The Crown Apresenta a Monarquia Britânica do Século XX


Por Fernanda Furquim

Disponível no serviço de streaming Netflix, The Crown é uma série criada por Peter Morgan (The Jury, The Lost Honour of Christopher Jefferies) e Stephen Daldry (diretor do filme As Horas). A produção, orçada em (dizem os rumores) cem milhões de libras (para as duas primeiras temporadas), se propõe a apresentar os bastidores da monarquia britânica e a luta de um governo para preservar suas tradições e a instituição.
Morgan é um roteirista e autor teatral que se interessa em trabalhar temas relacionados à política. Este seu interesse o levou a entrar em contato com os bastidores da monarquia quando escreveu o roteiro do filme A Rainha, que apresenta a reação do público e da monarquia à morte da Princesa Diana na década de 1990.
Curiosamente, não foi a postura da Rainha Elizabeth II que o inspirou a escrever o filme, mas seu interesse pela personalidade de Tony Blair, que era então o Primeiro Ministro. Seu interesse pela carreira de Blair já o tinha levado a escrever o telefilme The Deal (2003), que apresentou a trajetória política do ex-Primeiro Ministro (ele voltaria ao personagem em 2010, com o roteiro do telefilme The Special Relationship, que retrata um encontro de Blair com Bill Clinton).
A partir do filme A Rainha, Morgan começou a se interessar pelos encontros semanais que ocorrem entre a monarca e seu Primeiro Ministro. Esta curiosidade o levou a escrever a peça The Audience, a qual apresenta os encontros da monarca com boa parte dos Primeiros-Ministros que já passaram pelo governo durante seu reinado, desde que assumiu o trono em 1952.
O sucesso desta peça o levou a ser convidado pelo Netflix a escrever uma série sobre a monarquia. E assim surgiu The Crown, série que tem um total de seis temporadas planejadas, cada uma com dez episódios cobrindo uma década do reinado de Elizabeth.
(E-D) Margaret, Elizabeth II, Philip, Rainha Mary e Elizabeth (Fotos: Netflix/Divulgação)

Morgan disse em entrevistas que a série é uma produção sobre a luta pelo poder, a qual, de fato, é evidenciada nas atitudes dos personagens. Mas acima disto, The Crown é uma série que trata da luta desesperada para se manter intacta a instituição e suas tradições frente à ameaça da modernidade, que sempre chega com o passar do tempo.
Neste primeiro momento, Elizabeth (Claire Foy, de Wolf Hall, Little Dorritt) e Churchill (John Lithgow, de 3rd Rock From the Sun, Dexter) são os personagens centrais. Os demais apenas orbitam à sua volta, fornecendo material necessário para que os protagonistas possam estabelecer suas posições, personalidades e opiniões (bem como protagonizar situações históricas).
Na série, Churchill é apresentado como um homem que se recusa a aceitar a passagem do tempo. Acreditando ainda ter condições de oferecer sua contribuição ao Reino Unido, ele se reelege pouco antes da morte de George VI (Jared Harris, de Mad Men), personagem que teve um momento importante de sua vida retratado no filme O Discurso do Rei (2010). A morte do rei apavora Churchill, que não vê a jovem Elizabeth apta a assumir o trono, razão pela qual ele consegue adiar por um ano sua coroação. Neste meio tempo, ele espera conseguir prepará-la para a função, embora ela já possa ocupar o cargo.
Nos encontros entre ele e Elizabeth, bem como nas cenas em que vemos Churchill em sua rotina de trabalho ou em suas relações pessoais, o telespectador percebe o desespero crescente do Primeiro Ministro ao tentar parar o tempo. Buscando controlar tudo o que ocorre à sua volta, Churchill comete falhas que comprometem sua posição e a opinião de políticos, funcionários e, por fim, da própria Elizabeth. Esta, por sua vez, é apresentada na série como a promessa de um futuro brilhante, um futuro que Churchill tem a intenção de moldar para garantir a estabilidade do reino e a continuidade das instituições.
John Lithgow como Churchill

O que mais chama a atenção na relação entre Churchill e Elizabeth é a forma como ele busca incutir em sua mente suas próprias opiniões conservadoras e a sua visão do mundo, sem contudo levar em consideração as opiniões ou sentimentos de Elizabeth sobre o que quer que seja. Churchill parece vê-la como barro que precisa ser moldado à forma que melhor convém aos interesses do Estado, apagando com isso qualquer traço de personalidade que ela possa ter. Seu maior interesse é o de torná-la uma pessoa autônoma para exercer o poder, desde que seja dentro de sua visão de governo. Neste meio tempo, ele ainda precisa lutar para se manter no cargo frente à possibilidade de ser substituído a qualquer momento por um político mais jovem com ideias revolucionárias.
Embora represente o mundo novo, Elizabeth, por sua vez, teme modificar as regras, injetar mudanças em uma engrenagem enferrujada (mas que ainda se mantém em pé), apesar de sentir na própria pele a necessidade de reconstruir o sistema que a sustenta.
A série tem início com a morte do Rei George VI, evento retratado nos dois primeiros episódios (muito embora ele retorne em cenas de flashback ao longo da temporada). Elizabeth II , então com 25 anos e casada com o Príncipe Philip Mountbatten (Matt Smith, de Doctor Who), assume o trono.
Ao assistir esta primeira temporada, o telespectador precisa ter em mente um evento importante da história da Inglaterra que, embora não seja retratado na série, serve como ponto de partida para que possamos compreender as atitudes, motivações e temores dos principais personagens da trama, mesmo que, eventualmente, possamos não concordar com suas decisões. Este evento é a abdicação do Príncipe Edward (Alex Jennings).
Claire Foy como Elizabeth II
Filho mais velho de George V e da Rainha Mary (Eileen Atkins, de Upstairs, Downstairs, versão original, e Doc Martin), Edward renunciou ao trono quando o governo e a igreja se negaram a aceitar seu casamento com Wallis Simpson (Lia Williams, de The Missing e vista em Doc Martin) uma mulher duas vezes divorciada (sendo que os dois ex-maridos ainda estavam vivos). O trauma causado por esta abdicação levou o governo e a monarquia a atitudes extremas para garantir sua sobrevivência e evitar que tal ato se repetisse no futuro.
Ao longo dos episódios, vários personagens citam este evento como ponto de referência não apenas de uma crise institucional, mas também da infelicidade que foi imposta a George VI (e seus familiares) que, sem ter qualquer preparo para isto, se viu obrigado a assumir o trono, depois de implorar para o irmão que este mudasse de ideia.
Tanto George quando sua esposa Elizabeth (Victoria Hamilton, de Lark Rise to Candleford, Doctor Foster), e posteriormente sua filha Elizabeth, revelam durante a série (em seus atos ou diálogos) que tudo o que desejavam ter era uma vida tranquila, longe do escrutínio da mídia e do público, e livre das interferências do governo.
Apesar da experiência vivida por George VI ao assumir uma função para a qual não estava apto, nem ele, sua esposa ou o governo, tomaram providências para que Elizabeth fosse preparada para herdar o trono, embora todos soubessem que isto viria a acontecer um dia. A própria Elizabeth, na série, cobra da mãe as razões pelas quais ela não recebeu o estudo necessário para isto, limitando-se a aprender história, literatura, música e afazeres domésticos em suas aulas particulares, matéria que era praticamente uma obrigação para as mulheres de sua época. O único trunfo político que lhe foi dado foi o estudo aprofundado da Constituição, algo que lhe serve de salva vidas nos momentos em que Elizabeth se vê contra a parede.
Elizabeth é retratada neste primeiro momento como uma jovem ingênua, inexperiente, com um discernimento limitado e sem qualquer carisma ou imaginação. Em resumo, uma pessoa sem personalidade. Edward a apelidou de Shirley Temple, talvez por considerá-la uma marionete ‘que canta e dança’ nas mãos de terceiros. Esta é a mulher (segundo a série) que assume o trono em 1952, ávida a provar seu valor e dar continuidade ao trabalho do pai, mas apavorada com a ideia de que qualquer erro seu poderá colocar em risco um sistema de governo e um império.
Vanessa Kirby como Margaret
Este temor determina suas ações na maior parte da temporada, fazendo com que ora ela concorde com o marido Philip, que tenta manter viva sua dignidade e masculinidade, ora com Churchill que, preso às tradições, manipula suas opiniões. Vivendo diferentes situações familiares e políticas, Elizabeth se deixa levar facilmente pelo sistema.
Embora tenha assumido o trono com a promessa de modernizar a monarquia, ela permite, neste primeiro momento, que Churchill, o governo e a igreja promovam uma espécie de ‘lavagem cerebral’ para anular o que existe de sua individualidade, moldando-a conforme seus interesses e incutindo-lhe a necessidade de comprometimento com o cargo que ocupa, mantendo suas tradições.
A série sugere que o trauma causado pela renúncia de Edward levou o governo a definir que um monarca ideal é aquele que não expressa qualquer emoção ou opinião em público, mantendo uma postura imparcial e impenetrável, com o objetivo de inspirar confiança e segurança nos momentos de crise. Uma boneca sem alma ou dimensão, que esteja sempre sorrindo e bem disposta, sem com isso causar furor. Um monarca nunca deve se colocar acima da monarquia (razão pela qual a Princesa Diana representou uma grande ameaça à instituição na década de 1980). Por outro lado, um monarca precisa ter um pulso firme para conseguir lidar com os problemas do país e não se deixar levar pelas influências de terceiros.
Tentando encontrar o meio termo de sua posição, com o qual ela consiga se sentir confortável, Elizabeth aceita sua situação, ao mesmo tempo em que exige de seu marido e, principalmente de sua irmã Margaret (Vanessa Kirby, de The Frankenstein Chronicles), o mesmo comprometimento e sacrifício, na mesma medida, pelos mesmos objetivos. Em outras palavras, Elizabeth tenta fazer com a irmã o que Churchill faz com ela. É claro que ela não consegue, facilmente, obrigá-los a enxergar o mundo através de seus olhos, o que a leva a bater de frente com os dois diversas vezes, provocando mágoas e mal estar em diferentes ocasiões.
Embora a relação de Elizabeth e Margaret seja apresentada na série como a de duas irmãs que se amam e se respeitam (cumprindo a promessa que fizeram ao pai de nunca uma abandonar a outra), Elizabeth se sente ofuscada pela personalidade da irmã, uma mulher de espírito livre, de opiniões fortes e que desperta a atenção das pessoas em qualquer situação. Ao longo dos episódios, vemos Elizabeth tentar a todo custo domar a irmã, fazendo o que pode para aproximá-la de sua própria personalidade, apagando seu brilho. Isto faz com que Margaret se sinta culpada e infeliz por não atender aos requisitos que são exigidos dos membros da monarquia, mas furiosa por ver sua irmã interferir em seus relacionamentos amorosos.
Sempre acreditando que os conselhos que recebe de Churchill e daqueles que o cercam devem ser seguidos, Elizabeth se choca ao descobrir que eles não a tratam com o mesmo respeito, mesmo depois dela ter feito tudo para seguir as regras que lhe foram impostas. É somente então que Elizabeth finalmente recebe o conselho que ela precisava ouvir para começar a moldar sua personalidade e seu reinado.
Apesar de ser um drama biográfico, gênero que geralmente é condescendente com o biografado e temeroso em expor situações que possam comprometer sua imagem junto ao público, a série não é uma ‘versão cor-de-rosa’ da monarquia e de seus membros. Ela é uma produção que se preocupa em estabelecer ambiente e personagens, sem se prender a detalhes didáticos sobre as situações ou referências históricas que aparecem ao longo dos episódios.
Matt Smith como o Príncipe Philip
Embora seja criticada por seu ritmo lento ou por restringir seu foco aos relacionamentos pessoais e não explorar mais profundamente as questões políticas, The Crown consegue oferecer um cenário rico em dramas humanos, sem cair na armadilha de entrar na narrativa dos novelões, como ocorre com The Royals, série que também retrata a vida íntima de uma família real (ficcional) da Inglaterra.
Aqueles que gostam de dramas históricos encontrarão em The Crown uma série que vale a pena ser acompanhada. Aqueles que gostam mais de ação, tensão e intrigas vão se decepcionar. A narrativa está mais para Downton Abbey (sem a presença dos criados) que para House of Cards (ao menos nesta primeira temporada).
A segunda temporada de The Crown, já em fase de filmagem, estreia em 2017, em data ainda a ser divulgada.
A história deverá ser situada na década de 1960, período em que mais de vinte países se tornaram independentes da Grã-Bretanha. Nesta época, a Inglaterra teve três Primeiro Ministro: Harold Macmillan (1957-1963), Sir Alec Douglas-Home(1963-1964) e Harold Wilson (1964-1966), sendo os dois primeiros do partido conservador e o último do partido trabalhista (o primeiro no reinado de Elizabeth). Na vida pessoal, a Rainha deu à luz a mais dois filhos, Andrew (1959) e Edward (1963).
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Texto originalmente publicado no dia 6 de novembro de 2016 no Nova Temporada da VEJA.com, onde fui colunista entre 2010 e 2016.

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