quarta-feira, 3 de junho de 2009

A Justiça Chega ao Fim

O último episódio de "Justiça Sem Limites" foi exibido hoje à noite no Brasil pelo canal Fox. Com ele, encerrou a era "Kelley" que agora entra em um hiatus.

Tendo iniciado sua carreira em 1989 com a série infanto-juvenil "Tal Pai, Tal Filho/Doogie Howser M.D.", David E. Kelley conquistou fama com "Nos Bastidores da Lei/L.A. Law", em 1986. Produção assinada por Steven Boccho, foi Kelley quem modelou a série com o seu agora conhecido perfil: sarcástico com personagens bizarros e com um tom fortemente politico. O sucesso veio logo em seguida quando assinou a série "Picket Fences", em 1992. Seguiram-se produções aclamadas pela crítica e/ou pelo público, entre elas "Chicago Hope", "Ally McBeal", "O Desafio/The Practice", "Boston Public" e agora "Justiça Sem Limites".

Com o fim da série, David E. Kelley sai de "cartaz" após 20 anos na televisão. Esta será a primeira temporada que estréia sem uma série de Kelley no ar. Seu último projeto, "Legally Mad", não foi aceito, ficando apenas no piloto.

Colocando-se ostensivamente contra as ações do governo de George W. Bush, sem contudo abraçar totalmente o governo democrata, "Justiça Sem Limites" marcou sua presença no video com discursos polêmicos, atuais e maduros.

Com esta série Kelley atingiu sua maturidade como roteirista. Sua evolução é visível. Já abordando temas polêmicos desde sua experiência com "L. A. Law", na qual explorou várias questões as quais foram resgatadas em "Justiça Sem Limites", Kelley trouxe para esta última, uma visão madura, equilibrada e contudente, sem perder sua já clássica visão irônica da sociedade e do ser humano.

Ao longo desses 20 anos Kelley explorou o humor em suas produções, o qual predominou em quase todas as séries que ele assinou. Embora "Justiça Sem Limites" não fuja a esta regra, foram os discursos políticos que fizeram a série destoar das demais.

A revolta de Kelley em relação à política americana, interna ou externa, cresceu a tal ponto que o único caminho agora para ele será a TV a cabo. Isto se ele realmente desejar se manter neste nível. Para continuar na TV aberta, Kelley terá que voltar a um discurso mais brando, explorando as relações pessoais com maior ênfase que as questões políticas ou sociais.

Até "Justiça Sem Limites" as séries de Kelley eram protagonizadas por heróis. Personagens autruistas, morais, que apesar de não saberem como realizar seus sonhos e desejos, de trocarem os pés pelas mãos, eram pessoas íntegras, que seguiam um nível moral. Com "Justiça Sem Limites" seus famosos discursos em tribunais ficaram não apenas mais contundentes mas foram proferidos por pessoas egoístas, que almejavam sucesso e que não se importavam com o que o cliente tinha feito, bastava o fato deles serem seus clientes. Personagens que não seguiam este caminho eram facilmente subtituídos.

Mesmo Alan Shore (James Spader) tendo sido suavizado em relação a sua participação em "O Desafio", se manteve com uma característica que dominou o resto do elenco de personagens: defender o cliente a todo o custo, culpado ou inocente.

A trama também trouxe à tona a relação de amizade entre Alan (Spader) e Danny Crane (William Shatner). Um é democrata, outro é republicano e, mesmo assim, amigos. Uma das principais características exploradas por roteiristas ao criarem seus personagens é a relação antagônica que possa existir entre eles. Nada mais justo que na série que pretendia discutir a situação atual dos Estados Unidos, este antagonismo fosse retratado nas visões políticas que cada personagem tinha.

Por outro lado, em uma época em que as séries têm a preocupação em trazer relações que possam ser transformadas em homossexual, Kelley brincou com os personagens, expondo-os a uma relação dúbia: ora de pai para filho, de irmão para irmão, de amigo para amigo, de amante para amante. A química entre os dois atores ajudou e muito no desenrolar da trama. Situações foram criadas para colocar a amizade em risco, mas em nenhum momento se duvidava da relação de afeto que existia entre os dois personagens.

A situação de Crane com a doença de Alzheimer, que no início da série o personagem a associou ao mal da vaca louca, fez com que a humanidade de Danny surgisse em meio a seus atos transloucados. Doença esta que até certo ponto foi uma justificativa, mas em geral uma desculpa, para que Crane pudesse realizar seus desejos e vontades sem ser responsabilizado por isso.

O personagem devolveu à William Shatner a credibilidade perdida ao longo dos anos. Sua carreira era dividida entre antes e depois de "Jornada nas Estrelas". Aclamado como um bom ator de teatro e um astro em ascenção na televisão, Shatner caiu em descrédito depois que ficou marcado como o Capitão James T. Kirk. Ao longo dos anos 70 e 80 ele amargou em filmes e séries "B". Apesar do sucesso na época, "Carro Comando/T. J. Hooker" não poderá ser listada como uma das melhores séries da década.

Fadado a se tornar uma sombra de Kirk apesar de todos seus esforços, ou mesmo uma caricatura de si mesmo, Shatner ressurgiu em "Justiça Sem Limites" como um ator concentrado em seu personagem, contido em sua atuação e generoso ao dividir a tela com os demais colegas. A série lhe deu o reconhecimento de crítica ao ganhar o Emmy.

Quando estreou em 2004, "Justiça Sem Limites" conquistou em sua primeira temporada uma média de 12.5 milhões de telespectadores. Segundo a empresa Nielsen, esta audiência era formada por pessoas pertencente, em sua maioria, à classe A. Mas, a partir da terceira temporada, em 2006, a audiência caiu para 9.6 milhões de telespectadores, número que se manteve até a quinta e última temporada a qual terminou sua exibição nos EUA em dezembro de 2008.

A queda na audiência não foi sinônimo de queda de qualidade, mas de desinteresse do público em em acompanhar os discursos políticos. Era para ela ter sido cancelada na quarta temporada, mas um acordo entre a ABC e Kelley permitiu que a série chegasse em seu quinto ano, proporcionando a produção do tão almejado centésimo episódio. Visto que Kelley estava se afastando para produzir "Life on Mars", o acordo consistia na obrigação de Kelley em escrever a maioria dos epsiódios finais.

Por sorte, ou maturidade do público, a proposta seguinte de Kelley não foi aceita. A versão americana de "Life on Mars" foi cancelada em sua primeira temporada. Apesar do fracasso, a série marcou uma nova fase na vida de Kelley. Depois de anos trabalhando com a Fox, ele mudou-se para a Warner. Com isso o roteirista e produtor está livre para se dedicar a novos projetos que façam juz ao nível alcançado por "Justiça Sem Limites".

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No video abaixo, Kelley fala sobre "Boston Legal" em homenagem recebida em 2008

3 comentários:

Tiago R. Lima "Mad Max" Andrade disse...

Ah, os roteiros de David E. Kelley...misturas perfeitamente dosadas de crítica política, humor e um tema espinhoso, mas fértil, como o direito. Boston Legal nos trouxe alguns dos personagens mais carismáticos da história da TV, e vai fazer MUITA falta.

Rafa Bauer disse...

Ótimo texto, Fernanda. Eu achava que Boston legal era mais uma série com roteiros requentados do Kelley, mas pelo visto não é assim. Vou procurar ver.

Fernanda Furquim disse...

oi Rafa, obrigada! De fato ele reutilizou muita coisa, roteiro e temas, espcialmente de L.A. Law.

Mas, como ocorre com muitas séries hoje em dia, ele foi mais contundente em sua crítica, se expôs muito mais, foi mais explicito, direto, deu nome aos bois.

Acredito que este tenha sido o problema com o público que abandonou a série ao longo dos anos.

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