Nos Bastidores de Zorro: Primeiro Ano
Por: Marta Machado
Em 2001, Britt Lomond lançou um livro de memórias relatando os bastidores dos 13 episódios de Zorro, dos quais participou interpretando o temido, arrogante e incontestavelmente fascinante Capitão Enrique Sanchez Monastario, comandante do pueblo de Los Angeles. O título do livro: Chasing After Zorro. É nesta obra repleta de detalhes pitorescos que essa postagem se baseia.
Em 1950, Mitchell Gertz, um agente de Hollywood, comprou de Johnston McCulley os direitos de Zorro e tentou vender a ideia de uma série. No mesmo ano, Walt Disney também se interessou por Zorro, porém nenhum dos dois teve sorte. Em 1957, o produtor e roteirista Norman Foster entrou em cena e reacendeu o interesse de Disney no projeto, que desta vez foi adiante. Para despertar o interesse dos patrocinadores, Disney reuniu os executivos da 7UP Bottling Company e da AC Products Company e lhes apresentou o produto de uma forma bem peculiar.
Ele o demonstrou através de uma maquete do povoado de Los Angeles e do quartel, na qual aos poucos ele foi colocando figuras de 20 cm de altura, representando os personagens. Ao mesmo tempo, descrevia cada um detalhadamente. Como a reação dos executivos era boa, ele prosseguiu de forma mais entusiasmada na apresentação da figura do Sargento Garcia. Ele pegou uma almofada, colocou-a sob seu casaco e imitou um personagem gordo e desajeitado. Os executivos adoraram! A propósito, a ideia original de Disney para o personagem do sargento era de um gordo baixinho. Mais tarde, com a série em andamento, Disney criou personagens animados baseados em Zorro, para os patrocinadores usarem em seus comerciais de TV.
Na escolha para os papeis principais, houve um embate, pois enquanto Disney desejava Britt Lomond como Zorro/Diego, o diretor e roteirista Norman Foster insistia em colocar Guy Williams no papel principal, enquanto Lomond seria o Comandante Monastario. Eventualmente, Disney acabou concordando com Foster. Meses depois, Foster explicou a Lomond o porquê de suas escolhas. Em sua opinião, Guy Williams era fisicamente perfeito para o papel de Zorro, e Lomond, sendo um renomado espadachim e um experiente ator, era perfeito para interpretar Monastario. Ademais, o papel do comandante era crucial na largada da série para conquistar o público e garantir a audiência.
No dia 12 de setembro de 1957, a ABC Television Network estreou o primeiro episódio de Zorro, Apresentando o Senhor Zorro/Presenting Señor Zorro, que foi um sucesso imediato. A série rapidamente atingiu 38.9% de audiência, o que na época significava 40 milhões de telespectadores ligados na série.
1. Apresentando o Senhor Zorro/Presenting Señor Zorro
Segundo Lomond, o comandante era descrito no roteiro do piloto como um vilão alto e forte, bonito e arrogante. O ator decidiu acrescentar humor, astúcia, senso de superioridade, arrogância e atrevimento ao personagem. Ele deve se imaginar gentil, experiente e completamente invencível. Neste episódio, uma frase do comandante resume bem suas intenções. “Nada vai me impedir de ser o homem mais rico de toda a Califórnia.”
Nada, exceto Don Diego de la Vega, que acaba de retornar da Espanha disposto a combater as injustiças de Monastario. Porém, não abertamente. Ele decide se apresentar como um jovem inábil interessado apenas em livros. Assim, ao desembarcar da diligência, ele “acidentalmente” enreda sua bengala na trança do vistoso uniforme do comandante. O ato parvo foi ideia de Williams, que era muito criativo e gostava de inventar novidades durante os ensaios.
Após apresentar-se, Diego é conduzido ao escritório de Monastario, onde deve assinar alguns documentos. Dessa vez, Lomond pensou em algo para melhorar a cena. Nela, Diego está assinando os papeis, enquanto Monastario exibe sua habilidade com o sabre. Embora suas palavras demonstrem respeito pelo rico rancheiro, ele revela seu desprezo por Diego cortando sua pena ao meio (3:29). Williams novamente fez uma contribuição sugerindo o passo seguinte. Quando Monastario se vira para ler o documento, Diego o espeta com a sua metade da pena. Furioso, Monastario chuta o pobre Sargento Garcia (Henry Calvin), pensando ter sido o “baboso” quem o acertou com o sabre, que há pouco lhe entregara para guardar.
Convencer o comandante que ele é inofensivo pode ter sido divertido, mas representar este papel diante do orgulhoso Don Alejandro de la Vega (George J. Lewis) não é nada fácil. Após o desastroso reencontro com o pai, Diego vai para seu quarto e desabafa com seu criado Bernardo (Gene Sheldon): “Eu fiz uma coisa que não me deixou contente. Convenci meu pai de que sou um homem amedrontado. Mas se eu entrasse em ação como ele quer que eu faça, sua vida correria perigo. Agora estou livre para agir sozinho. Lembra-se do que eu disse essa manhã? Se não pode se vestir com a pele de leão, use a de raposa. A partir de agora eu serei Zorro, a raposa.”
Essas duas cenas definem o enredo dos 12 episódios seguintes, mostrando a capacidade dos roteiristas Norman Foster e Bob Wehling de construírem uma trama. A estória originalmente escrita por Johnston McCulley se chamava The Curse of Capistrano e aparentemente não primava por sua exatidão histórica. Então, quando Marvin Aubrey Davis (designer de produção) e Stan Jolley (diretor artístico) juntaram-se ao time, eles refletiram sobre permanecerem fieis à história ou seguirem o exemplo de McCulley. Eles decidiram seguir o autor. Assim, embora os uniformes do comandante e dos lanceiros pareçam adequados, eles não correspondem à Califórnia espanhola de 1820. A verdade é que o orçamento era apertado e muitos dos trajes podiam ser encontrados no departamento de figurino dos Estúdios Disney ou nas lojas de vestuário de Hollywood. A economia para o estúdio era considerável. Segundo Lomond, “o sorriso de Walt era sempre afável, seu aperto de mão, sempre firme, e sua carteira era mantida sempre bem fechada.”
Os trajes do elenco principal, no entanto, eram feitos sob medida, e Tornado, o cavalo de Zorro, tinha o luxo de ser interpretado por três “atores”. Um dos cavalos era usado para empinar, como vemos na abertura e ao final dos episódios. Outro era usado nas cenas de ação e luta, e um terceiro animal era usado nas cenas de corridas e perseguições.
2. A Passagem Secreta de Zorro/Zorro’s Secret Passage
O segundo episódio começa com Garcia supervisionando a colocação de cartazes que oferecem uma recompensa de 500 pesos por Don Ignacio Torres (Jan Arvan) e 1000 pesos por Zorro. Em sua primeira incursão na cidade, Zorro libertara o rancheiro falsamente acusado de traição, e de cujas riquezas Monastario deseja se apossar. Novamente, a autenticidade histórica parecia estar sendo desconsiderada, pois os valores das recompensas eram muito elevados para uma época em que um peão ganhava cerca de 10 a 20 pesos por ano. Lomond sugeriu que Foster reduzisse as recompensas para 150 pesos. Foster respondeu com um sorriso: “Você pode estar certo do ponto de vista histórico, Britt, mas veja como essas duas cifras de 500 e 1000 pesos têm um efeito dramático nesses cartazes.” Lomond foi obrigado a concordar, lembrando-se de uma frase do diretor John Ford. “Quando a história e a lenda entram em conflito, conte a lenda.”
Nesse episódio, Diego mostra a Bernardo as passagens secretas da hacienda de la Vega, desconhecidas até mesmo por seu pai. O esconderijo de Zorro foi construído inteiramente em estúdio, para evitar o deslocamento às cavernas locais. Disney achava que a iluminação e a sensação de isolamento pareceriam mais verdadeiras no estúdio do que em uma locação externa.
Após sua fuga, Don Ignacio se refugia na Missão de São Gabriel, que na realidade é a Missão de San Luis Rey, localizada nos arredores de Oceanside, a cerca de 20 minutos de San Diego/CA. A igreja, construída entre os séculos 18 e 19 pelos exploradores espanhóis, era perfeita para a série, pois tinha sido completamente restaurada recentemente e oferecia muita acessibilidade.
Seu uso para as filmagens, porém, foi limitado por algumas restrições impostas pelos padres. Por exemplo, ninguém podia fumar dentro ou perto da propriedade. O elenco e a equipe técnica não tinham permissão para colher as flores dos jardins. Os veículos (eram mais de 12) deveriam ficar longe da vista e nunca perto da entrada. O almoço do elenco e da equipe técnica deveria ser feito em um local isolado, distante da missão e dos prédios que a compunham. A produção atribuiu algumas dessas medidas à presença de turistas, que logicamente não deveriam ser perturbados durante as visitações.
Ademais, após o término dos trabalhos, não deveria haver nenhum lixo no local. Os padres também exigiram que, durante as horas de folga do elenco ou da equipe técnica, não fosse tocada música nem no set, nem nos veículos. Assim, todos conversavam em tom baixo e tentavam não elevar muito a voz durante as filmagens. Todos deveriam usar roupas adequadas no local, ou seja, nada de camisetas, shorts ou trajes chamativos. Os padres também eram inflexíveis com relação ao uso de linguagem inapropriada ou piadas de gosto duvidoso. Essa regra, Lomond relata, era mais difícil de cumprir.
Enquanto Don Ignacio Torres está seguro na igreja, Monastario prossegue na busca por seu principal oponente: Zorro. Os dois se reencontram na hacienda de Torres, quando o comandante tenta fazer um vaqueiro confessar ser o cavaleiro mascarado. Lomond conta que durante a luta, Guy Williams se esqueceu de um de seus movimentos e o atingiu acima do olho esquerdo. Foi um toque rápido, mas sangrou. A partir de então, eles começaram a ensaiar os duelos por um tempo maior do que o previsto no cronograma de filmagem.
E como algo assim poderia acontecer? Antes das filmagens do primeiro episódio, Disney percebeu algo que não gostou nos testes feitos com diversos atores. As espadas eram embotadas nas pontas, o que na sua opinião as fazia parecer falsas. Ele então mandou afiar as pontas. Quando Lomond viu as espadas pela primeira vez, nos ensaios do piloto, ele questionou o contrarregra a respeito. Este respondeu simplesmente: “Ordens de Walt.”
Nesta mesma cena, o roteiro dizia que Zorro desarmava o comandante. Lomond sugeriu que em vez de ser derrotado dessa forma, Zorro quebrasse sua espada. A ideia foi aceita, mas foram necessárias seis tomadas até a espada quebrar no ponto certo. A seguir, Zorro escapa pela sacada. Ele chama Tornado, que deveria aproximar-se da parede e permitir que Zorro pulasse na sela. Como vocês devem lembrar, Tornado era interpretado por três “atores”. Infelizmente, a produção pegara o “ator” errado, que não entendia os comandos. Norman Foster resolveu o problema colocando uma pessoa escondida sob a sacada, munida de cubos de açúcar. Após vários ensaios, o cavalo foi ao local certo assim que Zorro o chamou.
3. Zorro Parte Para a Missão/Zorro Rides to the Mission
O elenco e a equipe passaram quase duas semanas nas locações em Oceanside gravando três episódios. Foster contou a Lomond por que foram criados três episódios na missão, em vez de um. O motivo era simples, a produção não aceitaria os gastos de deslocamento para realizar apenas um episódio. Ele então, produziram três.
No segundo episódio na missão, Monastario descobre que Torres está escondido no local, e vai até lá com seus lanceiros para capturar o “traidor”. Mas padre Felipe (Romney Brent) o impede lembrando que Torres não pode ser importunado enquanto estiver sob a proteção da igreja. O capitão reconhece suas limitações, mas insiste em entrar. O roteiro instruía Monastario a falar baixo no interior da igreja. Mas durante o ensaio, Lomond se distraiu e usou o tom de voz normal, que reverberou com força pela igreja. Imediatamente, ele percebeu o erro e continuou falando com Padre Felipe em tom mais baixo. O diretor gostou da mudança de tom e pediu que ele repetisse o engano na cena filmada.
Como não pode retirar Torres do santuário, o comandante maltrata os índios que vivem no local para assim atrair sua presa. Os extras que interpretavam estes índios eram trabalhadores da igreja ou vinham de uma cidade próxima, chamada Carlsbad. Eram inexperientes no show business, mas logo aprenderam a negociar. Todos os dias, após as filmagens, muitos pediam um pagamento extra ao diretor assistente, Vincent McEveety, alegando trabalho perigoso ou habilidades especiais.
Antes que Torres se entregue, Zorro surge e enfrenta o comandante em um duelo de chicotes (23:30). A luta foi coreografada por Yakima Canutt, um renomado dublê de Hollywood, que trabalhou com grandes lendas do cinema, como John Wayne. Também coreografou, por exemplo, a famosa corrida de bigas no clássico Ben Hur . A luta dos chicotes levou mais de um dia para filmar, sendo fisicamente difícil para ambos os atores. Williams não conseguia controlar seu cavalo e o chicote ao mesmo tempo. Na primeira tentativa de atingir Monastario, ele acabou com o chicote enrolado em seu próprio pescoço. Na segunda, ele enrolou o chicote no pescoço do cavalo. Na terceira, ele conseguiu prender seu chicote no de Monastario, como mandava o roteiro, mas quando ia arrancá-lo da mão do comandante, Lomond deu um puxão e arrancou o chicote da mão de Williams.
Foi um acidente, mas Foster estava muito indignado ao falar com Lomond: “Britt, você precisa perder a luta! Pelo amor de deus, deixe Guy prender o chicote dele no seu, para que essa maldita luta termine!!” Foram necessárias seis tomadas até Zorro vencer o comandante e sair correndo para o alto da colina, onde empinou seu cavalo. A cena no cavalo empinado foi feita por seu dublê, Buddy van Horn. A audiência deste episódio foi tão boa quanto a do piloto.
4. O Fantasma da Missão/The Ghost of the Mission
Enquanto Monastario tenta extrair informações de um índio no quartel, Diego está em seu quarto na hacienda tentando ensinar Bernardo a tocar violão. Seu plano é que o criado seja capaz de se passar pelo mestre quando ele estiver fora agindo como Zorro. Bernardo protesta, por sentir-se completamente incapaz de aprender. O ator Gene Sheldon, no entanto, era um excelente músico e tocava violão perfeitamente. Para ele, era difícil fingir que não sabia tocar. Enquanto os técnicos preparavam a iluminação da cena, ele tocou várias músicas. Williams, que na realidade não tocava nada, brincou: “Viu, Gene, como você aprendeu minhas instruções rapidamente!”
Mais tarde, Zorro vai à igreja, onde Monastario e seus lanceiros estão impedindo a entrada de água e comida. Ao ser flagrado, Zorro foge para a torre da igreja através das escadas, um espaço extremamente apertado e escuro, que dificultou as filmagens. O operador de câmera, Travis Hill, fez a filmagem usando uma pequena câmera e com a ajuda de um eletricista, que o seguia com duas lâmpadas iluminadas por uma bateria presa a sua cintura. Foram necessárias quatro horas para realizar a filmagem.
No alto da torre, a única rota de fuga de Zorro era através de uma corda até em baixo. Foster percebeu que a cena não funcionaria como descrita no roteiro. Assim, Buddy van Horn, que faria a descida no lugar de Guy Williams, sugeriu que Zorro pulasse da torre segurando a corda e quicando os pés na parede até ela ser arrebentada pelo comandante. Foi então que os padres perceberam o plano e imediatamente solicitaram uma reunião com o diretor e a equipe técnica. Eles temiam que as botas de van Horn deixassem marcas na parede da igreja. Eventualmente, eles concordaram com a manobra, mas avisaram que se houvesse uma única marca, todas as paredes da missão teriam que ser repintadas. Por isso, Foster mandou colocar fita adesiva nas botas do dublê.
Mas não acaba aí. A equipe de efeitos especiais forneceu quatro cordas especialmente preparadas para a proeza. Na primeira tentativa, não aconteceu nada. Na segunda tentativa, a corda se rompeu tarde demais. Na terceira, o técnico pensou ter ouvido o diretor mandar soltar a corda e a soltou cedo demais. A torre tinha mais de 12 metros de altura, e van Horn sofreu uma grande queda. Logicamente, a equipe técnica havia preparado o solo para uma queda. Na quarta tentativa, tudo funcionou perfeitamente. O diretor gritou “corta” e verificou com cada operador das três câmeras para saber se tudo estava bem. Dois responderam OK. O terceiro avisou, “Quando você estiver pronto, Norman!” Foster ficou lívido! Mas o operador rapidamente acrescentou, “Brincadeirinha, Norman. Peguei tudo perfeitamente.”
Ao final, os lanceiros correm apavorados, com medo do fantasma da missão (um truque de Zorro para afastar o inimigo). Apenas um homem permanece no local: Monastario. Humilhado e furioso! “Durante os treze episódios dos quais participei como Monastario, eu tentei jamais levar muito a sério meu papel nem a série. Walt certa vez tinha dito que a série deveria ser divertida. Portanto, deveríamos sempre manter este clima.” Declarou Lomond em seu livro.
5.O Romance de Zorro/Zorro’s Romance
Don Ignacio conseguiu fugir da igreja e agora está escondido em seu próprio rancho, onde Monastario vai procurá-lo. Durante o ensaio de uma cena no local, alguns membros do elenco do Clube do Mickey Mouse fizeram uma visita. Lomond e Calvin decidiram recebê-los com uma brincadeira. Eles colocaram chapéus do Clube do Mickey Mouse e fizeram o ensaio normalmente, como se nada estivesse diferente. Sem que eles soubessem, o diretor Lewis Foster filmou tudo. Na manhã seguinte, quando Disney assistia ao copião, ele se divertiu tanto que prometeu mostrar o filme aos executivos da 7UP Bottling Company, um dos patrocinadores. Lomond acreditava que esse filme estava guardado em algum lugar dos estúdios Disney.
Para impedir que Torres seja encontrado, Diego distrai Garcia durante sua busca na adega. De que forma? Oferecendo vinho ao sargento! Sem que Calvin percebesse, Williams e Lomond batizaram o barriu com vinho de verdade. Durante seu diálogo, Calvin bebeu vários canecos de vinho do barriu batizado e ao terminar a cena, começou a sentir-se um pouco embriagado. Só então ele percebeu o que seus amigos haviam aprontado. Indignado, ele correu atrás dos dois, cambaleando e gritando que daria o troco. O que de fato fez pouco tempo depois.
Como Monastario parece disposto a permanecer na casa até encontrar Torres, Diego e Bernardo o põem inconsciente com um golpe de vaso na cabeça. Foi necessário quebrar três vasos na cabeça de Lomond até o diretor ficar satisfeito com a cena. Embora os vasos fossem de um plástico especialmente produzido pelo departamento de efeitos especiais, o ator afirmou ter ficado com alguns galos por vários dias.
A seguir, Diego precisa carregar o comandante para cima e colocá-lo em uma cama. A manobra não foi fácil para nenhum dos dois. Lomond tinha mais de 1m80 e a escada não era muito larga. No caminho para cima, Lomond bateu com a cabeça algumas vezes. Ao terminarem a cena, Williams brincou dizendo, “Viu, comandante, seus pecados estão se voltando contra o senhor e dando ao comandante o que ele merece!” Ao que Lomond rebateu. “Sim, mas eu preciso pagar por todos os meus pecados no mesmo dia?!” Ainda nesta cena, podemos ver claramente que Lomond dá uma ajudinha a Williams quando Diego precisa levantar Monastario do chão. O ator não comentou sobre isso no livro, mas ele move a perna para dar um impulso (19:25). Enquanto Monastario está inconsciente, Torres veste seu uniforme e foge disfarçado de comandante, rumo a Monterrey para apelar ao governador.
Fuga da família Torres
6. Zorro Salva um Amigo/Zorro Saves a Friend
Seguindo um novo plano, o comandante prende a Señorita Elena Torres (Eugenia Paul) e sua mãe, Dona Luisa Torres (Madeleine Holmes). Elas serão iscas para capturar a única pessoa capaz de tentar salvá-las: Zorro. Ao perceber que elas estão sem comida nem água, Diego vai indignado ao escritório de Monastario protestar e o encontra saboreado uma lauta refeição. A cena foi a oportunidade que Henry Calvin esperava para se vingar da brincadeira do vinho.
Quando havia comida de verdade em uma cena, ela não era utilizada até o momento de filmar. Para ensaiar, o ator apenas fingia estar comendo ou recebia uma pequenina porção para ajudá-lo a ajustar o tempo das falas. Calvin subornou o contrarregra para espalhar uma porção generosa de queijo limburguer na comida que seria usada na filmagem. Ele sabia que Lomond detestava este tipo de queijo.
Quando a cena começou a ser rodada, Lomond estava tão concentrado em seu diálogo, que não percebeu de imediato o gosto estranho. Porém, mesmo ao perceber o que estava comendo, ele terminou a cena sem perder uma fala e só largou o garfo quando o diretor gritou “Corta!” Vingado, Calvin chorou de rir! Lomond afirma ter bebido quase quatro litros de água depois da cena.
Mais tarde, Zorro precisa salvar seu vaqueiro Benito (Pat Hogan), que cometera a insensatez de disfarçar-se de Zorro para salvar as prisioneiras. Ele será enforcado. O confronto termina no andaime de uma igreja em construção. Apesar da insistência do diretor Lewis Foster em rodar o duelo naquele local, os dublês se recusaram, alegando ser muito perigoso.
Lomond afirma que enquanto discutiam, ele e Williams se olharam e, sem dizerem uma palavra, subiram no andaime e disseram ao cameraman, Gordon Avil, para começar a rodar (21:24). Na opinião de Lomond, esta foi uma das cenas de esgrima mais difíceis de realizar, por causa da base. Como as tábuas não eram estáveis, os dois escorregaram várias vezes. Lomond se lembrava de ter quase caído ao prender o pé entre as tábuas.
Após repetirem o duelo uma segunda vez, o operador de câmera, Travis Hill, subiu no andaime com uma câmera em seu ombro e eles repetiram a cena para Hill fazer close-ups dos atores. A filmagem ficou pronta em menos de 40 minutos. A cena final mostra Zorro pulando em Tornado e fugindo, manobra que foi realizada por seu dublê, Buddy van Horn.
Embora o diretor tenha ficado contente com o resultado, ele os avisou seriamente a nunca mais repetirem tal manobra. Quando Williams e Lomond voltaram para o chão firme, ambos se abraçaram, felizes por terem sobrevivido àquela loucura. Com a voz ainda ofegante, Williams disse a Lomond, “Nunca mais me deixe repetir uma coisa dessas!” Lomond sorriu e replicou, “Que gozado, eu ia dizer a mesma coisa a você!”
7. Monastario Prepara um Armadilha/Monastario Sets a Trap
Ao saber que Don Alejandro e outros rancheiros pretendem invadir o quartel para libertar as prisioneiras, Monastario prepara uma armadilha. O plano, no entanto, não contava com a presença de Zorro. E o diretor Lewis Foster também não contava com a reação de Lomond à seguinte descrição fornecida no roteiro para o duelo: Zorro é obviamente superior. Ele imediatamente deixa Monastario a sua mercê. Lomond não gostou nem um pouco deste comentário. “Eu era um excelente espadachim e o Capitão Monastario também. Então pedi ao diretor que dissesse aos roteiristas para me darem um pouquinho mais de crédito ao descreverem lutas de espada contra Zorro. Por exemplo, sendo um exímio espadachim Monastario faz um excelente trabalho, mas é superado, finalmente, por um espadachim melhor, Zorro.”
Rindo, Foster respondeu, “Presta atenção, Britt, não importa de que maneira o roteiro descreva a ação, Guy vai ganhar qualquer duelo com você. Ele é o Zorro. Este é o nome da série. E o telespectador vê a ação em suas TVs, eles não leem os roteiros.” Lomond concordou, percebendo que estava sendo desnecessariamente competitivo.
“Zorro é obviamente superior”, mas isso não impede o comandante de ferir Don Alejandro gravemente.
8. Zorro Domina o Terror/Zorro’s Ride Into Terror
Este segmento originalmente recebeu o título de Diego’s Ride Into Terror. Disney, no entanto, insistiu que o nome de Diego fosse substituído por Zorro, pois ele acreditava que o público ligava a TV para assistir ao Zorro e não a Diego. Zorro era um dispositivo vital de marketing.
A ação começa com as buscas por Don Alejandro em sua própria hacienda. Garcia adentra o quarto de Diego quando ele acabava de cruzar uma porta secreta. Surpreso e temendo que o sargento veja a passagem, que ficara entreaberta, Diego sugere que ele se deite em sua cama para descansar. Esta simples ação deu muito trabalho aos cenógrafos, Emile Kurl e Hal Gausman, pois quando Calvin tentou se deitar, a cama arrebentou com o peso. Foram colocados apoios sob a cama, mas ela quebrou novamente. Finalmente, os cenógrafos tiveram que fazer uma cama que aguentasse os mais de 150 quilos do ator.
Monastario fica furioso com os dois e ordena que Garcia vigie Diego enquanto ele procura Don Alejandro na propriedade. Este, ao acordar na caverna de Zorro, sai cambaleando e é encontrado pelo comandante. Com a ajuda de muito vinho, Diego escapa e confronta Monastario em um duelo de lanças, o qual o comandante perde caindo do cavalo e ficando preso ao chão por uma lança. Para esta luta, o diretor queria que Lomond usasse um dublê, mas o ator insistiu em fazer a queda. Quando Disney descobriu, ele repreendeu o diretor duramente.
Pobre comandante! Ao retornar à hacienda sem sua presa, encontra Garcia e seus lanceiros bebendo e cantando “Here’s to the Soldier of the King”, cuja letra é um deboche à vida militar. “Então, fazendo paródias para os seus oficiais superiores, não é!? Eu sou seu inimigo, não sou!?” Reclama Monastario, furioso.
9. Um Julgamento Justo/A Fair Trial
Um dos aspectos interessantes deste episódio é a ausência de ação física. Não há duelos de espadas, chicotes, ou lanças, nem perseguições de cavalos. Com o roteiro, Lomond recebeu um bilhete de Disney, que dizia: “Temos um roteiro diferente para você, Britt. Não tem ação, mas tem suspense e alguns personagens interessantes. Você vai achar divertido, com aquele jeito especial que você tem com as palavras. Boa sorte nas filmagens.”
A estória começa com um comandante muito satisfeito, pois de la Vega e Torres estão finalmente no cárcere e devem ser julgados. Para garantir o veredito desejado, ele envia Garcia em uma missão que irá retardar a chegada do Juiz Vasca (Sebastian Cabot), que foi encarregado de conduzir o caso. Quando ele chegar, os prisioneiros já terão sido julgados, condenados e executados. Diante da preocupação de seu aliado, Licenciado Piña (Than Wyenn), que o sargento perceba o esquema, Monastario declara: “O sargento Garcia não juntaria dois pedaços de pão para fazer um sanduíche.”
Apesar da frase ser muito boa, Lomond percebeu um problema do ponto de vista histórico. Por isso, ele chamou a atenção para o fato de a palavra sanduíche ainda não ser usada na Califórnia daquela época. Norman Foster simplesmente respondeu, “Você se preocupa demais, Britt.”
10. Missão Secreta Para Garcia/Garcia’s Secret Mission
O quartel amanhece com uma surpresa deixada por Zorro durante a noite: uma bandeira com um Z, presa no topo do mastro. Garcia imediatamente chama dois lanceiros para ajudá-lo a retirar o símbolo ofensivo. Quando o diretor Norman Foster estava planejando a cena, ele perguntou a Calvin se ele gostaria de um dublê, pois os dois lanceiros deveriam subir em suas costas, mas ele recusou de imediato, pedindo apenas que seu rosto ficasse bem à vista para os telespectadores notarem quem de fato estava sob os dois lanceiros.
Antes de começarem a filmar, no entanto, Calvin viu que a bandeira estava de cabeça para baixo e tiveram que recolocá-la. Norman ficou muito grato, pois se tivessem rodado com a bandeira virada, teriam perdido um dia inteiro de filmagem. Mais tarde, Lomond perguntou a Calvin se ele não tinha ficado muito cansado. “Eu fui oficial de artilharia na Segunda Guerra Mundial”, respondeu Calvin. “Mas frequentemente eu precisava substituir alguém no setor de armas. Ficar levantando aqueles projéteis pesados por horas desenvolveu músculos nas minhas costas, que eu nem sabia que existiam. Então, dois lanceiros em meus ombros são uma moleza em comparação.”
A brincadeira de Zorro diverte o povoado, mas custa caro a dois peões, que acabam presos, e ao sargento, que é destituído de seu posto. Durante a cerimônia no pátio do quartel, Monastario corta os botões do uniforme de Garcia com uma faca, imputando um insulto a cada botão (8:00). Inicialmente, o roteiro tinha sete insultos, enquanto o uniforme tinha oito botões. Foram necessárias 18 tomadas até Lomond conseguir proferir seu discurso de “corta botão” adequadamente. O ator se atrapalhou diversas vezes, atribuindo a dificuldade ao calor intenso naquele dia e também ao medo de cortar tanto a si como a Calvin. No original, os insultos eram: stupidity, maliciousness, incompetence, indolence, unreliability, irresponsibility, insubordination e slovenliness. Na dublagem atual: Idiotice, malícia, incompetência, negligência, abuso de confiança, irresponsabilidade, insubordinação, insolência e deselegância. Sim, oito no original e nove na versão dublada.
A faca também não cooperou muito, pois falhou em vários botões. E sempre que ela falhava, Lomond precisava repetir seu diálogo. Isto também significava que os botões tinham que ser pregados novamente no uniforme de Calvin. Chuck Keene, o responsável pelo guarda-roupa, foi previdente e providenciara dois uniformes extras e dois alfaiates. Norman Foster não ficou nada contente, mas manteve a calma o tempo todo.
A corte marcial de Garcia é apenas parte do plano de Monastario para ele ganhar a confiança de Zorro. Após o primeiro contato, o sargento acorda o comandante no meio da noite fria para fazer um relatório. Na verdade, fazia muito calor. Além das luzes, havia as cobertas e a ceroula. Lomond suava tanto, que os maquiadores precisavam secar seu rosto constantemente. Até a ceroula foi trocada algumas vezes por causa do suor.
Pela manhã, Monastario, Garcia e seus lanceiros se dirigem ao ponto de encontro conforme as instruções de Zorro. Este ponto ficava no alto da montanha San Vicente Rocks. Para fazer Calvin chegar no local, o estúdio providenciou uma escada especial para o ator de 150 kg, que recusara um dublê. O diretor então certificou-se novamente que o telespectador pudesse ver quem de fato estava escalando a montanha. Na subida, ele quebrou vários degraus da escada, e acabou esfolando um joelho e um cotovelo.
Enquanto isso, Zorro deixara uma nota supostamente do comandante ordenando seus lanceiros a carregarem piche no coche oficial. Tarefa a qual o comandante havia atribuído aos peões presos. Depois, Zorro vai ao encontro de Monastario, dando começo a uma perseguição que demorou um dia inteiro para filmar e culminou com a armadilha no poço de piche.
Disney queria que o piche tivesse um aspecto autêntico de uma substância suja e pegajosa. Por isso, a produção usou piche de verdade misturado com óleo. Foram utilizadas três câmeras, pois não haveria refilmagem. Ao final da cena, Lomond e Calvin pegaram o diretor e o jogaram no poço de piche. Como no dia seguinte, eles iam filmar a cena de Monastario retornando ao quartel, os atores foram cobertos com piche novamente.
Quando a roupa voltou da lavanderia, a produção teve uma surpresa financeiramente desagradável: os uniformes haviam encolhido. O pessoal do guarda-roupa precisou trabalhar dia e noite para confeccionar novos trajes. Felizmente, o orçamento tinha um plano de contingência para emergências e outras catástrofes.
11. Problema em Dobro Para Zorro/Double Trouble for Zorro
Monastario arquiteta um novo plano para eliminar Zorro, utilizando um exímio espadachim que ele acabou de prender. Ele então convida os rancheiros para um jantar no qual irá supostamente esclarecer mal-entendidos, e começa com um eloquente discurso, que no roteiro tinha três páginas. Para facilitar a tarefa de memorização, Lomond seguia um método: caminhar enquanto decorava o texto. “Tenho certeza que os cientistas podem dar uma explicação técnica do porquê este é o melhor método, mas basta dizer que funcionava comigo.” Revelou o ator em seu livro.
E ele tinha razão. De acordo com o professor Eric Jensen, perito em aprendizagem, o “cérebro responde constantemente a estímulos ambientais. Em comparação com o parâmetro ficar sentado em uma cadeira, os atos de caminhar, mover-se e aprender aumentam o fluxo sanguíneo e os elementos químicos necessários à atenção e à memória a longo-prazo (norepinefrina), bem como ao esforço e ao humor (dopamina).” Assim mesmo, ele demorou um dia inteiro para aprender seu texto.
A cena seria filmada na segunda-feira bem cedo. Na sexta-feira à noite, Norman Foster chamou Lomond para uma conversa em particular e deixou claro que ele não deveria improvisar. No entanto, como de costume, o ator não resistiu à tentação de fazer algumas alterações que considerou pertinentes. Por exemplo, de acordo com o roteiro, Monastario começava seu discurso dizendo: “Meu coração transborda com o prazer da presença de tantos convidados tão distintos.” Lomond achou a frase enfeitada demais e pensou que o mais provável seria Monastario deixar bem claro que ninguém ousasse faltar à recepção. Em vez disso, ele declara: “É uma satisfação enorme que nenhuma pessoa tenha recusado meu humilde convite.”
Nesse ponto, os roteiristas acharam que o capitão deveria dar uma justificativa razoável para explicar a ausência de um dos ilustres convidados: Don Alejandro. Então Monastario prossegue: “Todas as principais famílias estão representadas aqui. Don Alejandro de la Vega infelizmente não pôde vir por estar doente.” A frase seguinte, “mas mandou o seu filho em seu lugar” foi acrescentada por Lomond.
Ao terminar, ele completa, “Cavalheiros, eu proponho um brinde a sua majestade, o Rei.” Obviamente, ele sabe que os convidados irão acompanhá-lo no brinde, o que dará a impressão de completa anuência a suas palavras e às intenções por trás delas. Lomond tentou colocar no discurso todas as nuances de seu personagem, além daquelas mencionadas pelo diretor, como confiança, egocentrismo, eloquência, atitude superior e sinceridade fingida. Foram necessárias 12 tomadas até o diretor ficar satisfeito com seu desempenho. O eloquente discurso era regado a vinho, que na verdade era suco de uva. Estranhamente, após várias tomadas, Lomond começou a se sentir tonto. Ao final, descobriu que Calvin havia feito mais uma de suas brincadeiras, batizando seu suco de uva com vinho.
Além de vinho e boa comida, o jantar também conta com a apresentação de uma dançarina. Enquanto apreciam o espetáculo, todos, principalmente Diego, são surpreendidos pela chegada de Zorro, que começa a roubar os convidados. O homem na verdade é o espadachim preso, Carlos Martinez (Tony Russo). Assim como Lomond, Russo tinha o gosto pela improvisação. Ao roubar os presentes, ele joga um saco de couro ao taverneiro (Nester Pavon), para ele recolher o roubo. Acidentalmente, Pavon deixou cair o saco. Russo então acrescentou imediatamente: “Pegue isso logo, seu idiota.” O diretor gostou do improviso e manteve a fala. Quando o taverneiro se aproxima dos músicos para pegar seus pertences, Russo fez outra improvisação dizendo: “Esqueça os músicos, eles não têm dinheiro.”
Antes de fugir, Martinez marca a roupa de uma das vítimas com um Z. Para o truque, o Z foi cortado antecipadamente na roupa, que depois foi costurada com um fio de aço bem fino e flexível. Quando o sabre de Russo atingiu a jaqueta, dois técnicos puxaram o fio. Foram necessárias mais de duas horas e quatro jaquetas para realizar o truque.
Seguindo o plano de Monastario, Martinez foge por um dos quartos do segundo andar, onde deveria encontrar uma escada. Mas Bernardo havia colocado a escada em outra sacada para o verdadeiro Zorro subir. Aqui, Russo teve uma ideia. Originalmente, ele apenas olhava para baixo e percebia o sumiço da escada. Mas ele achou que seria mais divertido se o falso Zorro tentasse descer sem olhar para baixo, procurando a escada com o pé (21:21). O diretor adorou a ideia. A mudança resultou em um atraso superior a uma hora, pois a balaustrada não era resistente o bastante para suportar o peso de alguém balançando, e precisou ser reforçada.
Eventualmente, o comandante enfrenta o verdadeiro Zorro no andar de cima, de onde ele é empurrado e cai (21:45). Walt não permitiu que Lomond fizesse a queda, mas deixou o ator cair sobre uma mesa e uma cadeira na continuação do duelo no andar térreo. A câmera foi posicionada de forma que o telespectador pudesse ver que era de fato Lomond caindo por cima dos móveis.
12. O Espadachim Vivo Mais Sortudo/Zorro, Luckiest Swordsman Alive
Neste episódio, muitas cenas foram reescritas várias vezes durante toda a semana de filmagem. As mudanças frequentes eram muito frustrantes, pois os textos já memorizados precisavam ser decorados novamente. Ademais, Williams, Lomond e Calvin frequentemente se confundiam repetindo diálogos que já tinham sido omitidos ou reescritos. Mas tanto os atores, quanto os diretores e a equipe técnica tiveram que ter paciência.
Após o fiasco de seu plano de desacreditar Zorro usando Martinez, Monastario arquiteta outro plano, que começa com o sargento conduzindo um caixão no qual supostamente está o corpo de Martinez. Na cena seguinte, Diego está praticando esgrima em seu quarto. Williams gostava de incluir cenas de treino sempre que possível para mostrar ao espectador que Diego procurava se manter em forma. Quando ele considerava algum texto inadequado ao personagem, ele solicitava uma revisão. Disney geralmente aceitava suas sugestões e autorizava as mudanças.
O novo plano de Monastario novamente envolve Martinez se passando por Zorro para roubar as joias da Missão de San Gabriel. Na hacienda de la Vega, Diego então especula com Bernardo quem seria o falso Zorro e o que fazer para desmascará-lo (1:30). No roteiro, seu longo monólogo consistia de três páginas. Williams usou o método de Lomond para ajudá-lo a memorizar o texto. Lembram-se? Caminhar enquanto decora.
Como Zorro está desacreditado, Diego entra em ação a fim de fazer Monastario conduzí-lo ao verdadeiro ladrão, que, ele descobre, está escondido nas montanhas. No local, Monastario e Martinez se insultam antes de acertarem suas diferenças em um inevitável duelo. A luta foi difícil para os atores porque o terreno era irregular em alguns pontos, em outros era arenoso e cheio de cascalho. Em vão o mestre de esgrima, Fred Cavens, tentou convencer o diretor a realizar o confronto em outra locação.
Devido ao terreno, os atores constantemente escorregavam e tropeçavam durante o duelo, e como resultado, foram necessárias dezenas de tomadas até o mestre de esgrima e o diretor ficarem satisfeitos com a ação. O duelo acaba com Monastario ferido. Diego, que observava tudo escondido atrás de uma rocha, não tem escolha senão intervir para deter o ladrão e recuperar as joias.
O duelo entre Diego e Martinez é muito divertido, mas foi difícil para Cavens coreografar, pois exigia que Diego desafiasse seu oponente enquanto agia como se fosse incapaz de empunhar uma espada. Através do que parecem ser erros e acidentes, ele consegue desarmar o esgrimista supostamente muito superior a ele. Daí, o título!
13. O Emissário do Rei/The Fall of Monastario
Originalmente, se chamava The King’s Emissary. Mas Disney mudou para The Fall of Monastario, pois acreditava que se o título anunciasse a partida do comandante, ele atrairia uma audiência maior. Afinal, o volume de cartas recebidas por Lomond já era quase igual ao de Williams, e Disney pretendia lucrar com isso. De fato, o episódio teve o segundo melhor nível de audiência da série. Curiosamente, na versão dublada, o episódio recebeu o título de O Emissário do Rei. O pensamento aqui deve ter sido o inverso, isto é, não tirar do telespectador a surpresa da saída. Pessoalmente, essa surpresa foi na verdade um choque. Quando criança, jamais entendi (nem aceitei) a partida de Monastario. Em uma entrevista à revista TV Séries, em sua versão impressa (Ano II – nº3 – julho/1998), Britt Lomond nos disse que também não entendeu quando recebeu a notícia. Até Disney explicar que a série só poderia ter um astro, e este era Guy Williams.
Ao contrário dos roteiros anteriores, este consistia de 47 páginas, o que era muito para uma série de meia hora. Na média, os roteiros de Zorro tinham entre 23 e 36 páginas. O texto mais longo e as inúmeras modificações tornaram a tarefa de decorar os textos mais difícil. Como resultado, as filmagens se estenderam por mais dois dias, dessa forma aumentando em pelo menos 15% o orçamento estimado pela produção.
No primeiro dia de filmagem, Williams apareceu no estúdio com um acessório incomum. Para o ensaio, ele havia colocado uma toalha enrolada dentro da calça. Ao ver aquela protuberância, Lomond saiu por um instante e quando retornou, ele tinha colocado uma toalha em sua calça também. Ambos continuaram o ensaio com seus efeitos especiais firmes no lugar.
De repente, eles começaram a escutar risadas abafadas. Eram diversas freiras de hábito que estavam assistindo ao ensaio. Elas não pareciam ofendidas nem envergonhadas. Porém, Williams e Lomond ficaram vermelhos de vergonha. Quando Disney ficou sabendo do ocorrido, deu-lhes uma bronca. Aliás, Lomond relatou em seu livro que muitas pessoas costumavam perguntar como os atores conseguiam esconder a “protuberância masculina normal” naquelas calças justinhas. Todos usavam um suporte de bailarino.
Ainda com relação ao vestuário, a faixa vermelha no uniforme de Monastario foi ideia de Chuck Keene, responsável pelo guarda-roupa, para dar um toque de elegância ao comandante. A faixa tinha mais de dois metros de comprimento e eram necessários dois assistentes para enrolá-la na cintura do ator. Um deles segurava uma das pontas enquanto Lomond segurava a outra com ambas as mãos na cintura e girava. O outro assistente impedia a faixa de enrugar.
O Vice-rei e sua filha Constancia (Lisa Gaye)
No último episódio de Monastario, o comandante chega à conclusão que Diego é Zorro e manda prendê-lo. Ao mesmo tempo, o Vice-rei (John Dehner) está chegando ao povoado com a tarefa de investigar Monastario. Este ordena a todos que pareçam felizes e inclusive esvazia todas as celas e as enfeita com flores. De acordo com o roteiro, o Vice-rei seria recepcionado por uma multidão gritando boas-vindas. Por questões orçamentárias, isso não foi possível, pois extras gritando palavras específicas deveriam receber um salário mínimo diário, conforme as regras do Screen Actors Guild. Por isso, os extras fizeram apenas barulho e não proferiram nenhuma palavra. O áudio com palavras foi colocado na pós-produção, utilizando material já existente no estúdio.
Quando o Vice-rei chega, Garcia abre a porta do coche. Na primeira tomada, Calvin se atrapalhou e os degraus da carruagem escaparam de suas mãos. Na segunda, ele perdeu o equilíbrio e caiu de joelhos ao puxar os degraus. O diretor brincou dizendo: “Muito bom, Henry. Mas não precisa se ajoelhar. Lembre-se, ele é apenas um vice-rei, não um rei.” Irritado, Calvin puxou a porta com tanta força na terceira tomada, que ela acabou sendo arrancada da carruagem. Os contrarregras levaram cerca de 20 minutos para consertar a porta para a quarta tomada.
O momento mais esperado por Monastario finalmente chega, quando ele apresenta Zorro ao Vice-rei. No instante em que o Licenciado Piña confirma que Diego é Zorro, Norman Foster queria que todos na sala reagissem a sua declaração. Mas como estas pessoas eram extras, não atores, a reação foi fraca. Foster precisou falar com cada um individualmente e explicar exatamente o tipo de reação esperada. Foster levou mais de meia hora nessa empreitada.
Atendendo a um pedido de Diego, o Vice-rei convence Monastario a deixar a taverna para que ele e Diego possam conversar. Para a cena em que o Vice-rei conversa com o comandante, Dehner perguntou a Lomond se durante o diálogo ele poderia pressionar sua mão contra seu ombro sempre que o comandante tentasse se virar (18:00). O gesto era para impedir Monastario de olhar na direção do balcão, onde supostamente estava Diego com o traje de Zorro. Lomond achou uma excelente ideia, o diretor adorou e assim a cena foi filmada. A propósito, o lanceiro disfarçado de Zorro era Buddy van Horn, o dublê de Guy Williams.
Furioso por ter sido engando e desonrado, Monastario desafia Diego atingindo seu rosto com uma luva. Quando os roteiristas criaram esta cena, eles não sabiam exatamente como deflagrar o duelo. Foi Norman Foster quem sugeriu o desafio da luva, pois qualquer oficial se sentiria no direito de apelar a um código de honra entre cavalheiros para acertar suas diferenças com um desafeto. Dessa forma, mesmo um inapto espadachim não poderia recusar o desafio sem que isso desonrasse sua família. Monastario sabia disto. “Você me enganou pela última vez. Se eu não puder apelar à razão do Vice-rei, então eu vou apelar à honra dos de la Vega.” Protesta Monastario jogando a luva. “Eu exijo uma satisfação.”
Monastario queria muito aniquilar Diego, Lomond, ao contrário, não desejava ferir o rosto de Williams, por isso aplicou pouca força no gesto. Afinal, o som poderia ser acrescentado na pós-produção. Williams protestou e acabou recebendo o que pediu. Para o duelo, o diretor pediu ao mestre de esgrima, Fred Cavens, para retirar os obstáculos, pois queria que a despedida de Lomond fosse memorável. Lomond relembra no livro as instruções de Norman Foster a Cavens. “Assegure-se que esta luta de espadas seja a melhor que você já criou. Quero que o público se lembre dela por um longo tempo!”
Don Diego tinha que disfarçar sua perícia e ao mesmo ser capaz de se defender. Cavens criou meticulosamente todos os movimentos no papel e depois fez os dois atores ensaiarem por um dia inteiro. Mesmo assim, os atores tiveram dificuldade em desempenhar o duelo porque Foster interrompeu a filmagem várias vezes para fazer modificações. Em sua opinião, Diego precisava parecer meio desajeitado. O diretor também queria a lareira acesa na taverna, o que exigiu a presença de um bombeiro e dois técnicos em efeitos especiais no local. Este toque acolhedor teve um custo adicional no orçamento.
Monastario vence o duelo e está prestes a liquidar Diego, quando todos são surpreendidos por Zorro (Bernardo). O Vice-rei então revela o motivo de sua visita a Los Angeles. “Vai acreditar nos meus inimigos?” Protesta o comandante. “Parece que todos aqui são seus inimigos.” Replica o Vice-rei, para em seguida, mandar prendê-lo.
Os Eventos
The Fall of Monastario não foi o fim do comandante. Para promover a série, Disney criou Zorro Days at Disneyland. De acordo com o escritor Todd James Pierce, foram cinco eventos no total, dois em 1958, um em 1959 e outro em 1960. Eles ocorriam sempre nos fins de semana e contavam com a participação do elenco principal (Williams, Lomond, Calvin e Sheldon) e de Buddy van Horn, dublê de Williams. Todos na pele de seus famosos e queridos personagens.
Uma das apresentações ocorria na réplica de um barco a vapor do Mississipi, chamado The Mark Twain. Lomond recorda que o Coordenador de Produção, Lou Debney, preparou um programa no qual, Lomond e Williams duelavam no deck por algum tempo, após o que Monastario era desarmado e mostrava sua indignação levantando o punho cerrado, enquanto Williams ria da desgraça do comandante. Depois, Williams saía do barco, montava em seu cavalo e galopava acenando para o público.
Para a primeira apresentação, Lomond e Williams praticaram por vários dias. Tudo correu como esperado até Williams pular no cavalo. Ele errou o salto e caiu no outro lado do cavalo bem em cima de uma poça de lama. “A expressão de Guy com a lama pingando de seu nariz foi demais para todo mundo. Nós rimos muito! Rapidamente eu ergui meu braço em sinal de vitória e me curvei graciosamente para o público que aplaudia.” Williams nunca mais andou a cavalo em nenhuma outra apresentação. Daquele dia em diante, ele ficava na limosine.
Houve também uma apresentação no Hollywood Ball enquanto Lomond ainda estava na série. “Tudo ia muito bem”, ele relembra. “De repente, ao fazer um movimento afundo, minha calça rasgou atrás. Nós dois ouvimos o barulho e eu imediatamente fui para a parte de trás do palco deixando Guy à frente, para podermos terminar o duelo sem que a plateia percebesse meu dilema. Ao final, nos curvamos para o público e saímos do palco. Sorrindo, Guy cochichou: “Excelente movimento, Comandante! Que tal se o chamarmos de ataque da calça?” A partir de então, quando Lomond se preparava para fazer um dramático movimento afundo, Williams brincava exclamando: “Ah, aí vem o ataque da calça de Monastario!”
O último desastre em eventos ocorreu quando os atores foram a Saint Louis, Missouri. Nessa época, Lomond não estava mais na série. Em sua pressa para chegar no aeroporto, ele esqueceu de levar a caixa contendo o bigode e o cavanhaque falsos que ele precisava, já que havia raspado os dois a pedido de seu agente. Após a viagem, Lomond e Lewis Foster se instalaram no hotel e começaram a busca por uma loja de cabelos nas páginas amarelas. Era sexta-feira à noite, então todas estavam fechadas. Mas eles encontraram o dono de uma loja em casa. Mister Carlouchi tinha duas perucas, uma loira e outra ruiva. Eles compraram a ruiva e depois foram a uma farmácia comprar rímel, cola de unha e uma tesoura. Após umas três horas, o bigode e o cavanhaque finalmente estavam no lugar. Ficou muito bom, exceto pela cor.
No começo da série a maquiadora, Pat McNalley, levava menos de uma hora para colocar os dois itens no ator todas as manhãs. Por isso, ele precisava chegar às 6 horas. Depois que Lomond deixou crescer o bigode e o cavanhaque, o tempo na cadeira de maquiagem diminuiu para 20 minutos. Também fazia parte da maquiagem pintar de grisalho as laterais de seu cabelo. Na opinião de Disney, Monastario tinha que parecer mais velho que Diego, embora na verdade, Lomond fosse mais jovem. Os bigodes dos dois atores foi uma ideia de Disney, que se inspirara em Basil Rathbone, famoso por interpretar vilões, inclusive no filme A Marca do Zorro/The Mark of Zorro, com Tyrone Power, de 1940.
“Quando me ofereceram o papel do Capitão Monastario, eu prometi a mim mesmo que eu faria o personagem de forma que o público jamais se esquecesse dele.” Declarou Lomond em seu livro. A série completará 61 anos em 2018. Acho que a promessa foi cumprida.
Britt Lomond (1925-2006)






































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