Os Melhores de House


Por: Marta Machado

Ao final da quarta temporada, House era uma das séries mais aclamadas da Fox. Não era necessário inovar, mas seu criador, David Shore, se arriscou substituindo toda a equipe de assistentes do Dr. House (Hugh Laurie) e começando uma espécie de reality show com 40 candidatos para as vagas de Chase (Jesse Spencer), Foreman (Omar Epps) e Cameron (Jennifer Morrison). Curiosamente, assim como House, os roteiristas não tinham a menor ideia de quem seriam os três selecionados. Eles costumavam debater sobre quem permaneceria e, por vezes, lamentavam a saída do candidato rejeitado. A nova fórmula para a quarta temporada poderia ter sido um desastre, mas ao contrário, levou a uma das estórias mais emocionantes da série, o episódio em duas partes House’s Head/A Cabeça de House e Wilson’s Heart/O Coração de Wilson. A trama, como de costume, apresenta dilemas éticos, mas ela também vai muito além na intrigante relação entre House e Wilson (Robert Sean Leonard).

Agora, se você ainda não assistiu, não prossiga, pois a seguir vamos aos poucos relembrar esse episódio. Segundo Shore, a inspiração para seu personagem veio de Sherlock Holmes. A semelhança entre os dois de fato procede. Vejamos, eles são gênios egocêntricos e solitários que têm um grande e leal amigo. Além disso, ambos moram em um apartamento, cujo endereço é 221B Baker Street. Enquanto os casos investigados por Sherlock são crimes cometidos por indivíduos, nos de House os criminosos são doenças. Seus métodos podem ser questionáveis e por vezes desastrosos, mas funcionam. E nenhum deles descansa até encontrar as respostas para seus quebra-cabeças.

Cabeça de House/O Coração de Wilson é exatamente isso, um complicado quebra-cabeça, cuja busca pela solução é uma das mais intensas de toda a série. A estória começa com House em um bar. Está desorientado e com problemas de memória. Não sabe como chegou no local, mas logo percebe que estivera em um acidente de ônibus. Após ser tratado no hospital, ele lembra de ter detectado um sintoma fatal entre as vítimas, pouco antes do sinistro. Porém, não lembra nem da vítima, nem do sintoma. Apesar de ter uma grave fratura no crânio, o passo seguinte não é repousar e sim investigar. Mas como prosseguir se não lembra de nada? A resposta vem do Dr. Kutner (Kal Penn), que declara: “A distância mais curta daqui até sua memória é direto pelo córtex pré-frontal. Basta acessá-lo. Hipnose pode deixar o cérebro no estado de nível teta2, melhorando a memória e a concentração.” Nas habilidosas mãos de Chase, House acessa suas memórias e nos leva para dentro de sua mente. E assim, experimentamos tudo que ele vê e ouve. Para sua surpresa, e a nossa também, Amber (Anne Dudek), “a sacana”, também aparece em suas lembranças. “Eu não posso falar com você subconscientemente, sem que ela apareça?!” Ele se queixa a Wilson. Afinal, após ser descartada do reality show por ser manipulativa, ela se atreveu a voltar à cena como namorada de Wilson.
Aos poucos, com a ajuda da hipnose e de alucinações provocadas pela ingestão de um monte de Vicodin, House identifica sua vítima como sendo o motorista do ônibus. Enquanto viajamos com ele através de suas memórias enigmáticas, percebemos uma angústia incomum tomar conta dele ao tentar desesperadamente diagnosticar o paciente. Seu ferimento piora, mas House se recusa a repousar. Essa inesperada preocupação com um completo estranho, leva Wilson a questioná-lo: “Por que este cara? Se quer pacientes com sintomas não diagnosticados, tem aos montes na sua mesa toda manhã. Mas nunca arriscaria a vida por eles. Por que esse cara é tão especial, a ponto de você se tornar o Batman?” House não sabe.
Eventualmente, ele descobre o problema, salva o motorista e pode ir para casa descansar. No entanto, as alucinações do acidente persistem, e ele percebe que alguém naquele ônibus continua correndo perigo. Ele ainda não sabe por que este caso é tão importante, sabe apenas que não pode perder tempo. Assim, ele recria o acidente colocando diversos funcionários do hospital dentro do ônibus, cada um representando um dos passageiros. E para estimular suas memórias, ele toma uma alta dose de Fisostigmina, um medicamento para Alzheimer. Em transe, ele revê a bela jovem desconhecida que habitou algumas de suas visões. Novamente, ela lhe mostra um pingente de âmbar (em inglês, amber), e logo percebemos que a resposta estivera diante dele (e de nós) o tempo todo. Após uma parada cardíaca, ele revela: “Amber, ela estava no ônibus comigo. É ela que está morrendo.”
Na segunda parte, O Coração de Wilson, House e Wilson encontram Amber inconsciente em outro hospital. Ela perdeu ambos os rins e seu coração está falhando de uma causa desconhecida. Também desconhecida é a razão por que ela e House estavam juntos na noite anterior. Mas o fundamental agora é salvar Amber. Ela é submetida a hipotermia protetora, para que House tenha tempo de descobrir o problema. Com o coração parado e sendo mantida no by-pass, Amber passa a habitar os sonhos de House nos breves momentos em que o cansaço vence sua determinação. Mesmo sonhando, ele obtém pistas sobre o mal que aflige a namorada de Wilson; porém, nenhuma hipótese é comprovada. Ninguém sabe o que está matando Amber, tão pouco o que ela e House faziam juntos. A possibilidade de eles estarem tendo um caso passa pela cabeça de alguns. Desesperado, Wilson suplica a House que se submeta a um estímulo cerebral profundo através de impulsos elétricos aplicados diretamente no seu hipotálamo para evocar suas memórias. Uma manobra arriscada que pode ser letal. “Acha que devo arriscar a minha vida para salvar a Amber?” House o questiona. O perigoso procedimento finalmente nos revela toda a verdade sobre a noite que House e Amber passaram juntos.
Mais uma vez entramos na mente dele e acompanhamos o relato. House está bêbado em um bar. O barman confisca a chave de sua moto. House liga para Wilson. Mas é Amber que aparece para levá-lo para casa, pois Wilson estava de plantão. House entra em um ônibus. Ela o segue e os dois conversam. Wilson e House finalmente descobrem por que eles estavam juntos, mas não parece haver nenhuma pista sobre a moléstia que está matando a jovem. Até que House a vê tomando Amantadina para combater uma gripe. Como o acidente destruíra seus rins, o corpo não conseguiu filtrar a droga. Wilson imediatamente sugere diálise para se livrar dos tóxicos. House lamenta, mas é impossível eliminar a droga. Não há nada mais a fazer. Amber vai morrer. O choque desta revelação provoca um ataque parcial complexo e House entra em coma.
Resta agora, acordar Amber para que Wilson possa se despedir. Os demais na equipe de House decidem fazer o mesmo, embora ninguém gostasse dela. Provavelmente, eles refletem o sentimento de muitos espectadores. Neste momento, todos esquecemos como ela era chata e manipulativa e não conseguimos conter a angústia de ver Amber e Wilson se despedirem. Compartilhamos da revolta de Wilson. Mas encontramos consolo nas palavras finais de Amber: “Não é essa a última sensação que eu quero sentir.”

Neste episódio, o brilhante e arrogante doutor é testado emocionalmente ao ser obrigado a abandonar sua costumeira abordagem insensível e por vezes cruel e tratar sua paciente como uma pessoa e não simplesmente um caso. Sua sincera e inesperada preocupação com a jovem é evidente nas cenas do desastre, quando ele tenta salvá-la. Ela é a primeira e a única vítima com quem ele se ocupa. Mesmo enquanto não lembrava de nada, no íntimo sentia-se responsável pelo ocorrido. Afinal, não fosse por ele, Amber jamais teria sofrido o acidente.
Durante o coma, ele a reencontra no ônibus e pensa estar morto. De fato, desejaria estar. Até o momento, Wilson havia suportado todos os seus atos irresponsáveis. Muitas vezes havia até se divertido com eles. Se ficar com Amber, não terá de sofrer as inevitáveis consequências de seus atos. Não há deboche nem sarcasmo quando ele declara: “Eu não quero sentir dor, não quero ser infeliz. E não quero que ele me odeie.” Seu subconsciente representado por Amber o convence a descer do ônibus. Ao vê-lo fora do coma, Wilson carrega uma expressão que é um misto de tristeza e mágoa. Quando a temporada 5 começa, ele põe um ponto final em sua amizade com House, deixando o hospital Princeton-Plainsboro.
Apesar de seus protestos, House só volta a desfrutar da companhia do amigo em Birthmarks/Marcas de Nascença (5×4). No episódio mais divertido da série, o pai de House faleceu e sua mãe, Blythe (Diane Baker), quer que ele faça uma homenagem durante o funeral em Lexington. Mas, como sabemos, House não gostava do pai e se recusa a comparecer à cerimônia, apesar dos apelos da mãe e de seus colegas. Cuidar da paciente chinesa diagnosticada com pneumonia asiática e cujos pais a rejeitaram é bem mais interessante. Ele, contudo, não é a única pessoa astuciosa nessa estória. Sob a alegação de estar administrando uma injeção de imunoglobulina, Cuddy (Lisa Edelstein) o põe para dormir. Quando acorda, está em um carro com Wilson a caminho de Lexington. Ele não tem a menor intenção de deixar Wilson completar a missão “leve House ao funeral a qualquer custo”, mas sua primeira reação é um sorriso satisfeito por ter o amigo de volta.

Wilson não está de volta, realmente; ele afirma estar apenas fazendo um favor a Blythe. House e o espectador fazem de conta que acreditam. Começa então uma viagem ao mesmo tempo tensa e divertida, durante a qual o sequestrado tenta escapar diversas vezes. O que fica difícil, pois Wilson confiscou sua bengala, o celular e seu estoque de Vicodin. Logicamente, o desafio serve apenas para estimular seu capeta interior. Assim, ele aproveita uma parada para jogar as chaves do carro em um bueiro. Mas não adianta nada. Wilson saíra preparado com lanternas e arames, como se já esperasse por uma manobra semelhante. De nada adianta também alegar que sua equipe precisa de sua atenção no caso da chinesa (o que não deixa de ser verdade). Ele então começa a falar sobre seu pai. Se Wilson compreender que entre eles não havia nenhum sentimento afetivo, talvez o deixe voltar. “Ele era um desgraçado, mas mesmo assim, seu pai. Você está biologicamente programado para ter sentimentos por ele.” Wilson contesta, mas House o surpreende, “Ele não era meu pai biológico.” Fato do qual suspeitava desde os 12 anos.
Como parece que mesmo assim, Wilson não vai desistir. House usa a bengala para acelerar o carro e atrair a atenção da polícia (sim, é lógico que ele convenceu Wilson a lhe devolver a bengala, é de House que estamos falando). O pequeno incidente acaba em prisão, pois aparentemente há um mandado contra Wilson na Louisiana, por vandalismo, destruição de propriedade e ataque. Descobrimos então a base da amizade entre os dois. Wilson tinha acabado de se formar e estava em uma convenção médica. Após se desentender com um sujeito no bar, Wilson perdeu a paciência e acabou quebrando um valioso espelho antigo, dando exemplo a outros dois clientes, que começaram uma briga. House, que também estava na tediosa convenção, viu em Wilson a única pessoa divertida no local. Por isso, pagou sua fiança e prometeu cuidar das acusações. Enquanto os dois batem boca acirradamente, o xerife decide liberá-los para o enterro.

Finalmente, eles chegam à cerimônia. Como ele ainda está relutante em prestar o tributo ao pai, Blythe pede que o faça por ela. Não é necessário nos colocarmos no lugar dele para saber que com certeza ele gostaria de simplesmente sumir. Chegado o momento, ele começa seu discurso e não nos surpreendemos. “Se o teste de um homem é como ele trata seus subordinados, nesse caso meu pai falhou. Esse homem que vocês querem homenagear era incapaz de admitir qualquer ponto de vista além do dele. Ele punia as falhas. Ele não admitia nada …” De repente, ele se detém diante dos olhares decepcionados de sua mãe e Wilson, e percebemos em suas palavras amargas a influência desse pai, que ele detestava, em sua formação como médico e pessoa. Em um artigo para o site BC Blogcritics, de outubro de 2008, Barbara Barnett faz a seguinte argumentação sobre o discurso. “De acordo com House, seu pai não aceitava nenhuma opinião além da sua. House, ao contrário, encoraja opiniões diferentes e está disposto a descartar suas próprias teorias se alguém tiver uma melhor. E ao contrário do pai, House não pune os erros dos outros. Ele quer que seus colegas tenham sucesso. Se não derem o máximo, ele os pressiona. Mas não pune nem falhas nem erros (seja de ações ou de julgamento).
Ao continuar o discurso, ele muda o tom, pois percebe que nem tudo que herdou do pai é ruim. “Ele adorava o que fazia. E considerava o trabalho como um dever sagrado, mais importante do que um relacionamento pessoal. Se ele tivesse sido um pai melhor, talvez eu fosse um filho melhor. Mas sou o que sou por causa dele. Pra melhor ou pra pior.” E então, por um instante, com a voz embargada, House parece ter se rendido à emoção. Ele se dirige ao caixão e beija a testa do pai. E já que está ali, por que não aproveitar para tirar uma amostrinha de pele da orelha do pai para um exame de DNA? “Ele não vai sentir falta”, justifica. Ficamos imaginando se alguma coisa dita no discurso foi sincera. Os roteiristas Doris Egan e David Foster explicaram em uma entrevista para o blog mencionado que deixaram as portas da imaginação abertas para que o espectador tirasse suas próprias conclusões. “Gostamos de fazer o espectador se envolver por completo com uma cena e então o jogamos em um nível mais profundo. Esperamos que isso o faça repensar o que acabou de ver.”
Ao perceber a manobra, Wilson leva House a uma sala reservada, onde os dois têm uma experiência catártica. “Você se aproveitou de um momento de sofrimento para transformar numa farsa.” Ele protesta. É a chance que House esperava para provocá-lo, para fazê-lo entender seus sentimentos, vencer a dor da perda e seguir em frente. “Você morre de medo de perder alguém que importa. Então descarta quem mais importa pra você.” House continua provocando até Wilson perder a paciência e jogar uma garrafa em uma vidraça, um “momento icônico”, na opinião de Egan, pois os transporta de volta ao começo da amizade. A câmera segue lentamente o curso da garrafa até a vidraça, que se estilhaça como se fosse uma maldição sendo quebrada.
De volta ao Princeton-Plainsboro, House descobre pelo teste de DNA que John House não era seu pai. Wilson o encontra deprimido, mas não por ter ficado aborrecido com a confirmação, e sim por não sentir nada. Nem consolo, nem satisfação, nada. De qualquer forma, é um alívio ter Wilson de volta ao hospital e à posição de melhor amigo. “Vou voltar por que você estava certo. Essa viagem estranha e chata foi a minha primeira distração depois que a Amber morreu”, ele confessa.
Por isso esses dois indivíduos tão distintos são amigos, eles precisam da companhia um do outro. Eles se completam, cada um a sua maneira e de acordo com suas necessidades. A morte de John House, revelou Foster ao blog, foi a oportunidade perfeita para realizar a reconsciliação. Agora House pode ficar à vontade para se abrir e declarar “meu pai morreu” como se recém tivesse tomado conhecimento do fato. Essas poucas palavras silenciosas sugerem que na verdade ele tem um lado sentimental, embora não admita. Mas Wilson compreende, então apenas replica “meus sentimentos”.

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