Tudo em Família Modernizou as Sitcoms Familiares Americanas

(E-D) Jean Stapleton, Carroll O'Connor, Sally Struthers e Rob Reiner
em Tudo em Família (fotos: CBS/Arquivo/Divulgação)

Por Fernanda Furquim


Embora seja uma remake da britânica Til Death Us Do Part, a série Tudo em Família é uma topical sitcom que marcou a história da TV americana, modernizando o gênero comédia, em especial aquelas protagonizadas por uma família, até então dedicado a perpetuar o escapismo e o sonho americano.
Quando os EUA entraram na década de 1970, a imagem do mundo de fantasia e da família ideal já havia acabado, ao menos, na vida real. Com a guerra do Vietnã (que era mostrada nos noticiários da TV, à cores), o aumento dos índices de criminalidade, assassinatos (os Kennedys e Martin Luther King) e o surgimento do movimento hippie nos anos de 1960, tornou-se evidente que as abordagens televisivas ao estilo do sonho americano estavam ultrapassadas. As séries dramáticas já vinham, desde o início dos anos 60, adotando uma postura mais realista para suas histórias e personagens.
Na década de 1970, foi a vez da comédia, último reduto da ingenuidade social, embarcar nesta jornada. Razão pela qual os canais de TV cancelaram sitcoms que retratavam o escapismo puro e simples para encomendar comédias que abordassem abertamente as questões sociais, políticas e culturais de sua época. Isto não significa que a ingenuidade foi abolida das comédias. O que ocorreu foi uma exploração mais intensa de uma outra vertente. Desta forma, a década de 1970 ofereceu comédias realistas, as chamadas Topical Sitcoms, como Tudo em Família, Mary Tyler MooreMaude, MashSanford & Son(também remake de série britânica) entre outras; e comédias ingênuas familiares, vertente representada com menos ênfase por séries como Happy Days e A Família Dó-Ré-Mi/The Partridge Family, entre outras.
Topical Sitcom é o termo utilizado para definir a comédia que faz uso de temas polêmicos para criar situações vividas pelos personagens, que consequentemente irão debater a questão de forma aberta e direta, com cada lado defendendo sua posição com argumentos reais e consistentes com sua forma de pensar. Assim sendo, cada representante de uma ideologia tem seu momento e a permissão de se fazer ouvir, cabendo ao telespectador escolher ou não um lado. Atualmente, este termo não é mais utilizado. Isto porque, acredito eu, já não existem mais sitcoms que possam ser, de fato, classificadas como tal. A maioria adotou a abordagem politicamente correta para tratar de temas polêmicos, remetendo o público à década de 1950 quando, dentro da mentalidade da época, se adotava um discurso de moral e cívica com o objetivo de orientar o telespectador como ele deveria se comportar em sociedade
Tudo em Família, que trazia o título original de All in the Family, teve um total de nove temporadas e 208 episódios. Ela é até hoje uma das sitcoms que mais gerou spinoffs (Maude, The JeffersonsGloria), sendo que, ao encerrar sua produção, teve uma continuação com o título de Archie Bunker’s Place. Também existiu uma sitcom, com o título de 704 Hauser, que acompanha a vida de uma família negra que se muda para a antiga casa dos Bunkers. Vale lembrar que Maude gerou Good Times, e The Jeffersons gerou Checking In.
Nos EUA, Tudo em Família foi exibida entre 1971 e 1979. A série chegou ao Brasil na época de sua produção, pela Rede Bandeirantes, que exibiu apenas as primeiras temporadas. Pelo que soube (mas não é uma informação confirmada), o governo militar da época teria censurado a série, que saiu do ar e (até onde se sabe) não foi mais exibida em nenhum outro canal. Atualmente, ela está disponível em DVD no mercado americano, que lançou as nove temporadas produzidas. Episódios na íntegra, sem legendas, também podem ser encontrados no YouTube.
Apesar de ser uma comédia, a série trata de diversos temas tabus, como racismo, sexualidade, menopausa, estupro, aborto, política e religião. Justamente por isso, levou um bom tempo para que a série conseguisse ter sua produção aprovada e exibida.
Tudo começou quando o produtor e roteirista Norman Lear leu uma matéria no Variety que falava sobre a série britânica ‘Till Death Us Do Part. A matéria descrevia a relação entre um homem da classe operária que tinha opiniões opostas ao do genro, um rapaz mais aberto para as mudanças do mundo. Os episódios giravam em torno de discussões sobre política e questões sociais. No elenco também estavam as esposas dos dois personagens, e a sogra do mais velho. Imediatamente Lear se identificou com o enredo, visto que ele e o pai costumavam ter as mesmas discussões quando ele era mais jovem. Sem sequer ter assistido a um único episódio da série britânica, Lear adquiriu seus direitos de adaptação.
O primeiro projeto de Lear recebeu o título de Justice For All. Na história, Archie Justice, um sujeito preconceituoso e com ideias próprias sobre a sociedade, precisa lidar com as opiniões mais avançadas de seu genro e de sua filha. O projeto foi oferecido à rede ABC, que em 1968 encomendou a produção de um episódio piloto para avaliação. Lear tentou convencer o ator Mickey Rooney a interpretar Archie. Mas ao saber que Archie era um sujeito intolerante e preconceituoso, Rooney ficou com receio de que o público o confundisse com o personagem. Assim, recusou a oferta.
Em seu lugar, Lear contratou Carroll O’Connor, ator americano que na época morava na Itália. Descrito por seus colegas como o homem mais liberal que já conheceram, O’Connor não viu nenhum problema em interpretar Archie. Tal como Lear, O’Connor também teve um pai parecido com Archie, o que o levava a entender melhor as motivações do personagem. Mas O’Connor não acreditava que a TV americana estava pronta para uma série como aquela. Crente que o piloto não seria aprovado, ele exigiu que os produtores pagassem sua passagem de volta para a Itália, depois que as filmagens fossem finalizadas.
No elenco do primeiro piloto também estavam Jean Stapleton, que interpretou Edith, esposa de Archie; Kelly Jean Peters e Tim McIntire, como Gloria, a filha do casal, e Richard, seu marido, filho de irlandeses. Tal como O’Connor, Jean também não acreditava que aquele tipo de roteiro tivesse alguma chance de ser levado ao ar. Como já foi dito aqui, até então a maioria das sitcoms americanas estavam restritas a abordagens mais inocentes, geralmente se apoiando na comédia física ou em temáticas politicamente corretas.
A ABC gostou do piloto mas não dos atores que interpretavam o jovem casal. Assim, pediu que um novo piloto fosse produzido com outros atores. O segundo piloto foi filmado em 1969 com o título de Those Were The Days. No lugar de Peters e McIntire entraram Candice Azzara e Chip Oliver. Novamente o canal gostou da proposta mas, temendo a repercussão negativa, recusou o projeto, que foi então oferecido à rede CBS.
Naquela época, a CBS estava em primeiro lugar na audiência de comédias com sitcoms rurais como A Família BuscapéO Fazendeiro do Asfalto, entre outras. Mesmo assim, Richard D. Wood, o novo diretor do canal, estava interessado em elevar a audiência das comédias com uma sitcom que atraísse o interesse dos jovens que viviam nas grandes cidades. Assim, em 1970, a CBS encomendou a produção de um terceiro piloto do projeto de Lear. Agora com o título de All in the Family, o episódio foi produzido contando com O’Connor, Stapleton, Sally Struthers e Rob Reiner, como Gloria e seu marido agora chamado de Mike, filho de poloneses.
A CBS gostou do resultado e aprovou a produção de treze episódios para a primeira temporada. Isto não significava, contudo, que Lear tinha garantias de que a série seria exibida. Apesar de gostarem do conteúdo, diversos executivos da CBS estavam preocupados com a forma como ele seria recebido pelo público e, principalmente, pelas filiadas e anunciantes que praticamente determinavam o que ia ou não ao ar. Enquanto discutiam o que poderia ser ou não abordado e de que forma, Lear produziu os quatro episódios que precisavam ficar prontos antes da estreia da série em janeiro de 1971, período da Midseason. Sem aceitar sugestões, incluir ou excluir qualquer coisa, os episódios foram filmados conforme foram concebidos. Um dia antes da estreia, após muita discussão, a CBS concordou em levar a série ao ar assumindo a postura do ‘seja o que Deus quiser’.
Sem saber direito como divulgar a série, a CBS estreou Tudo em Família, que teve como concorrente em sua primeira noite dois telefilmes: um com Joseph Cotton e Leonard Nimoy e outro com Elizabeth Taylor. O episódio foi precedido de um aviso da emissora: ‘o programa que você está para assistir busca apresentar de forma cômica nossas fraquezas, preocupações e preconceitos. Esperamos com isso mostrar o quanto eles são absurdos’. Em sua estreia, a série dividiu a crítica, mas pesquisas encomendadas pela CBS revelavam que o público não tinha se sentido ofendido com a forma como temas polêmicos tinham sido abordados. Ainda assim, a audiência era baixa. Para tentar elevá-la, a CBS reprisou a série durante a Summer Season, mas foi a Academia de Televisão que lhe garantiu sua renovação. No ano de sua estreia, Tudo em Família ganhou o Emmy de melhor estreia do ano, melhor comédia e melhor atriz (Stapleton).
Quando a série entrou em sua segunda temporada, ela conquistou o primeiro lugar na audiência da CBS, onde permaneceu por cinco anos consecutivos. Ao todo, a sitcom ganhou vinte e dois prêmios Emmy, divididos entre produção, atores, roteiristas e diretores.
Em 1974, pouco antes do início da quinta temporada, O’Connor iniciou uma disputa contratual. Pedindo aumento de salário, ele ameaçou deixar o elenco. Os primeiros episódios foram filmados sem sua presença. Na história, Archie está viajando, participando de uma Convenção. Após algumas semanas, que deixaram dúvidas se Archie voltaria ou não, o ator e os produtores chegaram a um acordo. Sem avisar o público, O’Connor fez sua entrada no final do episódio The Longest Kiss , levando a audiência que acompanhava as gravações ao delírio. Archie voltara para casa.
A série sofreu duas mudanças de estrutura narrativa, que contribuíram com o desenvolvimento dos personagens e renovaram o conteúdo de suas histórias. O primeiro ocorreu quando Tudo em Família entrou em seu sexto ano. Struthers e Reiner desejavam aproveitar a fama para construir uma carreira no cinema. Com isso, a série mudou seu rumo. Gloria ficou grávida e Mike se formou, arranjando um emprego na faculdade. Eles então se mudam para a casa ao lado, levando o público a acompanhar suas histórias separadamente. Em um episódio, o telespectador acompanha uma situação vivida apenas pelo casal Archie e Edith. Em outra semana, a série oferecia uma história protagonizada por Gloria e Mike; em uma terceira semana, era apresentado um episódio estrelado pelos quatro personagens, e assim sucessivamente.

Quando a série entrou em seu oitavo ano, os contratos de Struthers e Reiner chegaram ao fim. Decididos a buscar novas oportunidades de trabalho, eles resolveram não renová-los. Assim, ao final da temporada, Gloria e Mike se mudam com o filho para a Califórnia. Por outro lado, Stapleton e O’Connor ainda tinham mais um ano de contrato. Quando a série entrou em sua nona e última temporada, o público passou a acompanhar a vida de um casal de meia-idade e os problemas inerentes à sua situação. Nesta temporada foi introduzida uma nova personagem, Stephanie (Danielle Brisebois), a sobrinha de nove anos de Edith, que é abandonada pelo pai na porta da casa dos Bunkers. Ela passa a ser criada pelo casal, substituindo o neto que eles perderam quando Gloria e Mike foram embora. Sabiamente, os roteiristas decidiram que a menina não se tornaria o centro das atenções. Ela mal aparece nos episódios e, quando é vista, é para introduzir uma situação que será vivida pelo casal.
A última temporada de Tudo em Família foi gravada sem a presença de um público, que mais tarde assistiu ao episódio para que os produtores pudessem captar suas reações, mantendo as risadas de fundo. A decisão foi tomada para dar mais folga aos atores e permitir que os roteiristas mudassem diálogos e cenas na última hora.
Quando a série encerrou, teve início a produção de Archie Bunker’s Place, uma continuação de Tudo em Família, estrelada por O’Connor. Stapleton aparece nos primeiros episódios mas, decidida a seguir em frente com sua carreira, a atriz avisou que não voltaria para a segunda temporada da série. Assim, Edith morre. Sua morte não é vista pelo telespectador, que apenas acompanha a luta de Archie para viver sem Edith, criando Stephanie sozinho. Esta série não fez jus à sua predecessora, visto que adotou o tom mais politicamente correto que voltaria a predominar nas sitcoms da década de 1980. A série teve um total de quatro temporadas e quase cem episódios, sendo cancelada sem um final.
Personagens
Acredito que não seja viável neste momento traçar um perfil detalhado de cada personagem da série, tamanha sua riqueza e profundidade. Ao contrário do que se imagina sobre séries antigas, muitas produções ofereceram evolução de personagens e Tudo em Família foi uma delas. Eles não ficaram congelados no tempo repetindo as mesmas ideias e chavões. Archie, Edith, Mike e Gloria são pessoas que evoluíram ao longo da série, chegando ao final com posturas e ideias diferentes das que tinham quando começaram, sem contudo desrespeitar suas personalidades e história.
Tentarei resumir ao máximo a descrição de cada personagem para que vocês possam ter uma ideia sobre quem era quem. Archie Bunker (O’Connor) é um dos primeiros anti-heróis das séries americanas (entre eles, Ralph Kramden de The Honeymooners, na década de 1950, sitcom que gerou Os Flintstones).
Preconceituoso e cabeça dura, Archie é um produto de seu tempo. Ele era uma criança durante a Grande Depressão americana, período em que passou fome quando o pai perdeu o emprego. Isto forçou o menino a largar a escola para trabalhar em qualquer coisa que pudesse ajudá-lo a sustentar a família. Com o fim da Depressão vieram as guerras. Archie lutou contra os nazistas na Europa. Foi neste conflito que ele se sentiu útil pela primeira vez e fez amizades que duraram anos. Mas, ao voltar para casa, a falta de experiência e de estudos fizeram com que ele se tornasse um operário, com ideias limitadas e pré-concebidas sobre a sociedade e a forma como ela funciona.
(E-D) O’Connor, Stapleton, Reiner, Struthers e D’Urville
Martin, que interpretou Lionel, um estudante de engenharia
elétrica que fazia pequenos serviços para os Bunkers
Falando errado, mas assumindo uma postura de quem sabe o que diz, Archie está consciente de suas limitações, o que o leva a passar o resto da vida temendo perder o emprego. Ao longo de boa parte da série, ele sofre para pagar a hipoteca da casa e perde o sono sempre que ocorre uma greve, cortes no orçamento da empresa ou o governo decide lançar novos pacotes que irão arrochar a economia.
Para seu desespero, sua única filha se casa com o filho de imigrantes poloneses que passa a viver de graça sob seu teto. Tratado como um ‘polaco’ vagabundo por seu sogro, Mike (Reiner) é sustentado por ele e por Gloria. Por isso, ele se esforça para tirar as melhores notas na faculdade com o sonho de conseguir um bom emprego como professor universitário para, no futuro, poder manter sua esposa e mais tarde o filho. Essa situação é fonte de constantes conflitos entre Archie e Mike, que também discutem diversas questões relacionadas à política e sociedade.
Archie é um republicano que, apesar de não ser bem tratado pelo governo, mantém a fé de que ele está fazendo o que é melhor para o povo. Mike é um democrata que sai às ruas para protestar. Ele sustenta diversas ideias revolucionárias sobre meio ambiente (em uma época em que as séries de TV ainda não discutiam esses valores, com exceções), relacionamentos e política embora, muitas vezes, tenha dificuldades de aplicá-las em sua própria vida. Mas Archie acredita que as opiniões de Mike são vazias e não valem nada. Por isso, ele o apelida de meathead (algo como cabeça de vento ou cabeça de bagre).
Mike também bate de frente com Archie nas questões religiosas. Ele é ateu e o sogro é um ferrenho Protestante temente a Deus que não suporta católicos ou judeus e não frequenta a igreja. As diferenças religiosas entre os dois chega ao ponto alto quando Archie insiste com Mike em batizar o neto na igreja, algo que o pai do garoto está determinado a não fazer.
Na ala feminina, a série apresenta Edith (Stapleton) e Gloria (Struthers). Edith é uma mulher que verdadeiramente ama o marido a quem dedica sua vida, preferindo sempre olhar o lado positivo de tudo o que ocorre à sua volta. Aparentemente, Edith não é muito inteligente ou perspicaz. Muitas de suas opiniões não fazem sentido, o que irrita Archie e deixam Gloria e Mike sem ter o que dizer. Ela adora relembrar o passado; mas suas lembranças são sobre detalhes rotineiros e não sobre grandes eventos que ocorreram na sua vida. Ao tentar explicar algo que aconteceu, Edith dá voltas e voltas, o que leva quem está ouvindo a perder a paciência ou o fio da meada. Uma das razões pelas quais Archie a chama de dingbat/burra. Mas Edith não é burra. É ela quem consegue perceber as razões pelas quais cada um se comporta desta ou daquela forma. Por exemplo, em um dos episódios, Edith diz a Mike que a razão pela qual Archie vive implicando com ele é porque o marido sente inveja dos sonhos de sua geração e das possibilidades que ela tem pela frente. Algo que Archie nunca teve e nunca terá. Edith é doce e gentil, aceita as pessoas como elas são, sem tentar mudá-las ou moldá-las à sua visão de vida. Ela se adapta rapidamente às novas situações, está sempre disposta a ajudar o próximo e a receber de braços abertos qualquer pessoa que cruzar seu caminho. Algo que irrita Archie, que em muitas ocasiões acha insuportável conviver com alguém considerada uma santa.
Ao longo dos episódios, Edith começa a tomar as rédeas de sua vida, passando de uma simples dona de casa a uma mulher que trabalha fora (ela presta serviços em uma casa de repouso), o que a leva a enfrentar Archie em diversas ocasiões. Ela teme perder a companhia da filha, por isso faz qualquer coisa para manter Gloria e Mike perto deles.
A família reunida em um episódio natalino.
(E-D) O’Connor, Struthers, Reiner, Stapleton,
Brisebois e Cory R. Miller, como Joey Stivic.
Gloria é a mistura dos dois. Ela é obstinada como o pai e preocupada com o próximo como a mãe. Ao conhecer Mike, Gloria percebe a chance que tem de crescer enquanto pessoa. Os dois têm as mesmas ideias sobre como a sociedade deveria ser mas, tal como o pai, Gloria não tem estudo. Ela acredita que a melhor forma que tem de contribuir com a sociedade é ajudar o marido a se formar. Para tanto, ela arranja um emprego e enfrenta as críticas do pai. Apesar de tudo, Gloria se ressente e se sente muitas vezes humilhada por não ter o mesmo nível de conhecimento que o marido tem. Este é o ponto fraco na relação dos dois, algo que irá contribuir com a separação no final da série. Apesar de amar a mãe, ela não tem Edith como modelo de vida. Temendo se tornar como ela, Gloria luta para ser mais independente, diz o que pensa e não aceita que a sociedade ache certo que a mulher seja tratada como um cidadão de menor importância que o homem. Assim, ela mergulha de cabeça na revolução feminina de sua época. Algo que a leva a bater de frente com o marido. Mike acha que a mulher tem os mesmos direitos que o homem na sociedade, mas quando se trata de sua esposa, ele tem certas reservas.
A série trouxe diversos momentos importantes para a história da televisão americana. Entre eles, o mais famoso é aquele episódio em que Sammy Davis Jr. aparece. Amigo de O’Connor, ele implorava por uma participação na série. Determinado a não abrir as portas para atores convidados de renome, Lear resistia à ideia. Tanto que Sammy é a única celebridade a aparecer na sitcom. Ao final do episódio, Sammy dá um jeito de beijar o rosto do racista Archie. Curiosamente, este beijo ficou mais famoso que o beijo que Archie recebeu de um travesti em um outro episódio.
Um outro episódio que é muito lembrado é aquele em que Edith, em seu aniversário de 50 anos, sofre uma tentativa de estupro. Também vale a pena lembrar o momento em que Edith passa pelos efeitos da menopausa; quando Gloria convence Mike a fazer uma vasectomia; quando Archie descobre durante o funeral de um de seus melhores amigos (James Cromwell) que ele é judeu; ou quando ele descobre que seu amigo e ídolo dos esportes é gay. Também são memoráveis as discussões de Archie sobre a cor de Deus ou sobre a forma como cada raça, credo ou cor devem viver separadamente.
A série levantou tantas questões importantes e ainda atuais que é impossível enumerá-las. Ela trouxe para a TV a verdadeira função da comédia: apresentar os problemas de uma sociedade de forma satírica. Algo que se tornou uma raridade na rede aberta americana. A série atravessou uma década inteira e, ao longo de sua produção, absorveu as mudanças que ocorriam nos EUA, tanto políticas como econômicas e sociais, o que levou seus personagens a crescerem.
Na cena final do último episódio, Archie, à sua maneira desajeitada, faz uma declaração de amor à esposa, a quem ele costumava, no início da série, chamar de burra. Com isso, ele finaliza a história deste casal, que retratou o comportamento de uma geração que também estava chegando ao fim. A década de 1980 teve início trazendo com ela novas séries cômicas que discutiram abertamente os prós e contras de diversas questões sociais, mas de forma mais polida que na década anterior. Ainda assim, contribuíram com o crescimento dos personagens das sitcoms, que na década de 1990 mergulhou no humor sarcástico, embora, de um modo geral, esvaziado de questões políticas e sociais, optando por explorar mais as questões culturais (sendo que existem as exceções, como por exemplo Murphy Brown e Roseanne).
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Texto originalmente publicado em 2013 no blog Nova Temporada da VEJA.com, onde fui colunista entre 2010 e 2016.

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