta dos alienígenas em relação à Terra. Tudo isso em 46 minutos de episódio!

Não é à toa que nos últimos anos tenho dado preferência às produções feitas para a TV a cabo. Nessas séries são os personagens que movimentam a ação e contam uma história; nas produções da TV aberta, a grande maioria das séries são de histórias que movimentam os personagens que vivem uma ação. Se "V" continuar a seguir este caminho, ela se tornará apenas mais uma série de ficção e ação que desperdiçou seus personagens e situações. O que não justificaria seu remake, a não ser pelo fato de que, com isso, deverá se tornar popular. Algo que a primeira produção já era. Mas na época, os roteiros eram desenvolvidos assim, com raras exceções (que não foi o caso de "V"); hoje não são, ou não deveriam mais ser assim.

7 comentários:

Viniresende disse...

ÓTIMO comentário, Fernanda! Concordo com tudo. Quando você falou sobre as partes técnicas do primeiro episódio então...

Rafa Bauer disse...

Fernanda,
concordo na maior parte com seus comentários. Mas acho que, apesar de comprimir muitos acontecimentos em um episódio, no final das contas o resultado foi bom, e o telespectador atual pôde conhecer em um episódio apenas qual vai ser a premissa da série.

A metáfora do nazismo, que era clara na minissérie original, agora foi substituída pela religião. Os alienígenas fazem curas, a palavra "devoção" é muito usada, bem como a expressão "espalhar a palavra". E isso é uma boa sacada, pois o fundamentalismo religioso, aliado ao terrorismo, é talvez a maior preocupação global de hoje em dia.

Gostei da forma como apresentaram a resistência. Não tinha como mostrarem como ela se formou, porque isso aconteceu muito antes da chegada dos alienígenas (a não ser que fizessem em flashbacks, o que eu acho dispensável, pelo menos no piloto). No começo, achamos que a célula que a Erica investiga é "do mal", quando no final ela acaba afiliando-se. Uma boa sacada e reviravolta.

Acho que o roteiro teve soluções fracas e desnecessárias, como ela encontrando o filho. Mas acho que foram poucas e acabaram despercebidas num roteiro que teve muito ritmo e soube criar um clímax.

A decisão foi a de apresentar a história. Logo, não foram aprofundados as apresentações e os desenvolvimentos dos personagens, o que pode ser feitos em episódios subsequentes.

Enfim, eu gostei muito do piloto. Jpa da minissérie original, só vi o 1º capítulo, quando passou no TCM, mas já estou baixando o resto.

Acho que a série tem muito potencial, ao contrário da sofrível FlashForward, cujo piloto achei deplorável. Nessa, eu persisti por 4 episódios mas desisti. Muito ruim mesmo.

Fernanda Furquim disse...

Bem vindo de volta! Senti sua falta!! : )

Concordo com relação a não apresentar a resistência desde o início, usei como referência das diferenças entre uma e outra. Mas espero que sua origem seja apresentada, não precisando ser em flashback. Também acho que foi ótimo não resgaterem o tema do nazismo, atualizando a proposta.

O que mais gostei é a promessa do dabate relgioso que, espero, seja bem desenvolvido, não ficando só na promessa.

Não costumo julgar uma série só por um episódio, costumo acompanhar uma temporada inteira para conferir o potencial, a não ser que seja algo horrível!

A história em si é muito boa e os personagens promentem, somando-se isso aos efeitos especiais, muita gente pode perdoar os defeitos de desenvolvimento narrativo.

Mas, sorry, não achei o episódio ótimo, fiquei um pouco decepcionada. O fato de terem utilizado um desenvolvimento narrativo de duas décadas atrás, justamente a era do videoclip + caminhos cortados, para mim é um alerta vermelho.

Espero que ao longo dos próximos episódios eles se acertem, pois gostaria de acompanhar a série.

Fernanda Furquim disse...

Ah, esqueci de comentar, a presença dos alienígenas na Terra...muito Os Invasores, não acha?!? Será que eles vão ter algum defeito no corpo? hehehehe : )

Rafa Bauer disse...

Ah, esqueci de comentar também. Achei a presença dos alienígenas na Terra BEM Invasores também.
Eu sugeriria como defeito no corpo um rabinho, que eles teriam de esconder quando fosse na piscina huahauhauha

E eu sumi foi só dos comentários, porque continuo acompanhando o site sempre. E tá cada vez melhor, parabéns!

Fernanda Furquim disse...

Hahahahaha, rabinho é uma boa!! Tinha pensado numa linguinha à lá Kiss, só que mais comprida, mas rabinho é melhor!

Para identificá-los teriam que baixar as calças; será que o Parents Television implicaria com isso?! O padre mandando o sujeito baixar as calças?! hehehehe!

Ah, mas só visitar não te "vejo"; não some das minhas "vistas", gosto dos teus comentários, sempre muito bons!

Fernanda Furquim disse...

oi Vini, desculpe não agradeci seu comentário, grosseria minha!! Muito obrigada!!!!!!!!!

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