Estórias Contrafatuais – O que você faria se … ?


Por: Marta Machado
Quando assistimos a uma série, com frequência, somos confrontados por questões polêmicas capazes de estimular nossos sentidos, muitas vezes nos fazendo refletir. Em séries de ficção, estas questões podem nos colocar diante de situações irreais que talvez não nos façam perder o sono conjecturando sobre algo que jamais irá nos atormentar, sendo contudo passíveis de igual reflexão, pois nos permitem explorar, mesmo de forma lúdica, nosso senso de ética e moral.
A partir de agora, submeto a vocês três questões irreais, que colocarão à prova sua capacidade de definir seus destinos. Vejamos como os personagens desses dramas reagiram à seguinte dúvida: as pessoas são influenciadas de forma passiva por forças além de seu controle, ou elas influenciam seus destinos ativamente?
A primeira de nossas estórias é com certeza a mais conhecida. Nela, nosso personagem volta ao passado e se apaixona por uma jovem que, de acordo com o curso natural da história, deve perecer em um acidente de carro. Este é o destino encarado pelo Capitão Kirk (William Shatner) no prestigiado episódio de Jornada nas EstrelasThe City on the Edge of Forever/A Cidade à Beira da Eternidade, escrito por Harlan Ellison. E por que não mudar esse destino? Como vocês se recordam, não é tão simples, pois se Kirk salvar Edith Keeler (Joan Collins), ela se tornará uma importante figura no contexto mundial, que mudará dramaticamente a história. De acordo com o circuito de memória mnemônica construído por Spock, a versão da história com Edith Keeler mostra que no final de 1939, um crescente movimento pacifista retardou a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Enquanto as conversações de paz estavam em andamento, a Alemanha teve tempo para desenvolver a bomba atômica. Assim, Hitler venceu a guerra e dominou a Europa. Essa nova versão da história está diretamente ligada às ações da fundadora do movimento pacifista: Edith Keeler.

Eis, portanto, o dilema: salvar a mulher amada ou preservar a história? Na lógica visão do Sr. Spock, não há dúvida nem controvérsia, a decisão é simples: Edith Keeler deve morrer. “Salvá-la, fazer o que o seu coração manda, é matar milhões de outros que antes não morreram.” Spock reforçaria essa convicção em The Rath of Khan/A Ira de Khan(1982) ao afirmar: “a necessidade de muitos pesa mais que as necessidades de poucos, ou de um só”. De que forma você colocaria os fatos na balança do destino? Concorda com a ideia de Kirk que Edith estava certa em lutar pela paz, ou com Spock ao afirmar que aquele não era o momento certo para essa luta? Kirk poderia simplesmente ter ficado naquele tempo com Edith e testemunhar o decurso de uma nova história, mas optou por acatar o senso de moral expresso por seu oficial de ciências. Você pode rever esse dilema na Netflix.
Nossa segunda estória talvez seja menos conhecida. Ela nos é oferecida por Richard Matheson, autor do conto Button Button adaptado por ele para Twilight Zone/Além da Imaginação em 1986. Imagine que você leva uma vida simples em um apartamento decente. Você não é rico, mas tem dinheiro suficiente para sobreviver dignamente. Talvez você nunca consiga comprar um automóvel do ano, mas com um bom conserto, seu velho carro ainda poderá rodar por vários anos. Embora você não possa frequentar restaurantes caros, nunca lhe falta uma refeição quente na mesa. Essa é a realidade do casal Norma (Mare Winningham) e Arthur (Brad Davis).

Mas tudo isso muda quando um estranho lhes entrega uma caixa. Sem muitos detalhes, o homem revela que eles receberão 200 mil dólares para apertar o botão vermelho existente na caixa. Simples assim? Claro que não. Em contrapartida, quando o botão for apertado, uma pessoa morrerá. Quem é a pessoa? Não temos esta informação. Sabemos apenas que será um completo desconhecido e que ninguém jamais conhecerá o responsável pela morte. Assim como Norma, você ficaria tentado a cometer este ato e embolsar 200 mil dólares? Para Arthur, isso seria assassinato. Diante de sua resistência, ela defende a proposta ponderando que talvez seja alguém insignificante ou uma pessoa que já esteja morrendo. Além do mais, milhares de pessoas morrem todos os dias no mundo todo.
Durante horas, Norma observa a caixa enquanto teoriza sobre as possibilidades, bem como sobre a veracidade da proposta. E se tudo não passar de um teste? Nesse caso, não lhe parece justo fazê-los martirizar-se em busca de uma decisão. Arthur, que simplesmente deixara o assunto nas mãos da esposa, replica: “Então, por que você não aperta o botão e tira logo isso da cabeça?” Aqui temos de fato dois dilemas éticos: o primeiro é o ato em si de apertar ou não o botão, o segundo é considerar ou não a proposta. Antes de sucumbir à tentação, acrescente mais um elemento à equação: assim como você recebeu a caixa, outras pessoas também poderão recebê-la. Neste caso, você poderá ser o próximo desconhecido vitimado pelo botão. Reserve também alguns minutos para pensar em outra possibilidade: faria alguma diferença se você soubesse quem vai morrer? A questão é tão provocadora que foi utilizada no filme The Box/A Caixa, de 2009. Ideia semelhante atormentou Ian Mitchell (Milo Ventimiglia) na série Chosen, na qual ele recebe uma caixa contendo uma arma e instruções. Sua escolha: matar um homem ou ser morto junto com sua filha.
Nosso último dilema pode ser conferido no episódio At the Cradle Foot/Premonição, da série antológica Ghost Story/Histórias Fantásticas, escrito por Anthony Lawrence. Aqui, Paul Dover (James Franciscus) é um pai atormentado por um sonho recorrente, no qual vê sua filha em um carrossel ser assassinada pelo namorado, quando tiver 25 anos. Ele tem certeza que os sonhos são uma premonição, pois já tivera a mesma experiência com seu pai. Dessa vez, porém, ele não irá ignorar os sinais e fará de tudo para salvar sua filha, atualmente com 5 anos. A cada novo sonho ele obtém informações adicionais, as quais eventualmente o levam a uma cidade no interior do Wyoming, onde o namorado, Rafe Norris deve morar. Ao chegar, descobre que Rafe ainda não nasceu, mas seus futuros pais estão noivos. Ele decide então conquistar a mãe (Meg Foster) para impedir o casamento e consequentemente o nascimento do futuro namorado. Indignado, o pai (Jeremy Slate) o confronta e, na briga, o pai morre. Pronto, o problema parece estar resolvido. No entanto, Paul continua tendo os sonhos. Ele fica chocado ao descobrir que a mãe já estava grávida do futuro assassino de sua filha.

Paul não cometeu nenhum crime até o momento, mas se não tivesse ido ao Wyoming, o homem não teria morrido, deixando uma mulher sozinha e grávida. E agora, será que ele deve ou tem o direito de continuar interferindo no destino? Possivelmente, o simples fato de Paul ter ido ao Wyoming tenha posto em movimento a roda do destino que levaria à fatalidade no futuro. Afinal, assim como no carrossel, Paul parece andar em círculos que o levam sempre ao mesmo ponto: como salvar a filha?
No final, sua ex-esposa o aconselha a desistir de mudar o destino e cuidar da filha o melhor possível para ela não cair na armadilha. A ideia é validada por uma inscrição no prédio do tribunal de justiça da cidade, que diz: As chaves do nosso destino estão aos pés do berço. A frase é uma variante da seguinte citação do escritor alemão Jean Paul Friedrich Richter (1763-1825): The clew of our destiny, wander where we will, lies at the cradle foot/A chave do nosso destino, onde quer que vamos, está aos pés do berço. Isto é, se Paul se dedicar à tarefa de criar a filha adequadamente desde agora, quando ainda é criança, ela terá maturidade suficiente para evitar ameaças na fase adulta. Será um longo tempo de dedicação e espera. Você estaria disposto a aguardar 20 anos para saber se a teoria de Richter se confirma?
Contratempos (Desaparecido em Combate)
Como diz Gary Hobson (Kyle Chandler) na abertura de Early Edition/Edição de Amanhã (1996-2000), “não há uma resposta fácil”, especialmente se, como Gary, você recebe hoje o jornal de amanhã. O que fazer com as privilegiadas informações antecipadas? Tirar proveito em benefício próprio ou utilizá-las para ajudar alguém? Talvez não exista uma resposta certa, mas qualquer que seja sua escolha, você estará sujeito ao arrependimento, como é o caso de Sam Beckett (Scott Bakula) após ter se recusado a mudar o passado de seu amigo Al Calavicci (Dean Stockwell) em uma de suas viagens no tempo, no episódio M.I.A./Desaparecido em Combate da série Quantum Leap/Contratempos (1989-1993). Você conseguiria resistir ao comovente apelo de um amigo apenas para preservar uma regra? Antes de responder, leve em conta o fato de que não se trata de uma regra imponderada. Ela foi estabelecida para preservar a história de cada indivíduo com o qual Sam teria contato.
Estórias contrafatuais, como essas e muitas outras, exercem um forte fascínio sobre nós. De acordo com o professor de psicologia Neal Roese, elas nos permitem entender melhor o mundo a nossa volta. Quando pensamos sobre o que fazer a seguir, criamos múltiplos caminhos possíveis. Após selecionar um deles, pensamos sobre o que teria acontecido se tivéssemos feito uma escolha diferente, e isso nos ajuda a ter uma visão mais abrangente de uma situação proposta. Ele também afirma que tais estórias têm um efeito emocional, pois podemos nos sentir melhor ao percebermos como o resultado poderia ter sido pior se nossa escolha fosse outra, ou temos a oportunidade de aprender com uma escolha errada.
As estórias contrafatuais nos fascinam pela forma provocativa de nos apresentar uma possível lição. Sobre este fascínio, o historiador Gavriel Rosenfeld afirma que existe uma tendência psicológica básica no ser humano para elaborar questões do tipo “o que você faria se …?” Em sua opinião, mesmo quando estamos contentes com nosso momento atual, imaginamos cenários negativos simplesmente para reafirmar a certeza de nossas decisões. Ou seja, felizmente fiz esta escolha, pois tudo ficou muito bem. Com este tipo de narrativa, podemos não apenas desfrutar de um momento prazeiroso de entretenimento, como também ter a oportunidade de refletir sobre nós e sobre o mundo a nossa volta. Atualmente, há uma cresecente onda de contrafatuais, como as séries The Man in the High Castle (2015) e Frequency (2016), e a minissérie 11/22/63 (2016)Elas não apresentam seus personagens necessariamente diante de um dilema, mas abordam esse fascinante universo das realidades alternativas que nos colacam na posição de questionar: e o que você faria se …?

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