Os Imortais na TV: Viver Para Sempre?


Por Flávia Furquim
Desde que a  humanidade tomou consciência da morte, passou a se questionar, como V’ger, em Star Trek: The Motion Picture: “Isto é tudo o que sou? Não existe nada mais?” E mesmo que tenhamos fé na existência deste algo mais após a morte, ela é sempre um ponto final, ao menos para a vida tal como a conhecemos.
Por isso a busca pela fonte da juventude ou a pedra filosofal está muitíssimo viva na indústria dos cosméticos, nas cirurgias plásticas, nas academias de ginástica e nos estilos de vida naturalistas que buscam não apenas a qualidade de vida mas também a longevidade.
Mas, e se tivéssemos sucesso? Como seria, viver para sempre, neste mesmo corpo, nesta mesma “identidade”? Ser imortal? E que tipo de histórias podemos contar sobre um personagem imortal? Se houvesse mais tempo de vida, que efeitos isto traria para sua personalidade? E como utilizaria este tempo extra?
A TV buscou responder a algumas destas perguntas em vários momentos, através de um personagem ocasional ou de um protagonista em uma série. Para esta postagem, interessam apenas as histórias em que os imortais são seres humanos que adquiriram a imortalidade em algum momento de suas vidas, continuando a viver como humanos (bruxas e vampiros, por exemplo, estão fora desta abordagem).
Duncan MacLeod
Quando o protagonista é imortal, o que é apresentado na série é sua interação com outros personagens, como utiliza sua longevidade para lidar com os problemas do dia-a-dia e com os que foram gerados por sua incapacidade de morrer.
Mas, inevitavelmente, esta premissa acaba criando um recurso narrativo que permite retratar mudanças sociais, políticas e culturais através das situações vividas no passado pelo personagem. Ele se torna uma espécie de retrato da evolução de comportamentos, estilos de vida e crenças, bem como dos efeitos do avanço da tecnologia e ciência.
Este recurso não chegou a ser completamente desenvolvido nas séries que vamos analisar aqui, tendo aparecido mais como pano de fundo. Ocasionalmente, algum episódio utiliza uma questão social como foco ou ponto de partida da trama, oferecendo assim uma oportunidade para o telespectador comparar o passado e o presente, dando-se conta das transformações que já ocorreram nas sociedades.
Outro ponto pouco aproveitado foi a oportunidade de se ter uma protagonista feminina como imortal. A maior parte dos imortais em séries de TV acabaram sendo homens. Talvez os roteiristas pensem que as histórias com personagens masculinos oferecem mais opções de situações diferentes. Contudo, uma personagem feminina poderia mostrar com mais clareza a evolução da mulher e seu amadurecimento intelectual e emocional à medida que conquista mais espaço, liberdade e representatividade dentro da sociedade.
Vamos começar dando uma olhada na forma como a imortalidade foi trabalhada com os personagens masculinos. O primeiro exemplo, e mais famoso, é Duncan MacLeod (Adrian Paul), da série Highlander, seqüência televisiva do filme de 1986, estrelado por Sean Connery e Christopher Lambert (que apareceu na série como mentor de Duncan, validando assim a continuidade da história).
Nessa narrativa, o imortal é um guerreiro que sobrevive a todos os tipos de morte, menos ser decapitado. Quando isto acontece, seus poderes e conhecimento são transferidos para o imortal mais próximo, geralmente seu assassino, através de um fenômeno chamado de Quickening, uma espécie de descarga elétrica. Essa competição entre eles é conhecida como O Jogo/The Game.
Isto já pressupõe uma série que é basicamente de aventuras, com cenas de luta garantidas em todos (ou quase todos) os episódios. O dilema do herói não é entender os motivos de sua condição especial, pois os imortais existem desde o início dos tempos e ninguém sabe de onde vem a imortalidade. São capazes de regenerar ferimentos e órgãos internos, desde que não tenham sido separados do resto do corpo, permanecendo com a mesma aparência física que tinham na sua “Primeira Morte”.
Duncan McLeod
Apesar de sua fisiologia ser a mesma dos mortais, eles são estéreis. Assim, vagam pelos séculos sem descendentes. Os laços afetivos são difíceis de serem estabelecidos, mas ao menos não estão sozinhos. Há outros que vivenciam os mesmos problemas. Contudo, por causa do clima de desconfiança e perigo de traição que ronda sua “espécie”, acabam se isolando ou limitando sua interação com outras pessoas.
A série se passa na década de 1990, com flashbacks para outros períodos da vida de Duncan sempre que ele reencontra um antigo amigo ou inimigo, imortais como ele. Isto dá oportunidade de mostrar como ele lidou com uma determinada situação no passado e como esta experiência pode lhe ajudar na situação enfrentada no presente.
Este recurso também permite mostrar a evolução do personagem, seu amadurecimento intelectual ou emocional. Duncan nasceu na Escócia em 1592, começando sua existência como um guerreiro. Em 1622, morre pela primeira vez em batalha. A partir daí, foi soldado, guarda-costas, editor de jornais, motorista de ambulância da Primeira Grande Guerra, chofer e combatente da Resistência na Segunda Guerra. Possui, como seria de se esperar, conhecimento de muitos assuntos, é fluente em várias línguas e domina diversos tipos de artes marciais. Quando o encontramos, trabalha com antigüidades, é dono de um ginásio de lutas marciais e professor de História em meio-período.
Mas, por ser uma série de aventuras, o que Duncan retém e mais desenvolve é o que ele sempre foi desde o início: sua capacidade de sair vencedor em uma luta. Sua ingenuidade inicial pode ter desaparecido e pode ter aprendido a ser mais altruísta, mas ainda é um guerreiro.
Em Highlander, os relacionamentos são difíceis não apenas pela necessidade de se defender dos outros imortais, o que acaba sendo o foco das histórias, mas porque envolver-se com mortais coloca-os em grande perigo. Sem mencionar o fato, óbvio, de que Duncan sempre sobreviverá a eles, e estará constantemente dizendo adeus.
Duas outras séries exploraram a questão da imortalidade com personagens protagonistas, desta vez tendo os relacionamentos dos personagens como centro das histórias narradas.
New Amsterdam
New Amsterdam conta a história de John Amsterdam (Nikolaj Coster-Waldau), um policial do departamento de homicídios de Nova Iorque em 2008. Ele tem 400 anos, mas aparenta 35. John, nascido na Holanda em 1607, é um imortal desde 1642, quando salvou a vida de uma indígena americana durante um massacre de sua tribo. Em troca, ela lhe ofereceu a imortalidade até que ele encontre seu verdadeiro amor, quando então passará a ter uma vida normal.
Aqui não há mistério sobre a origem deste “dom”: ele foi um presente, concedido como agradecimento por um ato de bondade. Também existe uma “cláusula de escape”. John sabe como encerrar sua peregrinação sobre a terra, embora seja algo extremamente difícil.
flashback  é utilizado sempre que algum caso que está investigando desperta sua memória. Ficamos sabendo que ele já serviu no Exército por três vezes, além da Guarda Costeira e Marinha (mas não a Aeronáutica, porque não gosta de alturas). Já deu aulas de História na Universidade, já foi médico durante a Guerra Civil Americana, marceneiro na virada do século 20, um pintor de retratos um pouco antes do início da Primeira Guerra Mundial e um advogado, por volta de 1941. Também já trabalhou na CIA.
Há um detalhe: ele pode ter filhos e os teve em grande quantidade, 63, sendo o mais recente Omar York (Stephen Henderson), um senhor de 65 anos, dono de um clube de jazz, que nasceu de um relacionamento com uma professora escolar, Lily Rae Brown (Yolonda Ross), uma Afro-Americana. Porque encontrar sua alma gêmea significa retornar ao mundo dos mortais, John está sempre se envolvendo romanticamente. Mas precisa se manter em dia com sua árvore genealógica para evitar o relacionamento com algum dos seus descendentes.
New Amsterdam teve apenas uma temporada com oito episódios sem que o protagonista conseguisse acabar com sua condição de imortal.  Pete Hamill, autor do romance Forever, de 2003, acusou os produtores de se inspirarem em seu livro, mostrando as muitas semelhanças na trama e nos personagens.
A mesma situação se repetiu quando da estréia do drama policial Forever, de 2014. Este show também foi suspeito de ter-se inspirado em New Amsterdam e/ou no livro de Hamill. Este chegou a escrever pedindo que trocassem o título. O produtor, Matt Miller, alegou não ter conhecimento do livro ou do show de 2008. Nenhum processo foi aberto em nenhum dos casos.
A verdade é que Forever tem mesmo muitas semelhanças com New Amsterdam, o que acaba por ser interessante pois, apesar da premissa idêntica (uma série policial, de fórmula, onde os protagonistas usam sua imortalidade para ajudar a resolver os casos e como uma forma de escudo para seus parceiros), elas acabam tomando rumos um pouco diferentes devido à construção dos personagens.
Forever
Henry Morgan (Ioan Gruffud), um médico legista em Nova Iorque que estuda os mortos em seus casos criminais para tentar entender o motivo de sua imortalidade, nasceu em 1779, provavelmente na Inglaterra e tem 200 anos. Sua primeira morte aconteceu quando foi baleado à queima-roupa tentando libertar escravos num navio mercante, em 1814.
Não sabemos se Henry pode ter filhos. Foi casado duas vezes. A primeira vez foi antes de adquirir imortalidade. Nora (Victoria Haynes) o internou num asilo quando ele tentava lhe contar sobre sua volta dos mortos. Conheceu a segunda esposa, Abigail (MacKenzie Mauzy), durante a Segunda Guerra Mundial, vivendo com ela até 1984. Ela o deixou por ter envelhecido. Os dois adotaram Abe (Judd Hirsch), um bebê judeu sobrevivente do Holocausto, agora na casa dos sessenta, que vive com Henry e possui uma loja de antigüidades. Novamente, sabemos disso pelo recurso do flashback.
Enquanto John conhece a origem de sua condição, e como ela pode cessar, Henry, assim como Duncan, não tem a menor de idéia do porquê continua voltando à vida. Dos três protagonistas, Henry é o único que possui um mistério extra, o desaparecimento de seu cadáver. Toda vez que morre, seu corpo desaparece imediatamente, voltando a aparecer mais tarde, sempre na água e sempre nu.
Adam
Henry também possui um inimigo imortal. Adam (Burn Gorman), um ex-soldado romano, que morreu pela primeira vez tentando impedir o assassinato de Júlio César, está com 2.000 anos e foi, entre outras coisas, torturado pelos nazistas e o responsável pela morte de Abigail.
O que há em comum nestas três narrativas? Bem, a solidão de uma vida repleta de despedidas, o peso de um segredo difícil de ser compartilhado, a necessidade de recriar, constantemente, uma identidade compatível com o momento histórico vivido. Como tratar essas dificuldades insólitas?
Duncan tem uma atitude reservada, porém positiva e lida bem com sua imortalidade, embora a necessidade de matar lhe seja perturbadora. Quando mata por acidente seu amigo e aprendiz Richie Ryan (Stan Kirsch), torna-se mais melancólico e passa a filosofar sobre o sentido dessa existência de lutas.
Henry Morgan
John tem o temperamento depressivo dos românticos incuráveis e se revolta com sua condição. Sucumbiu ao alcoolismo e freqüenta os Alcoólatras Anônimos de tempos em tempos, tendo permanecido sóbrio desde 1965. Seu senso de humor é mais irônico. Não costuma mentir sobre sua idade ou suas experiências, que passam por “piadas”. Vemos, através de suas memórias, que nem sempre foi “ser humano exemplar”, tendo vivido como um golpista no final da década de 1920, por exemplo.
Henry, ao contrário de Duncan e John, sempre foi um médico, passando a atuar como legista depois que fugiu, deixando de salvar uma pessoa por medo de revelar sua imortalidade. Possui uma atitude estilo “Sherlock”, deduzindo informações a partir de detalhes mínimos. Está mais interessado em sua família e em suas pesquisas científicas. Bem-humorado, faz amizades com facilidade e desperta admiração nas pessoas que conhece.
Em comum também é a imortalidade como um fardo. Em Highlander, ser imortal é estar à mercê de outros imortais, predadores, que desejam se apoderar de mais força, habilidades e sabedoria. A idéia é que só pode restar um, que será extremamente poderoso. Então, ironicamente, ao se tornarem imortais, passam a viver eternamente fugindo.
John Amsterdam
Se Duncan precisa se aprimorar na arte de matar para manter-se vivo, John precisa aprender a amar para poder morrer. Ele tem uma chance de viver uma vida normal. Então, em vez de fugir, passa seu tempo perseguindo obsessivamente um amor ideal, sua cara-metade.
Mas o amor não se procura nem se acha. Amor se constrói e John, enquanto agir como age, não o terá. Isto porque, a cada novo relacionamento, sua maior preocupação é verificar se este é o definitivo, não hesitando em abandonar mulheres e filhos quando percebe que os outros envelhecem à sua volta e ele não. O mais importante parece ser a “quebra da maldição” e não o relacionamento em si mesmo, mesmo que acredite estar – e esteja – apaixonado.
Já Henry possui uma personalidade amorosa por natureza. Em seus duzentos anos, pode ter-se relacionado com várias mulheres, mas se casou apenas duas vezes. Mesmo trinta anos após ser abandonado por Abigail, ainda pensa nela como a mulher de sua vida, tendo respeitado seu desejo de não ser encontrada. Cultivou uma profunda amizade com o filho Abe que é sua companhia e seu confidente.  Poderia ter a vida imortal ideal, mas está constantemente preocupado em proteger seu segredo, bem como aqueles que ama e, em determinado momento, passa a ser atormentado por Adam.
Outro elo entre estas três histórias é o elemento fantástico, o recurso da “ressurreição, que traz de volta o herói mesmo após uma morte “definitiva”. Mas há um outro tipo de imortalidade, aquela que a ciência busca ferozmente conquistar para a humanidade.
A série O Imortal/The Immortal conta a história de Ben Richards (Christopher George ), um piloto de testes nos anos de 1970, que trabalha para uma grande corporação. Ele tem 42 anos, mas não aparenta mais do que 25 e nunca ficou doente em sua vida. Seu patrão bilionário, Jordan Braddock (Barry Sullivan), que está à beira da morte, é milagrosamente curado após receber uma transfusão de sangue doado por ele.
O Imortal
A partir daí, Braddock deseja controlar Richards para ter acesso a seu sangue sempre que tiver necessidade, levando-o a fugir para não ser aprisionado. Mesmo após a morte de Braddock, outros passam a persegui-lo pelo mesmo motivo.  A série foi cancelada sem um episódio final, ficando em aberto.
Aqui, a imortalidade é potencial. E pode ser compartilhada através do sangue. Esta mesma premissa foi apresentada em um episódio do reboot de A Quinta Dimensão/Outer Limits, em 1995.
Em The Last Supper, que foi ao ar em 1997, encontramos uma mulher imortal. Danny Martin (Fred Savage) se apaixona por Jade (Sandrine Holt), sua colega de escola. Ao trazê-la para um jantar com sua família, seu pai Frank (Peter Onorati) reconhece em Jade uma mulher que ele salvou de experimentos cruéis quando estava no exército, 20 anos antes.
Eventualmente, Jade revela ter sido uma adolescente durante a Peste Negra, na Espanha. Depois que toda sua vila foi dizimada, Jade descobriu não apenas ter sobrevivido, mas também ter sofrido uma mutação. Estava imune a doenças e ao envelhecimento.
O episódio segue com o confronto de Jade e o Dr. Sinclair (Michael Hogan), que continuava procurando por ela por causa de seu sangue. Nada é dito sobre seu destino, exceto que, apesar de Jade ter abandonado todos os homens por quem se apaixonou, Danny Martin decide prosseguir em seu relacionamento com ela.
Richards não passou pela experiência de atravessar vários séculos. Na verdade, ele não morrerá se tiver uma vida tranqüila, mas não está livre de traumas ou acidentes. Jade tem a longevidade, mas, ao que tudo indica, apenas devido à sua imunidade, como Richards. Nestes dois casos, a imortalidade inspira a cobiça de pessoas poderosas ou que desejam se manter no poder, e o imortal precisa fugir para não perder sua liberdade, ou pior, ser cobaia de testes e sofrer torturas. Esta também foi a situação de Adam, e, até certo ponto, semelhante à necessidade de Duncan de continuar fugindo.
Outra conseqüência da imortalidade que também foi abordada é o tédio e a ausência de sentido para uma existência que não se encerra nunca. Adam diz a Henry Morgan que a pior parte de sua longa vida é não sentir mais a importância dos minutos passando. No episódio final de Forever, The Last Death of Henry Morgan, Adam diz que ele também já tinha sido uma pessoa “decente”, mas que dois mil anos o fizeram perder todo senso de moral.
Ashildr
No episódio The Girl Who Died, da nona temporada de Doctor Who, este mesmo tema foi explorado na personagem de Ashildr (Maisie Williams), uma jovem Viking que o Décimo-Segundo Doutor (Peter Capaldi) e Clara (Jenna Coleman) encontram numa de suas viagens e que acaba morrendo numa batalha com alienígenas que personificavam os deuses nórdicos. A pedido de Clara, e lembrando de seu desejo de sempre salvar alguém, não importando a que custo, o Doutor implanta um chip modificado no corpo de Ashildr. O chip regenera seu corpo e ela acorda.
Contudo, o Doutor teme lhe ter oferecido um destino pior do que a morte: o chip a tornará uma imortal. Ele oferece um segundo chip ao pai da jovem, na esperança de que, mais tarde, ela o ofereça a alguém por quem se importe. Mas, com o passar dos séculos, a jovem passa do encanto à tristeza e finalmente passa a sentir raiva do mundo.
No episódio seguinte, The Woman Who Lived, o Doutor a reencontra em 1651 vivendo como uma bandoleira. Nos últimos 800 anos, sobreviveu a muitas guerras, sofreu muitas perdas, abandonou a maior parte de suas memórias e passou a viver isolada, chamando a si mesma de “Mim”. Ela pede para seguir viagem com ele na TARDIS, mas tem seu pedido recusado. Em Face the Raven, Ashildr é a líder de um campo de refugiados alienígenas na Londres de 2015, fazendo justiça e distribuindo sentenças de morte. Ela atrai o Doutor para uma cilada, que culmina na morte de Clara e faz com que o Doutor caia nas mãos do seu próprio povo, os Senhores do Tempo.
Mesmo não se tornando uma torturadora e assassina como Adam, Ashildr oscila entre atitudes de egoísmo insensível e o desejo de oferecer ajuda quando esta é possível e necessária.
Walter Jameson
Mas estes não são os primeiros imortais da televisão. Antes deles, um professor de História fascinava seus alunos com a riqueza de detalhes e a descrição vívida de vários eventos históricos no excelente episódio Long Live Walter Jameson, da série Além da Imaginação/Twilight Zone da década de 1960.
Jameson (Kevin McCarthy) é um professor universitário que desperta suspeitas em seu colega Samuel Kittridge (Edgar Stehli), pai de Susanna Kittridge (Dody Heath), sua noiva, porque nos últimos doze anos em que conviveram, parece não ter envelhecido nem um dia. Samuel também desconfia do conhecimento específico que não pode ser encontrado nos livros e que ele demonstra ter.
Ao encontrar uma antiga foto do futuro genro num livro sobre a Guerra Civil Americana, Samuel confronta Jameson, que revela sua história: sua imortalidade (mas não imunidade a ferimentos) foi conferida por um alquimista há mais de dois mil anos e, desde então, teve que constantemente se refugiar para esconder seu segredo. Está cansado da vida, mas não tem coragem de se matar.
Walter Jameson
Preocupado com o futuro de sua filha, Samuel proíbe Walter de se casar com ela, mas ele não aceita a proibição. Antes de fugir com a noiva, Jameson encontra a morte através de uma de suas ex-esposas, Laurette Bowen (Estelle Winwood), que foi abandonada após ter envelhecido e que deseja impedi-lo de destruir a vida de outra mulher.
Este episódio parece ter estabelecido um molde para as narrativas que se seguiram, abordando praticamente todas as questões que depois foram desenvolvidas de várias maneiras. Mas somente em Jornada nas Estrelas/Star Trek (The Original Series), no episódio Requiem for Methuselah, personagens ilustres da História foram conectados através de um personagem imortal. Nele, “descobrimos” que Leonardo da Vinci, Brahms, Salomão, Alexandre o Grande, Lázaro, Matusalém, Merlin e outros tantos são a mesma pessoa.
Ao se transportarem para o planeta Holberg 917-G, supostamente desabitado, em busca de Ritalina, um mineral que pode acabar com um surto de Febre Rigeliana, Kirk (William Shatner), Spock (Leonard Nimoy) e McCoy (DeForest Kelley) são atacados pelo robô M4, que é chamado de volta por seu criador, o Sr. Flint (James Daly).
Requiem for Methuselah
Ao ser informado do motivo de sua presença ali, Flint consente em ajudá-los a recolher o mineral e os hospeda em sua casa. Spock se espanta ao ver obras de arte de vários períodos históricos da Terra, incluindo uma partitura inédita de uma valsa de Brahms, porém produzidas com material moderno. Outra situação intrigante é o fato de que Flint parece interessado em reunir romanticamente Kirk e sua protegida, Rayna Kapec (Louise Sorel), apesar de parecer estar, ele mesmo, apaixonado por ela.
No fim, Flint revela ter 6.000 anos de idade. Um soldado, nascido na Mesopotâmia no ano de 3834 A.C., descobriu que não podia morrer após cair numa batalha. Nada é dito sobre a origem de sua imortalidade, mas Spock descobre que ele está morrendo. Aparentemente, sair do ambiente que o tornou imortal permitiu que seu corpo retomasse o envelhecimento natural.
McCoy, Spock e Flint
Flint realizou muitas coisas. Não que os outros não tenham igualmente contribuído com seu trabalho para o benefício de outros, mas eles viveram vidas particulares, buscando uma existência anônima, enquanto Flint se expôs em muitas e diversas vidas públicas, exercendo papéis de liderança política e militar, pioneirismo nas artes e ciências, influenciando diretamente o curso da humanidade e deixando registros marcantes na História com suas realizações. Isto pode ter dado a ele um propósito renovado. Talvez por isso tenha suportado sua longa existência com mais maturidade e sabedoria do que Adam, por exemplo, com apenas 2.000 anos de idade.
Podemos mencionar ainda um outro personagem imortal. O simpático Capitão Jack Harkness (John Barrowman) apareceu pela primeira vez na TV em 2005, no episódio The Empty Child da série Doctor Who. Embora se apresente como um americano voluntário da Royal Air Force, Jack é na verdade um Agente do Tempo, nascido no século 51, que abandonou a Agência devido a uma inexplicável perda de memória e que agora sobrevive como um trapaceiro.
O Nono Doutor (Christopher Eccleston) e Rose (Billie Piper) o encontram durante a Blitz de Londres em 1941. Sua moral, inicialmente duvidosa, é redimida quando consegue transportar uma bomba prestes a explodir para dentro de sua nave. Ele é resgatado pelo Doutor e viaja com eles na TARDIS, onde vai amadurecendo até se tornar um herói, sacrificando-se numa luta contra os Daleks. Mas Rose, que assimilou o poder do vórtice temporal da TARDIS, acaba por ressuscitá-lo. É aí que sua aventura imortal tem início.
Jack Harkness
A popularidade do personagem fez com que ganhasse sua própria série: Torchwood, uma spin-off de Doctor Who com temas mais adultos. Abandonado após sua ressurreição, Jack viaja para 1869 com a ajuda de seu vortex manipulator e vive normalmente durante todo o século 20 esperando reencontrar o Doutor. Neste período, recruta uma equipe de caçadores de alienígenas na Terra trabalhando para o Instituto Torchwood, que lida com incidentes que envolvem extra-terrestres.
Virtualmente nada pode matar Jack, nem mesmo ter o corpo destroçado por uma bomba ou preso em um bloco de concreto. Mas, apesar disso, Jack ainda está envelhecendo, ainda que muito lentamente. No episódio The Last of the Time Lords, Jack mostra-se preocupado com sua aparência no caso dele viver por “um milhão de anos”. Ele comenta com o Décimo Doutor (David Tennant) e Martha (Freema Agyeman) que isto é uma questão de vaidade, já que ele foi a primeira pessoa da Península de Boeshane a se juntar a Agência do Tempo e acabou conhecido como o “Rosto de Boe” (The Face of Boe).
O Rosto de Boe
Ocorre que este personagem já tinha sido introduzido na série antes de Jack, no episódio The End of the World.  Ele é uma cabeça humanóide gigante, provavelmente do sexo masculino, considerado uma das mais velhas criaturas do universo. O produtor Russell T. Davies admite que gostou da sugestão de que ambos possam ser a mesma pessoa, mas não quer explicitar essa conexão para manter o mistério.
Jack não se encaixa exatamente no mesmo padrão dos imortais abordados até aqui, porque os elementos fantásticos nesta narrativa são muito mais marcantes do que sua imortalidade. Mesmo antes de ser imortal, já era um viajante do tempo e do espaço, visitando outros planetas e encontrando alienígenas.
Isto altera significativamente sua percepção da vida eterna num mesmo corpo, já que tem a possibilidade de voltar ao seu próprio tempo. Isto parece ser importante para alguém que vai se afastando de tudo que lhe era familiar. Duncan sempre procura um local de sua juventude para meditar e restaurar sua energia. Henry tem um cômodo em sua casa decorado com móveis e objetos do século XVIII e John fotografou a evolução da Times Square desde que inventaram a câmera.
Mas mesmo Jack experimentou todos os prós e contras de não morrer. E se ele for mesmo o Rosto de Boe, encerrou sua vida com um ato de amor pela humanidade. O que nos leva de novo à pergunta inicial. Como seria, viver para sempre? Se ao chegarmos à meia-idade já nos recordamos do mundo que existia em nossa infância e constatamos todas as mudanças ocorridas, que dirá sendo imortal?
A humanidade avança lentamente, porém em espiral. Assim, testemunhar a história é também se deparar com os erros repetidos, os constantes retornos a situações que já poderiam ter sido superadas e que levam a novas tragédias. Isto pode acabar sendo um peso ainda maior do que o das despedidas, da solidão, dos segredos, dos perigos.
E se todos fossem imortais? Não haveria mais necessidade de dizer adeus. Todos teriam chance de recordar a história para não repeti-la. Só que também não haveria mais espaço para novos nascimentos. A conquista da imortalidade só agravaria os problemas de uma superpopulação, levantando questões éticas e morais.
No episódio The Mark of Gideon, de Jornada nas Estrelas/Star Trek, vemos um exemplo desta situação. Os habitantes do planeta Gideon possuem uma vida excepcionalmente longa numa sociedade livre de germes. A superpopulação os levou ao desespero, fazendo com que capturassem Kirk para que ele pudesse infectá-los com um vírus e, assim, pudessem morrer.
Tanto Jameson quanto John e Henry acreditam que a presença da morte faz a vida valer a pena. Na minha opinião, melhor seria amar a vida pela vida e não pelo temor da morte. Mas, como a morte não é opcional, o tempo que passa é realmente valioso, já que não pode ser recuperado. Por isso, seria interessante tentar fazer o melhor possível com o tempo que nos foi dado.

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