O Recurso Narrativo das Cópias Idênticas


Por: Marta Machado

E se em um certo dia você se encontrasse diante de você mesmo? Diante de um clone, um sósia ou um doppelganger (réplica)? O que você faria? Esta questão tem sido um tema recorrente tanto na literatura como no cinema, e a TV o tem explorado amplamente por décadas. O fascínio por esta cópia de nós mesmos pode ser interpretado como uma manifestação do estado interior da consciência humana e sua dualidade, desta forma oferecendo evidências das múltiplas personalidades existentes dentro de um mesmo ser. Os duplos iluminam o que está escondido, podendo nos ajudar ou prejudicar.
Independente da origem deste fascínio, a verdade é que este recurso pode ser visto em séries tão antigas quanto Anjos de Cara Suja (Paris Boy, 1954), As Aventuras do Super-Homem (Jimmy the Kid, 1956) e O Menino do Circo (Col. Jack’s Brother, 1957), repetindo-se ao longo dos anos em dezenas de séries, entre elas, Bonanza (The Gunmen, 1960), Laredo (A Prince of a Ranger, 1966), The Persuaders! (Someone Like Me, 1971), A Mulher Biônica (Deadly Ringer, 1977), Magnum(Faith and Begorah, 1983; Who is Don Luis Higgins … and Why is He Doing These Terrible Things to Me? 1986), Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman (Vatman; Madame Ex, 1994), CSI (Identity Crisis, 2002), Eureka (Double Take, 2012) e Gotham (Wrath of Villains, 2016), entre outras, muitas outras.
O recurso, utilizado em todos os gêneros, pode ter vários objetivos. Talvez a intenção da série ou do episódio seja divertir, como nas comédias. Quem não riu com as hilárias situações de duplos em Jeannie é um Gênio (The Case of the Vanishing Master, 1966), Primo Cruzado (Because They Are Cousins; Family Feud, 1990) ou Friends (The One With Russ, 1996), por exemplo, provavelmente ainda não assistiu!
Agora, imagine a situação de uma jovem que aguarda pelo ônibus em uma rodoviária quase deserta em uma noite chuvosa. Aborrecida com o atraso, ela se dirige ao guichê para obter informações, sendo surpreendida por um funcionário rude que se recusa a responder-lhe a mesma pergunta pela terceira vez. Ela protesta, pois ainda não havia feito nenhuma pergunta a ele. A seguir, sua mala desaparece, depois reaparece. O que aparentava ser uma mera sequência de equívocos torna-se um pesadelo, quando ela vê sua sósia junto a sua mala aguardando pelo seu ônibus. Tomada pelo descontrole, ela acaba sendo levada pela polícia. Este é o enredo do episódio Mirror Image (1960), de Além da Imaginação. Uma estória perturbadora, que também pode ser interpretada sob a perspectiva da paranoia doppelganger.
Mirror Image
Em seu ensaio Beyond the Mirror: Hidden Meaning in Mirror Image, o escritor Michael Martin DeSapio explica que o tema está simbolicamente relacionado à história dos EUA da metade do século 20. Naquela época, muitos americanos viam a extinta União Soviética como um mundo paralelo à democrática América, e temiam a presença de comunistas infiltrados na sociedade, secretamente engajados em uma campanha de doutrinação. DeSapio faz a correlação afirmando que a identidade da jovem Millicent é aniquilada por uma força hostil desconhecida. Ele vê no funcionário rude a imagem de um ditador comunista para quem a única realidade existente é a do seu posto na estação de ônibus, não admitindo, portanto, as explicações metafísicas apresentadas por Millicent para seu dilema. A jovem, aliás, cometera os “crimes” de ser uma mulher independente e não se adaptar à forma de pensar vigente. Por isso, é punida sendo brutalmente carregada pela lei.
Em outra interessante aplicação dos duplos, o espectador é levado a refletir sobre si. The Case of Mr. Pelham  (1955), de Alfred Hitchcock Apresenta, é um bom exemplo desta reflexão, ao mostrar um bem-sucedido contador perder seu lugar para o duplo, devido a sua total incapacidade para confrontá-lo. Enquanto Pelham desiste, o Capitão James Kirk, ao contrário, é capaz de enfrentar seu vil duplo, na realidade, a outra face dele mesmo, em The Enemy Within (1966), de Jornada nas Estrelas, apesar da perda gradativa de sua capacidade de julgamento. O tema se repete em Jornada nas Estrelas: a Nova Geração, quando o Comandante Riker tem uma rara oportunidade de repensar suas decisões passadas e mudar seu futuro. Second Chances (1993) apresenta um segundo Riker, também produzido pelo mau funcionamento do teletransporte. Embora sejam a mesma pessoa, ambos têm estilos diferentes e logo entram em conflito. Para Data, eles talvez ressintam a perda da singularidade, enquanto Worf acredita que vejam no outro algo que não gostem em si. Chama a atenção neste caso o fato de que, ao contrário do que ocorre em muitas estórias com réplicas, não há um Riker bom e outro ruim, não há o verdadeiro ou o falso, nem a ideia de que apenas um pode existir.
Outra discussão possível através dos duplos ocorre em Orphan Black, série cuja produção começou em 2013, abordando as questões morais e éticas da clonagem humana e seus efeitos sobre a identidade. Entre as motivações dos criadores (John Fawcett e Graeme Manson) para o tema está o fascínio pela ficção científica e pela ideia de trabalhar com diversas versões de uma mesma personagem feminina. Em seu TCC Gênero e Estudos Culturais: uma Análise da Série Orphan BlackThais Cristine Ranzi, formada em Comunicação Social, afirma que a série aborda diversas questões referentes a estereótipos de gênero e sexualidade, e, neste sentido, quebra com conceitos pré-determinados sobre o tema, mostrando uma vasta diversidade sexual e de gênero em seu enredo. Ela explica que os projetos de clonagem chamados Leda (feminino) e Castor (masculino) são um debate sobre a indução do comportamento para transformar seres humanos em robôs a serviço do sistema. Enquanto os clones do sexo feminino salientam o papel subordinado da mulher, os masculinos reafirmam a dominação do homem.
Orphan Black
Seja por que motivo for, os duplos, sósias ou doppelgangers agitam nossa imaginação, nos fazendo rir ou pensar. Por isso, inúmeras séries empregam este recurso, que às vezes serve apenas para permitir que o personagem escape de um cenário sem saída; isto é, se eu não souber como tirar meu personagem de uma enrascada, eu crio um doppelganger. Como é o caso de Grimm, onde a transformação de um personagem em outro tem sido realizada através de feitiços ao longo de suas seis temporadas. Dessa forma, se eu não consigo o que eu quero sendo eu, me transformo em alguém que possa realizar meu intento. Embora tentador, o método geralmente tem trágicas consequências.
E por mera curiosidade, segue uma pequena lista de outras séries que utilizaram este recurso. Quinta Dimensão (The Hundred Days of the Dragon, 1963), A Feiticeira (Which Witch is Which? 1965), Viagem ao Fundo do Mar (The Sky is Falling, 1964; The Cyborg, 1965; Day of Evil, 1966), Os Vingadores (vários episódios), Perdidos no Espaço (vários episódios), James West(The Night Terror Stalked The Town, 1965), Perry Mason (The Case of the Dead Ringer, 1966), Agente 86 (Too Many Chiefs, 1995; The Spy Who Met Himself, 1967), Missão: Impossível (frequentemente), Os Monkees (The Monkees Watch Their Feet, 1968), Galeria do Terror (The House, 1970), Gunsmoke (Alias: Festus Hagen, 1972), O Homem de Seis Milhões de Dólares (vários episódios), Novas Aventuras da Mulher Maravilha (Deadly Toys, 1977; Stolen Faces, 1978), Homem Aranha (Night of the Clones, 1978), Twin Peaks (Beyond Life and Death, 1991), Arquivo X (Small Potatoes, 1997), The Nanny (The Bobbi Fleckman Story, 1997), Dr. WHOStargate (There But For the Grace of God, 1998), Sliders: Dimensões Paralelas (1995-2000), Battlestar Galactica (2004-2009), Diários de um Vampiro (2009-), Como Eu Conheci Sua Mãe(Double Date, 2009; Robots vs. Wrestlers; Doppelgangers, 2010), Castle (Disciple, 2013), Fringe e The Flash.
E então, o que você faria se ficasse diante do seu duplo? Talvez tentasse lembrar de outras séries com este tema. Pois, se lembrar, compartilhe com a gente.

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