A Intolerância nos Tempos do Detetive Murdoch


Por: Marta Machado

Contém spoilers de episódios já exibidos no Brasil.
Não há dúvida de que entre as questões mais polêmicas da atualidade estão homossexualidade, aborto e racismo. Se estes temas afligem a sociedade nos dias de hoje, imagine como eram abordados na virada do século 19. A série Mistérios do Detetive Mudoch/Murdoch Mysteries nos proporciona uma visão daquela época no Canadá.
Começamos nossa viagem em 1895, em Toronto, capital de Ontário, uma das quatro províncias que formam o Canadá da era vitoriana. Nesta época, valores como dever, honra, moral e retidão dominam o cenário e determinam, por exemplo, a superioridade da raça branca, o papel feminino e devotado da mulher na família e a criminalização de condutas sexuais consideradas inadequadas.
Nesta época, a sodomia não é mais punida com a morte. Agora o Código Penal Canadense prevê apenas o aprisionamento pelo crime de atentado violento ao pudor, que inclui a sodomia. Percebidas como lenientes, as novas leis provocam uma reação da sociedade e os sodomitas são perseguidos. É neste contexto que o detetive William Murdoch tem seu primeiro contato com o mundo da homossexualidade, uma experiência que põe em dúvida sua forte crença católica.
Em Till Death Do Us Part, a autópsia revela que a vítima era homossexual. Para o Inspetor Brackenreid (Thomas Craig), a resposta é óbvia: o amante é o responsável. Portanto, basta Murdoch (Yannick Bisson) descobrir este homem e encontrará o assassino. O estereótipo do homossexual, marcado pelo comportamento indecente e criminoso, é também caracterizado por trajes vistosos e diversos termos pejorativos para descrevê-los (mandrakepansymerrybender e fairy). Esta linha de investigação introduz o detetive a uma realidade que, além de desconhecida, é perturbadora. Sério e convencional, ele não aprova um comportamento condenado pela bíblia e que ele considera contrário à natureza.
Porém, quando um dos suspeitos, um homem casado, pai e bem posicionado na sociedade, comete suicídio ao ter sua homossexualidade revelada em consequência da investigação, ele começa a refletir sobre o assunto. Por que jogar fora uma vida perfeita para ser homossexual? Por que condenar-se ao inferno cometendo suicídio? Para a Drª Ogden (Hélène Joy), legista a serviço da polícia de Toronto, a resposta é mais trágica do que complicada: Talvez ele achasse que o inferno não era pior do que o tormento no qual ele vivia. O tormento de viver uma mentira.
O repetido duelo de ideias antagônicas, leva Murdoch a perceber que, guiado pelo preconceito, ele havia seguido uma linha de investigação completamente equivocada, pois o assassino não era homossexual e cometera o crime por dinheiro. Com pesar, ele percebe que as vidas de diversas pessoas inocentes foram prejudicadas e, durante uma confissão, ele desabafa.
Eu ando questionando os princípios básicos da minha fé. Dois homens morreram. Em todos os aspectos, eram homens bons. Mesmo assim, sofrerão a condenação eterna. Como isso pode ser a vontade de Deus? Acho que não consigo mais seguir esta crença cegamente. Imagino um mundo mais compassivo e esclarecido.
A resposta do seu confessor não alivia sua consciência, ele diz: Talvez algum dia, mas provavelmente não durante nossas vidas.
Till Death Do Us Part

O tema volta a inquietar Murdoch em 1902, no episódio What Lies Buried, quando descobre que o Inspetor Chefe é homossexual. Desta vez, porém, ele não deixa a investigação ser obscurecida por pré-julgamentos como fizera no caso anterior. O suspeito chama sua atenção para um erro fundamental, ao declarar: Só porque sou homossexual, não presuma que eu molesto meninos. Por acaso você procura a companhia de meninas?
As convicções de Murdoch são duramente testadas novamente em Shades of Grey, da segunda temporada, quando uma jovem sangra até a morte, devido a um aborto induzido, e sua investigação o leva ao passado de sua namorada, a Drª Julia Ogden.
O episódio é interessante por pelo menos dois aspectos. Embora atualmente discutir o assunto não seja tabu, posicionar-se publicamente contra ou a favor pode ser. É exatamente isso que uma das personagens principais, Julia Ogden, faz ao revelar não apenas que é a favor do aborto, mas que também fizera esta opção enquanto estudava medicina. Era necessário e ela não se arrepende. Esta abordagem talvez se deva ao fato de que no Canadá o aborto esteja legalizado desde 1969, podendo ser realizado em qualquer momento da gestação. O outro aspecto interessante é que o episódio destaca os perigos de um aborto ilegal, ressaltando não apenas o direito da mulher de tomar esta importante decisão, independente de seus motivos, mas também de receber o devido atendimento profissional. Com uma abordagem liberal, o tema é posto na mesa para o debate.
Shades of Grey

E como são tratados os negros na Toronto de 1903? Durante a primeira metade do século 19, Ontário tornou-se um refúgio para escravos que fugiam dos Estados Unidos através de uma rota de fuga conhecida como Underground Railroad (tema que está sendo explorado na série americana Underground). Mas apesar do esforço de muitos brancos para salvar estes indivíduos, outros tantos apoiavam caçadores de negros, na esperança de mantê-los fora do território. De fato, após a abolição, os negros foram segregados e reduzidos a uma condição de inferioridade.
Colour Blinded começa nos conduzindo a esta realidade, quando um homem branco é assassinado em uma igreja de negros. O fato preocupa William Hubbard (Rothaford Gray), o primeiro vereador negro de Toronto, que expressa ao Inspetor Brackenreid sua preocupação com as circunstâncias do crime. Mesmo com a promessa do inspetor de manter a investigação sob controle, seu superior, o novo Inspetor Chefe, Jeffrey Davies (Richard Clarkin), imediatamente aponta um negro como responsável, apesar da fragilidade das evidências.
Para Murdoch, a justiça é mais importante do que a lei. Por isso, não permite que ordens e regras o afastem de encontrar o verdadeiro culpado, neste caso, um branco. E não apenas um branco qualquer, e sim um candidato ao Parlamento. A vítima tinha conhecimento de um fato que poderia pôr fim a suas aspirações: a mãe de sua esposa era negra.
Ao mesmo tempo, vemos o esforço constante de Rebecca James (Mouna Traoré), a nova assistente da Drª Ogden, para conviver com a discriminação. Diante das dificuldades comuns aos negros, como ser impedida de entrar em um restaurante ou ver seu trabalho menosprezado, ela conversa com Murdoch sobre o preconceito que ele sofre por ser católico em uma sociedade protestante. Mas para ele a situação é menos constrangedora, pois, como ele mesmo explica, ninguém percebe sua religião só de olhar para ele.
Colour Blinded

Desde 1977, a lei Canadian Human Rights Act determina o direito de igualdade de oportunidades e de não discriminação a qualquer pessoa que viva no Canadá, afirmando que ninguém deve ficar em desvantagem por causa de idade, gênero, raça ou qualquer outro motivo previsto na lei. Em 1998, a cidade de Toronto reforçou a ideia contida nessa lei quando lançou seu novo brasão. Nele, vemos o slogan que a representa: Diversidade: nossa força. Em janeiro de 2016, durante um discurso feito no Fórum Econômico Mundial de Davos, o Primeiro Ministro do Canadá, Justin Trudeau, elevou o status dessa mensagem, ao declarar que diversidade é a força do Canadá.

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