quarta-feira, 2 de junho de 2010

Breve Histórico das Minisséries Inglesas


A TV americana domina a produção de séries no mercado internacional. Tendo evoluído ao longo de seis décadas, os Estados Unidos conquistou um espaço nesse segmento, difícil de derrubar. Mas, eles não foram os primeiros, nem tão pouco conseguiram evoluir sozinhos, sem a ajuda de outros países. Foi graças à influência, principalmente, da produção inglesa, que a TV americana evoluiu em pontos e momentos chaves que permitiram à ela se tornar quase uma unanimidade.

A TV inglesa começou a produzir programas regularmente 10 anos antes que a TV dos EUA. Na Inglaterra, investiu-se mais na produção de minisséries que de séries e foi graças ao sucesso e credibilidade que esse tipo de programa conquistou no Reino Unido, que os americanos começaram sua própria produção nesse formato a partir da década de 70. O resultado da produção americana influenciou o surgimento do formato no Brasil, a partir da década de 80.

"That Was the Week That Was"

A TV americana produziu sua primeira versão de um programa inglês em 1964, com o humorístico "That Was The Week That Was", apresentado por David Frost (jornalista que entrevistou Nixon - situação retratada no filme "Frost/Nixon"). Esse humorístico também serviu de base para o estilo narrativo que seria utilizado pelas séries satíricas americanas. A partir daí, a TV americana passou a buscar na terra da Rainha produções e ideias que permitiram à TV do Tio Sam a romper padrões e a explorar tabus.

Na Inglaterra, as minisséries são mais respeitadas que a produção de séries, a qual é considerada por eles como um 'fast food' televisivo. Essa matéria é dedicada à elas, deixarei para uma outra ocasião a história da produção seriada.

A produção televisiva britânica teve início em 1926, mas somente se tornou oficial com o lançamento formal da BBC em 1936. As transmissões sofreram uma interrupção em 1939, em função da 2ª Guerra Mundial, retornando ao normal em 1946. De 1936 até meados dos anos 60, muitos programas ainda eram transmitidos ao vivo, o que fez com que fossem perdidos pelo tempo, restando apenas poucos registros fotográficos ou de matérias em jornais e revistas da época.


A interrupção em função da Guerra deu aos EUA uma vantagem para que equipamentos e novos sistemas fossem criados, proporcionando à TV americana seu surgimento comercial em 1945. Quando a Inglaterra interrompeu as transmissões em 1939, o país tinha uma média de 20 a 25 mil televisores vendidos. A BBC foi o único canal de TV no Reino Unido entre 1936 e 1955, ano que foi lançado o primeiro canal comercial do país, a ITV.

Tradicionalmente, a programação da BBC sempre foi destinada a um público de classe média à alta, com objetivos didáticos e informativos, para uma propagação cultural e histórica da Grã-Bretanha. Sustentada pelo governo através de uma taxa cobrada daqueles que compravam um aparelho de TV, a BBC somente teve permissão de vender espaços publicitários e obter lucro direto de seus programas, quando foram criados os canais internacionais na década de 90. Até então, o lucro extra vinha da venda de sua programação à canais internacionais, bem como com o home video nos anos 80 e o surgimento das novas mídias.

A dramaturgia da TV inglesa teve início com a transmissão ao vivo de peças direto dos teatros onde eram montadas. Logo depois passou a adotar a montagem teatral em estúdio, com produções que duravam 30, 60 e 90 minutos. Esses teleteatros foram posteriormente adotando um visual estético cinematográfico, transformando-se em telefilmes. Nesse primeiro momento, esse tipo de dramaturgia foi batizada de TV Drama. Somente em 1950 surgiria a primeira minissérie inglesa, denominada drama serial. Em função disso, o termo serial passou a ser usado para determinar a produção de minisséries.

A primeira minissérie inglesa que se tem notícias foi "Little Women/Mulherzinhas", produzida entre dezembro de 1950 e janeiro de 1951. Adaptada por Winifred Oughton e Brenda R. Thompson, do livro de Louise Mary Alcott, a produção teve seis episódios de meia-hora de duração. Exibida à tarde para o público infanto-juvenil, a minissérie promoveu o início da produção do formato também para o público adulto. Assim, surgiu em maio de 1951 a minissérie "The Warden", também com seis episódios de meia-hora. Adaptada por Cedric Wallis, do livro de Anthony Trollope, a produção deu início à exploração desse formato narrativo que passaria a dedicar-se, basicamente, à adaptação de obras clássicas da literatura.


Justamente por isso, utiliza-se a definição 'classical serial' para minisséries com base nessas obras; e de 'serials' as produções originais. Estas, surgiram em 1952, com a produção de "The Broken Horseshoe", escrita por Francis Durbridge. A história era um thriller com seis episódios de meia hora de duração cada; em 1953, ganhou uma versão cinematográfica. As minisséries abriram as portas para o surgimento das séries, em 1952, com "The Appleyards"; e das novelas, em 1954, com "The Grove Family". A princípio, as séries eram destinadas ao público infantil e as novelas ao público adulto.

A coroação da rainha Elizabeth II em 1953 fez a venda de aparelhos de televisão aumentar, passando de 2 milhões para 45 milhões ao longo de dois anos. A popularização do veículo promoveu o surgimento da TV comercial em 1955, que dedicou-se mais à produção de séries que de minisséries ou teleteatros/telefilmes.



Prevendo o surgimento da concorrência, a BBC passou a explorar com mais frequencia a produção seriada e de minisséries a partir de 1952. Em 1953, estreou a minissérie "The Quatermass Experiment", a primeira ficção científica do formato que rompeu padrões da narrativa clássica inglesa, criando um marco na história da TV britânica. Foram seis episódios transmitidos ao vivo com poucas cenas filmadas previamente. A história, situada no período da Guerra Fria e da bomba atômica, apresentou a vida de três astronautas que, ao retornarem à Terra infectados por um organismo alienígena, são transformados em enormes criaturas vegetais.

Ao longo das décadas, as minisséries tornaram-se uma das principais atrações da TV britânica, sendo exportadas a diversos países. A partir dos anos 80, elas começaram a ser disponibilizadas em home video, chegando aos anos 2000 também em DVD e Internet. Em premiações como o Emmy ou Golden Globe, as minisséries inglesas se tornam quase sempre as favoritas na disputa com as produções americanas. Muitos críticos as comparam a pequenas obras primas da televisão mundial, capazes de reproduzirem com perfeição diferentes períodos, promovendo e propagando a cultura e a história da Inglaterra.


No Brasil, foram poucas produções inglesas que conseguiram chegar à TV, em comparação ao volume de séries e minisséries importadas dos EUA. O protecionismo e a dominação americana em relação à produção televisiva impediu que o brasileiro pudesse ser exposto com mais frequencia a diferentes culturas. Mesmo assim, a Inglaterra, bem como o Canadá e o Japão ainda são os países que mais vendem produções para o mercado brasileiro, depois dos EUA.

Correm rumores de que a TV a cabo brasileira poderá ter em breve o acesso ao canal BBC América, mas ainda não há definições concretas a este respeito. A BBC América surgiu em 1998, como parte do grupo BBC Worldwide, com o objetivo de exibir produções, tanto da BBC, quanto de outros canais ingleses. Transmitida pela TV a cabo e por satélite aos EUA, o canal ainda não conseguiu chegar a outros países do continente americano.


O acesso que os brasileiros têm às minisséries inglesas estava restrito à boa vontade da TV aberta ou a cabo. Nos anos 90, o Eurochannel foi responsável em transmitir muitas produções inglesas, tanto séries, quanto minisséries ou humorísticos. Atualmente, é mais fácil encontrá-las canais a cabo como o Eurochannel e o Film & Arts, bem como pela Internet ou pelo DVD.

Em 2009, a Log On Editora fechou um contrato de parceria exclusiva com a BBC inglesa, através do qual tem permissão de lançar no mercado brasileiro de DVD, sua programação televisiva. Além dos documentários, um dos formatos mais respeitados do canal, também estão sendo disponibilizadas algumas minisséries. Ainda falta à editora dar mais atenção as séries da BBC, que tem diversos títulos os quais poderiam interessar ao público brasileiro, entre eles "Doctor Who", um dos personagens ícones da cultura pop inglesa.


Entre as minisséries lançadas em DVD estão "Emma", "Oliver Twist", "Orgulho e Preconceito", "Razão e Sensibilidade" e "North & South". Das séries, a editora já lançou a primeira temporada de "Torchwood" e "Life on Mars", sem previsão de quando serão disponibilizadas as próximas temporadas, bem como a série completa de "The Office", produção que ganhou várias versões estrangeiras, incluindo a americana.

9 comentários:

Igor disse...

Faltou lembrar o lançamento de The Office, pela Log On.
Além de Doctor Who, seria excelente se lançasse a série Black Adder por aqui, entre outros vários títulos.

Fernanda Furquim disse...

Obrigada pelo toque sobre The Office, Igor, já inclui no texto.

Também adoraria ver Black Adder em DVD no Brasil!!!

Amanda disse...

Confesso que gosto mesmo das mais atuais... odeio Jane Austin (pronto, confessei... hahahha).

Gostei muito de Paradox - que eu não sei se volta - aquele Murders Woman Club ou algo parecido, e agora to experimentando Luther...

Adoro seu blog!

Bjim

Amanda disse...

PS: essas que eu falei não são miniséries, mas sim séries mesmo... my mistake!

Rose disse...

faltou vocês comentarem de Bleak House, uma premiada minissérie inglesa.

Fernanda Furquim disse...

Oi Amanda, obrigada pelo carinho e pelas visitas!

Oi Rose. Não inclui a minissérie Bleak House porque a matéria faz apenas um apanhado geral do início da produção do formato, parando em 1953, quando ele se estabeleceu. As produções mencionadas depois são aquelas lançadas em DVD no Brasil.

Rubens disse...

Eu ja assisti a varias miniseries inglesas, por influencia de minha cunhada junto à minha esposa. Eu até gosto por causa da recriação de época (classical dramas). Mas vejo um serio problema nessas minisseries inglesas: elas se assemelham às nossas novelas, no sentido que praticamente todas sao voltadas ao público público feminino, e trazem apenas romance e mais nada.

Claro que o texto/diálogos é muito superior, mas as historias não passam de um monte de blá-blá-blá envolvendo um romance de alguem pobre com alguem rico (exatamente como nas novelas brasileiras). Se for Jane Austen, entao, é mandatório que a pessoa pobre vai receber uma enorme herança caída do céu, sem mais nem menos, em torno de 30 mil libras. (outros autores ingleses apelam para a mesma saida facil para resolver os problemas do personagem pobre).

É isso mesmo, ou não estou sabendo olhar as minisséries certas? Todas não passam de romance? Elas não tem a variedade de temas das séries americanas? (aventura, sci-fi, thriller, policial, comedia, etc.)

Fernanda Furquim disse...

oi Rubens! Existe variedade de temas, mas em menor proporção.

As produções de Classical Dramas ainda são a preferência de muitos canais, em especial a BBC. Eles adoram adaptar autores famosos e livros publicados há séculos atrás.

Esses romances serviram/servem de base para os folhetins (de onde se originou as novelas). Os folhetins eliminam a essência literária e a profundidade de personagens, aproveitando apenas o roteiro das histórias e os temas. Assim, facilitando a leitura, eles transformam romances em folhetins (novelas).

É o mesmo processo, por exemplo, dos musicais (teatro ou cinema). Eles são uma adaptação popularesca da Ópera.

Rubens disse...

Obrigado, Fernanda Furquim, entendi melhor os conceitos agora... E esqueci de citar o meu autor original favorito para os classical dramas da tv inglesa: Charles Dickens.

Ano passado a adaptacao mais recente de Little Dorrit (feita para a tv inglesa) ficou com 7 Emmys, incluindo Melhor Minisserie ("outstanding miniseries").

Tambem gostei muito da ultima "North & South", de Elizabeth Gaskell's, cuja capa do DVD voce reproduziu na materia. É romance, mas que producao espetacular aquela...

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