Remake Americano de The Slap Não Faz Jus ao original Australiano
Por Fernanda Furquim
Em 2010, foi lançado na Austrália o livro The Slap, obra de Christos Tsiolkas que recebeu diversos prêmios de literatura. Controverso, o livro foi logo adaptado pela televisão. A minissérie estreou em seu país em 2011, gerando boa receptividade crítica e conquistando prêmios. Não demorou muito para a produção iniciar sua carreira internacional, sendo exibida em diversos países, entre eles, o Brasil, onde chegou pelo canal +Globosat. O tema provocante e o bom desempenho da minissérie levaram a rede NBC a encomendar um remake americano.
O objetivo de um remake é o de adaptar uma história para a cultura do país. No caso dos EUA, séries com temáticas médicas, policiais, jurídicas ou de espionagem/conspiração são as que mais despertam o interesse do grande público. Assim sendo, uma produção que traz como tema um evento polêmico passível de um processo gera interesse. Em entrevistas, os produtores responsáveis pela adaptação disseram que o foco seria o processo jurídico, ao contrário da minissérie australiana, que tratou o caso como uma desculpa para narrar as vidas dos personagens envolvidos.
Na história, durante um churrasco que reúne familiares e amigos, um homem dá um tapa no rosto de Hugo, uma criança de quatro anos que vinha se comportando mal sem ter sido repreendida pelos pais. Estes se sentem ultrajados e levam o agressor à justiça. A situação divide opiniões, forçando os demais a tomar posições, defender valores e reavaliar relacionamentos.
Para falar do remake terei que comentar sobre a produção original, já que a série americana reutilizou personagens e situações, até mesmo alguns diálogos que, com as mudanças, perderam o sentido. No original, cada episódio acompanha um dos oito personagens centrais que participavam do churrasco.
A descrição de personagens contém spoilers.
O primeiro é o aniversariante, Hector (Jonathan LaPaglia, de Cold Case), um homem domado pela esposa Aisha (Sophie Okonedo, de The Escape Artist). Ele cresceu em uma família de origem grega que supervaloriza a família e esta é a visão de vida que Hector carrega para dentro de sua casa, e que o leva a se submeter às decisões da esposa.
Ao completar 40 anos, ele começa a questionar seu estilo de vida e suas decisões. Hector não deseja o divórcio, mas gostaria de ser menos pressionado. Sua válvula de escape é Connie (Sophie Lowe, de Once Upon a Time in Wonderland, The Returned), uma jovem de 17 anos que trabalha na clínica veterinária de Aisha, e como babá de seus dois filhos. Os dois se sentem atraídos. Mas, enquanto Hector está consciente de que se trata de uma atração física, Connie acredita estar apaixonada por aquele homem mais velho e proibido. Mesmo lutando contra seus desejos, Hector tem alguns encontros com Connie, o que alimenta os sonhos da menina. No dia do churrasco, sob os efeitos do álcool e da cocaína, Hector luta para controlar seus impulsos, razão pela qual não testemunha o tapa.
Aisha ignora a situação do marido. Veterinária dedicada, dona de sua própria clínica, ela divide seu tempo entre o trabalho e os cuidados da família. Em casa, tal qual na clínica, Aisha dá ordens e espera ser obedecida. Ela controla a todos com pulso de ferro, pressionando Hector a tomar sempre a atitude correta em relação à educação dos filhos, aos cuidados da casa e à sua relação com ela. Cobrando e criticando, ela não pára para pensar nas consequências de seus atos. A família de Hector é outra dor de cabeça para Aisha. Intrometidos, exigentes e carentes de atenção, os sogros a fazem se sentir como Hector, ou seja, ela se torna uma mulher que precisa fazer sempre a coisa certa para agradar a família do marido.
Aisha não tem família (ao menos, ela não aparece, nem é mencionada). Por isso, suas duas amigas de infância são tratadas por ela como irmãs. Tal qual Hector, que defende a família custe o que custar, Aisha se coloca ao lado das duas amigas, Rosie (Melissa George, de Hunted e Alias) e Anouk (Essie Davis, de Miss Fisher’s Murder Mysteries), mesmo quando acha que tomaram decisões erradas.
Anouk é roteirista chefe de uma novela, onde trabalha seu atual namorado, Rhys (Oliver Ackland, de Cloudstreet e Party Tricks), um homem dezessete anos mais novo que ela. Postergando o livro que ela sonha em escrever, ela vai levando seu trabalho da melhor forma possível, embora menospreze o programa e o veículo no qual trabalha. Sua mãe Rachel (Gillian Jones) está passando por um tratamento de quimioterapia e necessita do apoio emocional da filha, algo que Anouk não consegue oferecer. Ela acha que é suficiente oferecer à mãe os cuidados materiais básicos que ela precisa, o que leva Rachel a depender emocionalmente de Rosie, a única que a visita com regularidade e se dispõe a passar algumas horas lhe fazendo companhia e cuidando dela, juntamente com Hugo.
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| (E-D) Rose, Harry, Manolis, Anouk, Connie, Richie, Hector, Aisha e Hugo na versão americana. |
Rosie é uma jovem que adotou um estilo de vida mais natural. Ela tomou a decisão de amamentar pelo tempo que o menino achar necessário (ou seja, até ele não desejar mais o peito). A educação de Hugo (Julian Mineo) é totalmente livre de repreensões ou castigos. O menino pode se expressar da forma como bem desejar. O máximo que ele recebe são informações sobre o que é certo e errado, e sobre como deve tratar as pessoas. Isto não é o suficiente para domar o espírito de Hugo, um moleque cheio de energia e curioso, que gosta de explorar os ambientes e fazer parte das atividades que estão à sua volta.
Rosie é casada com Gary (Anthony Hayes, de Secrets & Lies e Gallipoli), um artista alcoólatra que não apoia todas as decisões da esposa. Sua maior frustração é a de pertencer à classe média baixa, o que o torna uma pessoa revoltada com o sistema e com as pessoas que estão em posição social melhor que a dele. Razão pela qual Gary não suporta Harry (Alex Dimitriades, de Underbelly), um homem que esbanja dinheiro e se vangloria de seu status.
O comportamento de Hugo durante o churrasco incomodou todo mundo, mas nenhum dos convidados chega ao ponto de levantar a voz ou repreende-lo de alguma forma. O calor, o uísque correndo solto e os problemas pessoais que cada um carrega levam ao incidente. Quando Hugo se recusa a largar o jogo de críquete (beisebol na versão americana), agitando o taco e colocando em risco as demais crianças, Harry decide segurá-lo, o que o leva a dar um tapa no rosto do menino.
Harry é um sujeito que tem dificuldades de lidar com sua raiva, tornando-se, por vezes, violento. Imigrante bem sucedido e orgulhoso, ele perdeu o pai ainda jovem, sendo acolhido pelos tios, Manolis (Lex Marinos) e Koula (Toula Yianni), pais de Hector e Elisavet (Eugenia Fragos) que lutam para preservar os valores familiares e as tradições. Casado com Sandi (Diana Glenn), com quem tem um filho, Rocco (Raffaele Costabile), Harry também mantém uma relação extraconjugal com uma mulher estrangeira, que tem uma filha (não fica claro se ele é o pai da criança).
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| (E-D) Harry, Hector, Rosie e Aisha na versão australiana (Foto: ABC1/Arquivo) |
Depois que o incidente ocorre, o público vai percebendo, ao longo dos episódios, que os demais envolvidos concordam que Hugo precisava ser repreendido, embora o tapa tenha sido um exagero. Harry acha que tomou a atitude correta e que o tapa será esquecido pelo menino. Já Rosie está determinada a puni-lo. Inicialmente revoltado com a atitude de Harry, Gary vai cedendo até chegar à mesma opinião dos demais, que tudo pode ser resolvido com um pedido de desculpas.
A série original trabalha a forma como as pessoas têm dificuldades de olhar para seus próprios erros e de assumir responsabilidades sobre seus atos. Trabalha a frustração e os desejos reprimidos, os sonhos adiados, as pressões familiares, o preconceito, o cinismo, a aceitação do próximo, e a visão moderna de educação infantil x a tradicional. Cada episódio é estrelado por um dos protagonistas, Hector, Anouk, Harry, Rose, Manolis, Connie, Aisha e Richie (um rapaz gay amigo de Connie que se torna obcecado por Hector). Com esta abordagem (que foi adaptada do livro), cada personagem tem seu momento único na série para contar sua história, apresentar sua versão sobre seus atos e opiniões, e compartilhar sentimentos e experiências, independente do incidente ocorrido no churrasco.
A versão americana até tentou adotar este estilo narrativo, mas se perdeu no caminho. O remake trocou a forma sutil com que a série original apresentou ao público algumas informações e personalidades, bem como a delicadeza com a qual tratou situações, para oferecer ao telespectador um melodrama grosseiro que busca chocar o público com diálogos, os quais explicam a todo momento as opiniões e sentimentos de cada um, repetindo as mesmas informações a cada episódio.
As cenas introspectivas e silenciosas do original, que ajudam a construir personagens e ambiente, desapareceram, sendo substituídas por mais diálogos que possam explicar o que está acontecendo ou quem são os personagens.
Os episódios trazem em seu título o nome do personagem que protagoniza a história, mas ele acaba dividindo seu tempo com os demais.
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| Rose e seu filho Hugo na versão australiana. |
O tema e os personagens da série são os mesmos, mudaram algumas personalidades e trajetórias. No remake, Hector (Peter Sarsgaard, de The Killing) é um homem mais inexpressivo, o que leva o telespectador a se perguntar por que razão Connie (Makenzie Leigh) se interessaria por ele. Talvez por isso a relação entre os dois se restrinja a um beijo. Ela perde rapidamente interesse em Hector, que se mantém submisso às vontades dos pais e da esposa, embora Aisha (Thandie Newton, de Rogue) seja aqui uma mulher mais amável e compreensiva, chegando a demonstrar respeito e carinho pelo marido. Aisha foi transformada em médica, o que torna sua decisão de, muitas vezes, colocar seus pacientes acima das necessidades da família mais aceitável pelo público.
A história de Connie mudou. Ela é mais madura e consciente do momento pelo qual está passando. Por vergonha, ela toma a decisão de se afastar de Aisha, largando o emprego. Visto que ela se afastou do casal, a trajetória de Connie foi alterada. Ela vive com a mãe e o padrasto, com quem não se relaciona bem. Seu pai era um homossexual que deixou a esposa e a filha para morar com outro homem. Já falecido, ele deixou algumas lembranças para a filha, que agora tenta compreender os sentimentos e opiniões de seu pai. Assim, o remake eliminou a fixação que Connie tinha por Hector.
A história de Anouk (Uma Thurman) também mudou. Aqui ela é uma profissional mais confiante, pois já tinha experiência como autora teatral antes de migrar para a TV. Assim, ela não se sente insegura para começar a escrever seu livro. Embora ela continue sendo uma mulher que mantém um relacionamento com um homem mais jovem (Penn Badgley, de Gossigp Girl), Anouk tem uma relação diferente com sua mãe. Virginia (Blythe Danner) é uma mulher rica que mantém uma vida social e conta com um assistente para ajudá-la e lhe fazer companhia. Professora universitária de psicologia, ela critica a decisão da filha de migrar do teatro para a TV. Ao longo da história, Anouk descobre que a mãe foi diagnosticada com uma doença grave, a qual a leva a tomar a decisão de se mudar para a Escócia. Praticamente, temos uma inversão de personalidades. Aqui é Virginia que mantém uma distância emocional segura, enquanto Anouk ainda tenta se conectar com a mãe.
Rosie (novamente interpretada por Melissa George) se mantém a mesma. A diferença é que sua relação com o marido é mais estável e saudável. A atriz disse em entrevistas que aceitou interpretar Rosie porque desejava explorar mais a fundo sua personalidade. Infelizmente, ela não conseguiu, já que a personagem se manteve presa à sua obsessão por colocar Harry na cadeia. A diferença poder ter ficado por conta do tempo de exposição na tela.
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| (E-D) Anouk, Aisha e Rose na versão australiana. |
Por sua vez, Gary (Thomas Sadoski, de The Newsroom) deixou de ser o alcoólatra descontrolado que sente pena de si mesmo para se tornar uma pessoa mais equilibrada, que consegue lidar melhor com a bebida (embora esteja sempre com um copo ou uma garrafa na mão). Aqui ele tem mais controle sobre seu casamento, chegando ao ponto de demonstrar maior preocupação e afeto pela esposa.
Nesta versão, Manolis (Brian Cox, de Bob Servant) se apresenta como uma pessoa mais preocupada com o caso que envolve Harry, a quem ele tenta ajudar. No original, ele deixa que o sobrinho e seu filho decidam o que deve ser feito e como. Harry (Zachary Quinto, de Heroes) foi transformado em um vilão de novela. Suas nuances desapareceram e sua personalidade raivosa e suas atitudes preconceituosas e egoístas foram acentuadas. Por outro lado, os problemas de Rosie e Gary foram diluídos. Assim, temos uma visão clara do bem x o mal, do fraco x o forte, que não existe no original.
Thenollis (Michael Nouri), que na série australiana é o ex-namorado de Koula (a quem Manolis encontra no enterro de um amigo), é elevado a personagem importante nesta versão americana. Ele foi transformado em um advogado bem sucedido, preconceituoso e sem escrúpulos, que faz uso de qualquer informação ou forma juridicamente cabível para ganhar uma causa no tribunal.
A história de Richie (Lucas Hedges) também é outra. No original, ele é um rapaz inseguro e sociável, filho de uma das assistentes de Aisha na clínica veterinária. Ele se torna obcecado por Hector quando acredita em uma mentira que Connie lhe contou. Sua atitude imatura o leva a tentar o suicídio, quando se envergonha por ter cometido uma injustiça. Na versão americana, Richie é um fotógrafo que sobreviveu a uma tentativa de suicídio. Ele se mantém afastado dos problemas dos demais personagens, bem como de Connie. Sua função no remake se restringe a mostrar o bullying contra gays, e a de se tornar ‘aquele que ilumina a mente dos demais sobre o que é importante na vida’, dando uma lição de moral no final da minissérie.
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| (E-D) Hugo, Hector, Richie e Connie na versão australiana. |
Algumas mudanças politicamente corretas adotadas pelo remake para a rede aberta americana:
– o uísque que corre solto na festa de Hector foi substituído por vinho tinto;
– a cocaína que Anouk deu de presente para Hector (que a utilizou durante a festa) foi substituída por cigarros de maconha medicinal;
– a decisão de Anouk de abortar e dispensar o namorado foi trocada pela de ter o filho e tentar levar uma vida de casada;
– a amante de Harry e sua filha desapareceram, sendo substituída por um casinho de escritório;
– o alcoolismo de Gary e seus problemas de relacionamento com a esposa são super suavizados, o que os transformam em um casal mais saudável e equilibrado, acentuando a imagem de vilão de Harry.
– o remake eliminou a cena em que Hector masturba Connie no carro, ou seja, a relação de um homem de 40 anos com uma menina de 17 fica restrita a um beijo. A vida sexual de Connie também não é explorada;
– a relação extraconjugal de Aisha com um total estranho é trocada por uma quase traição com um antigo conhecido. Uma aliança de casamento a leva a desistir na última hora;
– a cena em que Richie se masturba olhando uma foto de Hector desapareceu, já que aqui o rapaz não se sente atraído por ele.
Existem outras mudanças, mas não irei listá-las. O mais importante aqui é a troca de foco. Ao adotar o caso jurídico como o ponto alto da história, os produtores deveriam ter se dedicado a construir o processo em seus detalhes, oferecendo ao público um debate ideológico mais profundo sobre o tema. Mas o que a série nos dá é apenas mais um processo judicial tratado de forma sensacionalista e superficial. Eles engrandeceram um caso sem contudo apresentar novas argumentações, de defesa ou de acusação, que justificassem este foco.
No original, o caso faz parte das histórias de Harry e Rosie, sendo definido no quarto episódio (de um total de oito). Os demais episódios/trajetórias quase nem o mencionam ou ele é visto em segundo plano. Se a versão americana tivesse reduzido a atenção aos problemas pessoais que nada tinham a ver com o processo, e se dedicado a construir argumentos de acusação e de defesa que se equilibrassem para que pudessem sustentar um debate, o remake teria sido justificável, apresentando uma outra abordagem para a mesma história. Pela forma como foi feita, a versão americana esvaziou o conteúdo do original, enfraquecendo a trama e seus personagens, sem oferecer algo em troca.
A versão australiana de The Slap está disponível em DVD no mercado internacional. O remake americano pode ser visto no site da NBC, por aqueles que moram ou visitam os EUA.







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