domingo, 24 de janeiro de 2010

Opinião: SAG Awards - Para que Servem as Premiações?

Elenco de "Mad Men"

Ontem à noite foi ao ar mais uma premiação que provavelmente poucos assistiram. O SAG Awards não chega a ter a mesma importância que um Emmy ou Golden Globe; nem mesmo um TCA, mas, ainda assim, faz parte da lista dos prêmios mais respeitados de Hollywood. Não vou aqui fazer comentários sobre os vecendores pois seria "chover no molhado", já que a grande maioria repetiu o resultado anteriormente apresentado pelo Golden Globe.

Gostaria, no entanto, de fazer algumas observações sobre as premiações de um modo geral, e sobre o SAG Awards. A revolta ou o desdém que o resultado de premiações trazem aos fãs que se manifestam ao verem suas séries favoritas perderem, ou nem serem indicadas, levanta por parte destes a pergunta do "pra que assistir"?

Eu, por exemplo, não organizo minha "grade de programação" com base em quantos prêmios uma série recebe e, para falar a verdade, não costumo torcer muito por esta ou aquela em particular. Prefiro continuar a torcer pelo reconhecimento da qualidade artística de uma produção ou profissional, quer eu seja fã ou não.

Elenco de "Glee"

Por que continuar a organizar prêmios, e porque as pessoas comuns deveriam continuar a dar-lhes qualquer atenção? Quanto à pessoas comuns, eu não sei, mas para aqueles que são fãs de séries (não de títulos) ou desejam escrever a respeito de séries, acompanhar ou entender as premiações é uma obrigação para formar bagagem para seu trabalho ou compreensão do que está acontecendo neste meio.
 
As premiações existem pelo mesmo motivo que continuam organizando partidas de futebol, jogos olímpicos, ou qualquer outra competição esportiva. Elas servem para se premiar os esforços de pessoas que se dedicam a algo, tornando-se um estimulo. É claro que em jogos esportivos a partida é realizada na hora e o vencedor leva o prêmio. Mas, vamos e convenhamos, nem sempre quem ganha o jogo merece o prêmio, e, muitas vezes, a vitória é questionável, mesmo que esteja lá, ao vivo e à cores, na nossa frente.

No mundo das artes a avaliação é mais difícil, já que o julgamento da qualidade da expressão artística é tão abstrata quanto a obra avaliada. Afinal, trata-se de um trabalho com base na criatividade, a qual estimula o emocional e o racional de quem vê. Mas, ainda assim, a competição se estabelece, pessoas tomam partido e torcem pelo seu escolhido. A arte explora a sensibilidade; a televisão explora a emoção; portanto, é difícil desassociar a relação afetiva que se tem com o objeto para avaliá-lo. Muitos diriam que faltaria algo. De fato, mas, nem por isso, o racional deve ser deixado de lado.

 Michael C. Hall

Como disse, não sou fã de premiações, mas acredito na necessidade delas existirem, especialmente em um veículo como a televisão. Voltado para o segmento de massa, a TV tem o objetivo de oferecer produtos para agradar ao grande público.

Ao longo de cada década foram poucas as séries (em relação ao que foi produzido) que conseguiram se sobressair pela qualidade de desenvolvimento de sua proposta. São as chamadas produções "cult", porque conseguiram retratar sua própria época de uma forma artística diferenciada, a ponto de estabelecer um novo padrão de desenvolvimento narrativo e/ou estético. As produções seguintes tomam estas como base e assumem a responsabilidade de fazerem melhor. Muitos apelam para o remake ou para a adaptação com uma nova leitura, mas, ainda assim, usam o original como ponto de partida para ir além.

Os prêmios são como um ponto de partida. É função das premiações estabelecerem um nível de exigência e é obrigação dos produtores alcançarem o nível proposto. E aqueles que conseguem ir além do nível exigido, devem ser premiados, determinando um novo patamar de qualidade a ser conquistado.

Alec Baldwin

Muitos (inclusive eu) acreditam que as instituições que premiam são conservadoras demais. De fato, são tradicionais, demoram para reconhecer mudanças que são necessárias na televisão, chegando ao ponto de promover injustiças com profissionais e produções que se mostraram à frente de seu tempo, mas nunca foram premiadas. Mas, por outro lado, as premiações reconheceram e salvaram do cancelamento dezenas de séries que mudaram a história da televisão, as quais o público e/ou televisão, a princípio, não perceberam seu valor. "Mad Men" e "30 Rock" entraram nesta lista.

Depois de assistir a este tipo de série, que estabelecem um novo patamar na história do formato, os produtores e público não podem querer ganhar algum tipo de reconhecimento por séries que não chegam a este nível, a não ser que desejam apenas diversão. E para isso existem prêmios específicos. Por mais que a Associação de Imprensa e as Academias de Televisão e Cinema sejam falíveis, elas são necessárias para que a televisão, e o cinema, não fiquem nas mãos da cultura do entretenimento e do marketing puro. Justamente por isso, é alarmante constatar que estas instituições, muitas vezes, tentam se aproximar desse nível cultural.

Julianna Margulies

Ao assistir à entrega do SAG Awards ontem à noite comecei a pensar em seu histórico e na sua relevância. É um prêmio ainda muito novo, surgiu em 1995. Até então, o Sindicato dos Atores premiava apenas o profissional por seu "tempo de serviço" e contribuição à comunidade artística. O Lifetime Achievement surgiu em 1962 e era a única referência até então do Sindicato. Por outro lado, o Emmy surgiu no final da década de 40, moldado na mesma estrutura do Oscar. As categorias que premiam os atores são selecionadas pelos próprios atores, os quais pertencem ao Sindicato. Então, mesmo que sua história seja recente, o SAG tem experiência acumulada.

Mas, aí vem a questão de que o SAG Awards não tem o mesmo peso que o Emmy (não vou considerar o Golden Globe pois este é oferecido pelos jornalistas). O prêmio surgiu da necessidade do Sindicato em se fazer importante para seus próprios membros e à comunidade à qual pertence; se estabelecendo para ter poder de negociação com produtores e veículos. O peso e a responsabilidade na escolha para o Emmy não se aplicam na mesma medida ao SAG Awards, já que o Emmy é oferecido pela Academia de Televisão, influenciando a comunidade artística, a imprensa e os negócios em uma proporção maior.

Tina Fey

A cerimônia do SAG já mostra este diferencial. Mais descontraída, girando em torno da homenagem feita pelo Lifetime Achievement (ainda o ponto mais alto deste evento), os prêmios são uma forma de atores parabenizarem o colega. Ao mesmo tempo, ele é uma amostragem do perfil da comunidade artística em relação ao que será visto posteriormente no Emmy. Sendo que, no SAG Awards, a escolha de séries dramáticas ou cômicas está atrelada unicamente ao elenco. Ao contrário do Emmy, o desenvolvimento de roteiros não conta aqui. O que vale é a qualidade do elenco, não apenas pelo nível de interpretação, mas na forma de se tornar uníssono, homogêneo. Algo que os dois elencos vencedores conseguiram conquistar.

Séries com grandes elencos que conseguem evitar "estrelinhas" destoando do resto, tem mais chances de ter seu trabalho reconhecido. A harmonia e a satisfação conquistada pelos seus integrantes nos bastidores também é ponto relevante. Produções que têm conflitos internos entre os atores, e que se tornam públicas, tem suas chances reduzidas.

Betty White

Sabemos que o olhar racional e crítico não é dominante nas premiações. Nem os fãs conseguem separar um do outro, imagine o ator que irá votar em um colega, com quem já possa ter trabalhado. É muito difícil ver um ator falando mal de outro na imprensa e quando isso ocorre, rapidamente aparece uma retratação ou um desmentido. Reparem quando eles dão entrevista. Todo mundo é maravilhoso. É uma garantia para sobreviverem no meio que escolheram.

Então, quem tem melhor relacionamento entre seus colegas, terá mais vantagem que o profissional que não é conhecido da grande maioria. Dificilmente as séries serão assistidas por todos. Muitos profissionais, ao serem julgados, estão sendo vistos pela primeira vez pela pessoa que o julga. Se não causar uma boa impressão, a tendência de quem está julgando é ficar com aquele que já conhece. Não se esqueçam que aos prêmios está atrelado o dinheiro, não apenas na forma de presentes (os chamados gift bags - os do Oscar podem chegar a 100 mil dólares), mas, também, no poder de renegociação de contratos e interesses de produtores no trabalho daquele determinado ator.

Assim sendo, as premiações são um mal necessário, que precisam ser vistas com outros olhos por aqueles que decidem seguir a carreira de crítico (seja lá do que for, pois todo segmento tem sua premiação). O desdém ou o fanatismo por algo ou alguém não deveriam interferir no trabalho de quem escreve. Aliás, no trabalho de um modo geral.

6 comentários:

Eveline Gomes disse...

Muito esclarecedor esse post! Eu sempre assisti as premiações mais pela curiosidade mesmo, tanto que dos indicados do SAG eu só conhecia/assisti mesmo House e Colin Firth. As outras só de ouvir falar...

Enfim... parabéns pelo Revista TV Séries. Vou passar sempre por aqui pra ver as novidades e já estou seguindo vcs no twitter tb!
bjs

Fernanda Furquim disse...

Obrigada Eveline, seja bem vinda e sinta-se à vontade para comentar!

Gabriel Alberto disse...

Adorei seu post que esclareceu muitas coisas, ainda mais para um estudante de jornalismo como eu.
Tenho seu blog como referência e adoro todo seu olhar crítico.
Concordo contigo quando você escreve que o fanatismo não deveria interferir na forma de alguém que cobre esse tipo de evento.

Rafa Bauer disse...

Ótima análise, Fernanda, como sempre!
Acho que um dos grandes problemas das premiações é a politicagem. Muitas vezes deixa-se de premiar o melhor, para se premiar o mais conveniente naquele momento. E isso gera aquelas premiações atrasadas (como você citou em um exemplo anterior, do Michael C. Hall, mas que ocorre muitas vezes, em diversos setores), muitas vezes por uma performance que não merece tanto ser premiada.
Da mesma forma, a politicagem parece estar dentro do próprio SAG, pois pode-se ter um elenco espetacular, que não se entenda na set, e que não seja premiado por causa do que ocorre fora das telas...
Enfim, são tantos ângulos a se analisar, que seria assunto para horas... hehe

Fernanda Furquim disse...

oi Rafa, obrigada pelo comentário!

Realmente a politicagem corre solta, faz parte do ser humano. Não conheço um único lugar onde tenha agrupamento humano q não tenha politicagem no meio.

Se até em meio a fóruns chats, comunidades sociais, blogs, salas de aulas ou entre grupos de amigos (que são os lugares mais informais que conheço), existe a tal politicagem, mesmo que os envolvidos não percebam, imagina em uma premiação de Hollywood!

bjs e bom feriado!!!

Fernanda Furquim disse...

oi Gabriel, obrigada pelo comentário. Fico feliz em ter ajudado!

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