50 Anos de O Prisioneiro



Por Fernanda Furquim

Em uma manhã de setembro de 1967, jornalistas ingleses foram convidados a participar de uma coletiva de imprensa na qual seria apresentada a eles uma nova série da produtora ITC (canal ITV) em parceria com a Everyman Films chamada O Prisioneiro. Ao chegarem no local, eles foram conduzidos ao porão onde encontraram Patrick McGoohan, já famoso por Danger Man/Secret Agent, preso em uma jaula. À sua frente, duas ou três fileiras de cadeiras, onde os jornalistas se acomodaram. Acostumados a este tipo de evento, eles ficaram esperando a exposição do que seria esta nova série criada, produzida e estrelada por McGoohan.
No entanto, só encontraram silêncio. Ele não pronunciou uma única palavra, apenas ficou em pé, dentro da jaula, olhando para eles. Após um tempo considerado longo, os jornalistas começaram a se incomodar a ponto de, irritados, formularem perguntas do tipo: “O que você está fazendo aí dentro?”. Mas, como resposta, ouviram outra pergunta, do tipo: “Onde eu deveria estar?” Nos minutos que se seguiram, os jornalistas tentaram obter de McGoohan detalhes sobre a série, “do que se trata?”, perguntavam, ao que o ator respondia algo como “o que vocês esperam ver?”. Para toda pergunta, McGoohan respondia com outra pergunta. Ao final da apresentação, que não deve ter durado muito tempo, os jornalistas parecem ter ido embora sem conseguir arrancar de McGoohan uma única informação sobre a nova série. E isto era O Prisioneiro, uma série que foi criada para provocar o questionamento e não para responder perguntas.
Quando a TV a cabo começou a produzir, tomou para si a função de oferecer séries mais complexas, segmentadas, desenvolvendo seu conteúdo como se fosse um filme arte ou um livro no qual temos personagens mais profundos; a TV aberta ficou com o puro entretenimento de massa. No entanto, antes da TV a cabo existir, surgia de tempos em tempos uma ou outra produção na rede aberta que hoje seria considerada produto de TV paga.

O Prisioneiro é uma delas. Em nenhum momento, desde sua  apresentação à imprensa até o último episódio exibido (e mesmo posteriormente em entrevistas), McGoohan planejou explicar cada detalhe/elemento apresentado na série. O ator sempre sustentou a ideia de que não é responsabilidade da produção oferecer uma explicação de sua história, mas do telespectador em construir sua própria interpretação daquilo que vê. E justamente em função disso, O Prisioneiro se tornou uma das produções mais cultuadas e respeitadas de todos os tempos.
Muitos tentaram (e ainda tentam) reproduzi-la, mas falharam por ignorar seu principal elemento: não responder perguntas. Isto porque os produtores ainda são forçados a atender aos interesses de mercado e de público, que manipulam e decidem o que será mostrado. Se por um lado o público de séries, ao longo dos anos, passou a exigir ser surpreendido com roteiros e personagens mais elaborados, ele ainda deseja respostas explicativas para cada dúvida levantada ao longo de uma produção. Em 1967, O Prisioneiro se negou a cumprir essas regras.
Considerado por vários críticos como o Franz Kafka das séries de televisão, McGoohan criou, em parceria com o roteirista George Markstein e o diretor David Tomblin, um universo próprio, sombrio, repleto de dúvidas e inseguranças, tal qual o período sócio-político no qual a série foi concebida e exibida.

Na história, um agente pede demissão de seu cargo para logo depois acordar em uma ilha conhecida como Vila, onde uma nova sociedade o aguardava. Sua casa foi reproduzida em todos os detalhes mas, da porta para fora, não era Londres que ele via, e, sim, uma espécie de resort para onde, supostamente, agentes do mundo inteiro, aposentados ou afastados, eram levados. Cada um respondia a um número. Nosso agente passou a ser conhecido como Número 6, tendo o Número 2 (interpretado por atores/atrizes diferentes) como uma espécie de governador do local. O Nº 2 queria saber os motivos pelos quais o Nº 6 tinha pedido demissão, resposta que nem ele e nem o público conseguiu.
Ao longo dos episódios, Nº6 é torturado, por vezes física e na maioria das vezes psicologicamente, para revelar seus segredos que os responsáveis pela Vila acreditam levar a uma rede de intrigas, visto que, em um dos episódios, Nº2  diz acreditar que nosso agente estava prestes a vender segredos de estado para o inimigo quando foi capturado. Por outro lado, embora não esteja disposto a responder perguntas, Nº6 faz várias, com o mesmo objetivo: descobrir os segredos da Vila, em especial a identidade do Nº1, que ele conclui ser a pessoa que está no controle de uma rede de intrigas.
Neste jogo de gato e rato, ou de xadrez, ora um lado vence, ora o outro conquista uma pequena vitória. Enquanto os dirigentes da Vila utilizam a ciência e a tecnologia para controlar, manipular e amedrontar os moradores do local, Nº6 nunca se entrega, mantendo uma invejável determinação e perseverança em seus propósitos, por vezes tentando encontrar uma forma de fugir, por outras, utilizando as próprias armas de seus inimigos para confundi-los ou dominá-los.

Cena do episódio A Change of Mind, com Angela Browne
Em alguns episódios são apresentadas críticas a uma situação específica. Em Free For All, por exemplo, temos uma crítica às eleições arranjadas; em The General, ao sistema educacional; em Living in Harmony, à luta armada; e em It’s Your Funeral, o uso de atos terroristas como meio para atingir um fim. Mas na maioria dos episódios a série trabalha a questão da liberdade.
Ao longo dos episódios, vemos uma crítica à invasão de privacidade na qual a sociedade, empresas e/ou o governo tentam a todo custo penetrar a intimidade do indivíduo, tomando posse de sua vida e de toda informação necessária para controlar suas vontades e movimentos e determinar seu presente e futuro.
Em termos simbólicos, a série é uma alegoria, ou fábula, que trabalha em diferentes níveis o tema da liberdade individual. A Vila pode representar uma sociedade/governo repressora que usa de diversos meios, inclusive lavagem cerebral, para transformar pessoas em massa, negando-lhes o direito à individualidade; a Vila também pode representar um mundo materialista, científico, tecnológico ou religioso no qual o indivíduo está preso, incapaz de expandir sua mente além do meio em que está inserido; ou ainda representar os conflitos internos do indivíduo, que tem dificuldades de definir sua personalidade em um ambiente opressivo; também pode representar o trabalho, o sucesso, os relacionamentos, a imagem pública, os ideais, as opiniões, os desejos ou as ideologias das quais um indivíduo não consegue se afastar ou mudar porque está prisioneiro de si mesmo. A Vila pode ser a forma como a mente cria seus próprios obstáculos/confrontos e manipula sentimentos, reduzindo a capacidade de uma pessoa em explorar seu verdadeiro potencial, ao criar suas próprias limitações e punições; ou preso ao seu lado sombrio viciado e repressor.

O Prisioneiro é uma série que retratou os temores e anseios de sua época, mas que estava à frente de seu tempo. Quando foi concebida, ela estabeleceu duas situações que romperam com algumas fórmulas utilizadas nas séries. Uma delas é o fato de que não foi produzida apenas para divertir. Sua abordagem simbólica agregou um elemento mais profundo ao formato popular da época, forçando o público a pensar, repensar e interpretar aquilo que estava vendo.
A outra é aquela que obriga o herói a sair sempre vencedor ao final de cada episódio, especialmente nas produções policiais/espionagens e de aventura. Poucas produções americanas tinham, até então, rompido com esta fórmula. Entre elas, podemos citar Os Invasores, que trata da teoria da conspiração alienígena, mas que dá ao protagonista pessoas que o ajudam (sendo que, posteriormente, David se une a um grupo que trava a mesma luta que ele); e O Fugitivo, que mostra a cada episódio o fracasso do Dr. Kimble em provar sua inocência e capturar o verdadeiro assassino de sua esposa. Mas, neste caso, manter o protagonista em fuga faz com que ele ajude pessoas inocentes ou em perigo, que também o ajudam a fugir. Este não era o caso de O Prisioneiro que, além de não conseguir escapar da Vila, desconfiava de tudo e de todos que o cercavam, o que o levava, por vezes, a se negar a prestar auxílio ou se importar com alguém. Temos aqui uma pessoa que depende unicamente de seu discernimento e sua força de vontade para preservar sua identidade e sanidade em um meio que está constantemente pressionando-o a se tornar mais um número, sem personalidade, desejos ou vontades. Assim, em alguns episódios ele perde; em outros (nos quais consegue enganar o Nº2), ele conquista uma pequena vitória… que não dura muito tempo.
A Vila é bela, limpa e idílica, mas sustenta um complexo sistema de segurança eletrônica e regras que controlam seus moradores, mantendo-os em silêncio e subservientes. Ao longo dos episódios, vemos as diversas tentativas frustradas que Nº6 faz para escapar do local. Razão pela qual todos esperavam vê-lo livre no último episódio. Algo que de fato ocorre, mas a série apresenta alguns elementos que levantam dúvidas sobre se ele realmente foi bem sucedido.
[Spoiler para quem ainda não viu e pretende assistir a série] No último episódio, Nº6 finalmente tem a chance de conhecer o Nº1. Ao encontrá-lo, o agente descobre que quem estava no comando da Vila era ele mesmo, a versão má que existe dentro de cada um de nós. Segue-se ao encontro uma correria interminável, com tiroteio e lutas corporais. Nesta confusão, o Nº1 desaparece. Mais tarde, nosso agente consegue escapar da Vila na companhia, entre outros, do mordomo (Angelo Muscat) que é visto servindo o Nº2 em vários episódios. Os dois chegam em Londres e vão direto para a casa do Nº6 (que por sinal, é a de Nº1 na Buckingham Place). A porta se abre automaticamente, como acontece nas casas da Vila. A última cena do episódio mostra o Nº6 andando em seu carro pelas ruas de Londres, imagem semelhante à primeira, de quando a série começou (antes dele ser sequestrado). Na história, estes elementos sugerem que Nº6 pode ter escapado da Vila, mas reinicia um ciclo, agora prisioneiro de uma cidade maior. Mas também pode significar que ele não conseguiu escapar da Vila, onde ainda está preso, provavelmente imaginando que fugiu (seja porque assim o deseja ou seja porque sua mente foi manipulada para acreditar nisso, como ocorreu em vários momentos da série e considerando sua abordagem psicodélica, bem como a trama do penúltimo episódio). Para complicar ainda mais as coisas, fica a pergunta: para onde foi o Nº1? Se houve de fato uma fuga da Vila, a pessoa que fugiu foi o Nº6 ou o Nº1 (lembrando que este último aparece vestindo um manto branco – não sabemos que roupa ele está usando por baixo)? Simbolicamente, as imagens representam que o ser humano estará sempre preso, que ele nunca conseguirá se libertar. Ele pode se livrar de algo menor, mas sempre estará preso a algo maior (que pode ser um ambiente, uma situação ou ele mesmo).  [Fim do Spoiler]
A série, até certo ponto, refletia a própria situação de McGoohan nos bastidores. Criando, produzindo e estrelando O Prisioneiro, série que tinha consciência de que não agradaria o grande público, ele lutou para que ela chegasse ao telespectador enfrentado as pressões que tentavam transformar sua obra no mesmo padrão das séries de espionagem da época. Esta mesma determinação (tal qual seu personagem), o levou a enfrentar um dos criadores/produtores que, dizem, insistia em puxar a série para o nível de fórmulas ao qual o público estava acostumado. Também o levou a enfrentar a CBS que, tendo adquirido os episódios antes mesmo deles serem produzidos, tentou influenciar na construção do personagem e nos rumos da história. Sua determinação o fez enfrentar as pressões da mídia, acostumada a ter informações sobre as séries que divulgava; e, por fim, o levou a enfrentar o próprio público que, decepcionado com o final, o agrediu verbalmente (e às suas filhas), querendo tomar-lhe satisfações. Nessa luta para manter sua visão artística e individualidade, McGoohan era um prisioneiro do sistema que mantém o mercado televisivo (o qual também o mantinha).
A boa receptividade da produção nos EUA (mais que no Reino Unido, ao menos na época), levou a CBS a pedir novos episódios, ao que McGoohan prontamente se negou a atender. Desde então, a TV americana vem tentando reproduzir O Prisioneiro, como se ela fosse uma fórmula. Podemos dizer que, para a época, a série foi uma produção experimental que deu certo (mesmo que muitos não tenham gostado/entendido o final) e se tornou cult. Ao ser exibida, ela provocou uma revolução no formato seriado pois, ao explorar a teoria da conspiração em uma trama fixa, trabalhou em vários níveis a leitura de metáforas e signos. Dizem que O Prisioneiro levou um executivo da TV americana a reconhecer publicamente, pela primeira e única vez, em convenção da mídia realizada em 1967, a superioridade da TV inglesa em relação à americana.
O balão Rover era um dos sistemas de segurança da Vila, que na vida real era amarrado com uma linha à roupa do protagonista para que pudesse segui-lo.

Mas qual a origem desta produção que, ao estrear no dia 29 de setembro de 1967, mudou a trajetória das séries de TV e continua influenciando sua produção (direta e indiretamente)? Reza a lenda que McGoohan filmava episódios de Danger Man/Agente Secreto, quando viu pela primeira vez o hotel resort Portmeirion em North Walles. Apaixonou-se pelo lugar e decidiu utilizá-lo como cenário de uma história que envolveria a locação enquanto personagem importante na trama e não apenas um lugar por onde alguém passa.
Segundo o livro The Prisoner, a Complete Production Guide, de Andrew Pixley(distribuído junto com o box de DVD da série na Inglaterra), McGoohan e Tomblin, que viria a se tornar seu sócio na Everyman Films, já discutiam ideias para uma nova série em 1959, durante a produção da primeira temporada de Danger Man. Em 1964, durante a 2ª temporada desta série, agora rebatizada de Secret Agent, foi produzido o episódio Colony Three, de Donald Jameson, no qual foi introduzido o que podemos classificar de uma referência a O Prisioneiro, já que no episódio, Drake, personagem de McGoohan, é levado a uma pequena cidade de um país comunista onde agentes são treinados para atuar como espiões em território britânico. Todos eram monitorados e ninguém podia sair do local sem autorização. Em 1966, já desenvolvendo o projeto de O Prisioneiro, McGoohan pediu a amigos indicações de roteiristas para ajudá-lo no texto. Teria sido neste momento que entrou em cena Markstein, um alemão que cresceu na Inglaterra onde atuou como jornalista policial e correspondente de guerra.
Ainda segundo Pixley, McGoohan estava se sentido entediado com Danger Man, que já estaria se repetindo. Assim, criou O Prisioneiro inspirado na crença de que a vida é um eterno processo de análise, questionamentos e decisões, por isso, a luta de um indivíduo por um significado não deve ser limitada pelo ambiente em que vive. Outras inspirações de McGoohan teriam sido a opinião de que a ciência e a tecnologia não deveriam estar acima do ser humano, bem como o filme O Processo, de Orson Welles(adaptação da obra de Kafka), no qual o protagonista dizia ‘não quero ser um prisioneiro’; e o livro 1984, de George Orwell, sobre um futuro totalitário. Já Markstein queria criar uma série que tratasse da ideia de que o governo enviava seus agentes afastados a vilas ou pequenas cidades montadas para recebê-los, mantendo-os seguros e longe de problemas. Markstein disse ter se inspirado em boatos que circulavam na época de que o Inverlair Lodge, um hotel na Escócia, tinha sido utilizado durante a 2ª Guerra Mundial com este fim.
Mas dizem que Markstein queria seguir a narrativa tradicional das séries, na qual o herói escaparia da vila, prenderia os bandidos e se envolveria em outras situações nas quais se tornaria um prisioneiro, mostrando que o homem está sempre preso. Markstein também queria aumentar para vinte e seis o número de episódios que seriam produzidos, com a esperança de que a série pudesse ser renovada. O problema é que estes não eram os objetivos de McGoohan, o que resultou no afastamento de Markstein após o quarto episódio filmado, Many Happy Returns.

Para McGoohan, foi fácil vender a série sem ter um único roteiro escrito. Famoso na época (a ponto dele ser o primeiro escolhido para estrelar O Santo e depois ser convidado para interpretar James Bond – antes de Sean Connery e, quando este saiu, antes de Roger Moore), McGoohan apenas precisou explicar em linhas gerais ao produtor Lew Grade, da ITC, do que se tratava a série. Inicialmente, Grade queria trinta episódios, já que seria fácil para ele vender a produção no mercado internacional, visto que seria estrelada por McGoohan. Mas o ator se recusou a esticar a trama por tanto tempo, convencendo Grade a se contentar com dezessete episódios. Este número já era muito para McGoohan, que tinha planejado apenas sete episódios: ArrivalFree For AllDance of the DeadCheckmateThe Chimes of Big BenOnce Upon a Time e Fall Out, embora só tenha definido a identidade do Nº1 depois que a série já estava no ar.
Outra frustração do ator foi o fato de que não lhe deram um ano de prazo para que os dezessete episódios pudessem ser escritos antes do início das filmagens. Visto que a série já tinha sido vendida para a rede CBS dos EUA, que exigia a entrega dos episódios para exibição dentro de sua escala de programação, McGoohan foi forçado a iniciar as filmagens com apenas seis roteiros prontos. Razão pela qual ele não ter ficado satisfeito com o resultado de todos os episódios, segundo entrevista ao Daily Mirror de fevereiro de 1968.
Desde o início da divulgação da série, o público, a mídia e mesmo os executivos dos canais que a exibiram, identificavam o Nº6 como sendo John Drake. O próprio ator chegou a cogitar a ideia de que O Prisioneiro poderia ser uma sequência de Danger Man/Secret Agent, com Drake pedindo demissão e sendo enviado à Vila. Mas, para tanto, ele teria que pagar os direitos autorais para os criadores desta produção. Por isso, dizem, ficou decidido que a identidade do Nº 6 jamais seria revelada. Assim, o público teria liberdade de concluir o que bem entendesse.
Mas, apesar dele não ter feito uma ligação direta com a série anterior (e ter negado veementemente em entrevistas que Nº6 era Drake), McGoohan introduziu  algumas referências em O Prisioneiro que a ligavam a Danger Man/Secret Agent. Por exemplo, a famosa saudação entre os moradores da vila, Be Seeing You, foi utilizada várias vezes em Danger Man/Secret Agent. Como já mencionado no texto, o cenário de O Prisioneiro já tinha aparecido em Danger Man, desde o seu primeiro episódio, que traz o título de View From the Villa, somando seis episódios na primeira temporada. Além disso, a equipe técnica era a mesma, já que O Prisioneiro era coproduzida pela ITC, produtora de Danger Man/Secret Agent. Mas a referência mais clara é a presença do agente Potter, um contato de Drake que aparece no episódio The Girl Who Was Death, de O Prisioneiro, interpretado pelo mesmo ator, Christopher Benjamin. Para completar, antes da estreia de O Prisioneiro foi exibida uma maratona de Danger Man/Secret Agent.
Leo McKern (E), ator que interpretou o Nº2 em três episódios, e Angelo Muscat (D), o mordomo.

As metáforas e duplo sentido de cada episódio levaram a série a se transformar em matéria de semiótica em faculdades dos EUA e Inglaterra. Até hoje, é possível assistir e descobrir novos elementos, visto que o tempo fez com que símbolos e signos apresentados pudessem ter uma nova interpretação. Para a produção, foi um trabalho árduo chegar ao nível de qualidade vista nos episódios produzidos. Isto porque, se era difícil para o público da época entender o que estava vendo, também era para os roteiristas (produtores e atores convidados) compreender o que estavam criando.
Markstein revelou em entrevistas que foi complicado estabelecer o nível da série porque eles não tinham orçamento para contratar roteiristas com uma visão mais aberta, que permitiriam compreender a profundidade das questões levantadas na trama. Por isso, o jeito teria sido contratar roteiristas tradicionais, que já estavam engessados às fórmulas (olha a questão do aprisionamento tratada pela série!) e não entendiam a trama o suficiente para explorar mais profundamente seu conteúdo. Isto obrigou Markstein a passar mais tempo com a equipe que eles formaram para eliminar os ‘recursos baratos’ e ‘saídas fáceis’ que ajudavam o Nº6 a resolver uma situação ou que facilitavam a finalização do episódio. Um guia foi montado e distribuído para os roteiristas com informações sobre a situação do personagem e o ambiente em que ele estava, bem como com algumas dúvidas que precisavam ser trabalhadas ao longo da série. Entre elas: quem sequestrou o agente, nós ou eles? quem é o Nº1? quem de fato é o nº6?, etc.
Ao longo dos anos, a produção inspirou diferentes teorias, sendo que três são consideradas básicas, tendo como referências diálogos, personagens e situações dos episódios. A primeira é a mais óbvia: o Nº 6 é um agente que foi sequestrado pelo governo (talvez inimigo) e mantido prisioneiro na Vila na qual tentam arrancar-lhe informações secretas. A segunda, apresenta um olhar oposto, no qual o Nº 6 seria um agente duplo que, prestes a ser descoberto, tenta voltar para seu país de origem, mas é sequestrado pelo governo britânico e levado a um local onde outros agentes duplos são mantidos. Lá, ele é torturado para revelar informações sobre o outro governo, além de uma confissão sobre sua condição.
A terceira teoria levantada apresenta a Vila como sendo um projeto criado pelo próprio Nº 6. Tendo apenas o alto escalão a par de seu envolvimento, ele teria planejado e executado uma situação na qual é levado à Vila, local para onde são enviados agentes com informações secretas as quais o governo britânico teria interesse em obter. Tratado como um dos prisioneiros, ele é interrogado por pessoas que não sabem de sua verdadeira condição. Seu objetivo na Vila seria testar a segurança, além de avaliar o potencial de cada candidato a Nº 2, sem conhecer os métodos que seriam aplicados para “quebrá-lo”.
Em torno dessas três teorias básicas, giram dezenas, ou talvez centenas, de outras que surgiram na tentativa de se explicar cada elemento e símbolos introduzidos em cada episódio da série.

Em 2007, após anos influenciando produtores e roteiristas na concepção de suas próprias séries, O Prisioneiro ganhou um remake americano, se é que podemos classificá-lo desta forma. A nova produção (atualmente disponível no Now/Clarovídeo) teve como objetivo fazer uma releitura desta trama com um olhar sobre o momento presente, em que o ser humano trava uma luta para se adaptar às mudanças políticas e sociais com a globalização e o terrorismo como cenário. Também trabalhou o fator psicológico das influências políticas e tecnológicas sobre o indivíduo que se torna cada vez mais ansioso e isolado do resto do mundo.
Mas, por mais que a minissérie produzida pela AMC e exibida no Brasil (inicialmente) pela HBO, tenha conseguido trazer em seu texto uma conceito que retrata a idéia originalmente explorada pela série inglesa, ela não foi capaz de compreender sua essência. Vários foram os motivos, entre eles, o personagem principal não ter razão de existir, muito menos motivo razoável para se tornar o Nº 6. Outra questão, a mais óbvia, é o fato da minissérie ter oferecido uma resposta explicativa no final. Com isso, ela se tornou apenas mais uma produção a utilizar os elementos explorados por O Prisioneiro. A série original foi construída em cima de uma ideologia; a minissérie que leva seu nome foi construída com o objetivo de reproduzir essa ideologia, sem de fato adotar uma para si.
Na minissérie temos um jovem que acorda no meio do deserto. Ele encontra um velho à beira da morte que lhe pede para passar uma mensagem a uma terceira pessoa. Capturado, o jovem é levado à uma Vila na qual se torna um prisioneiro e passa a ser chamado de Nª6 (Jim Caviezel). O Nº 2 (Ian McKellen) introduz o Nº 6 ao seu novo ambiente, onde é apresentado a seu irmão, que ele acreditava ter morrido quando ainda era criança. Com o tempo Nº 6 se torna espião do Nº 2, que tenta descobrir possíveis traidores.

 A minissérie americana da década de 2000
Outras situações ocorrem, as quais fazem um paralelo com alguns episódios da série original como, por exemplo, a mulher com quem 6 se envolve que remete ao episódio The Chimes of Big Ben, ou quando ele assume a posição do Nº 2, que pode ser uma referência a Free For All. A minissérie explora um tema já visto em outras produções, que é a do universo paralelo, neste caso, o sonho/imaginação x a realidade. Com isso, tal qual as demais que trabalharam esse tema, a minissérie faz um alerta no qual discute uma situação atual: as pessoas estão trocando o universo real pelo virtual.
No entanto, embora a minissérie tenha conseguido desenvolver sua história a contento, ela não justifica o status de sua produção. Poderia ter sido vendida como qualquer outra produção a qual, inevitavelmente, seria comparada ao O Prisioneiro. Mas, no momento em que carrega o status de remake, ela falhou em desenvolver o conteúdo proposto, ignorando o princípio básico da série: nunca oferecer respostas conclusivas.
Mas o interesse dos americanos em O Prisioneiro não terminou com o remake. Em 2009, foi anunciada uma versão cinematográfica da série, a qual ainda está em fase de desenvolvimento, visto que em 2016 a Universal iniciou negociações com Ridley Scottpara assumir a direção do filme. Vamos ver no que vai dar.
Be seeing you!

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