Relembrando Wolf Hall
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| Mark Rylance como Cromwell |
Por Fernanda Furquim
Adaptação de Peter Straughan da obra de Hilary Mantel, a minissérie Wolf Hall foi produzida pela BBC em 2015.
A obra de Mantel é uma trilogia. No primeiro livro, ela narra a vida de Thomas Cromwell (Mark Rylance) na corte do rei Henrique VIII (Damian Lewis), sendo que ele finaliza com a morte de Thomas More (Anton Lesser). No segundo, é retratado o período em que Henrique VIII, casado com Ana Bolena (Claire Foy), se apaixona por Jane Seymour (Kate Philips). A minissérie encerra com a morte de Ana, visto que os seis episódios produzidos condensaram os dois primeiros volumes da obra de Mantel. O terceiro livro ainda não foi publicado, mas sabe-se que a BBC já adquiriu os direitos de adaptação.
A história de Henrique VIII e suas esposas já foi contada diversas vezes, seja em livros, peças de teatro, filmes, minisséries ou séries, sendo a mais recente The Tudors, que narrou a trajetória destes personagens ao longo de quatro temporadas. Por isso, muitos podem se perguntar para que assistir à uma história já muito explorada. A resposta é: por sua abordagem. Wolf Hall acompanha o ponto de vista de Cromwell para a história tão conhecida. Henrique e suas esposas são coadjuvantes na trama, que retrata o período entre a queda de uma rainha e a ascensão de outra. Para se ter uma ideia, o Rei só aparece em cena no final do primeiro episódio, embora desde o início os personagens girem em torno de suas vontades e desejos.
Cromwell é o filho de um ferreiro que se torna advogado. Trabalhando para o Cardeal Wosley (Jonathan Pryce), ele passa a fazer parte da corte e assume o cargo de conselheiro político do Rei. Inicialmente um aliado de Ana, ele se torna um dos responsáveis por sua morte. Embora o título da minissérie possa parecer uma referência à residência da família de Jane Seymour, ele é utilizado aqui como um trocadilho para descrever Cromwell como um homem astuto que deve ser temido.
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| Damian Lewis como Henrique VIII |
Além do foco permanecer em Cromwell, a minissérie também traz uma visão mais política e racional dos fatos que levaram a Inglaterra a se afastar da igreja católica, bem como à morte de diferentes personagens que transitavam pela corte. O sensacionalismo, as cenas de sexo gratuitas e o melodrama dos relacionamentos foram deixados de lado. Cada personagem compreende sua função na história, a qual é retratada de forma fria e direta. A minissérie não tem sequer uma trilha sonora que manipule o emocional do público a fim de criar um clima de tensão ou compaixão. As poucas músicas que são executadas ao longo das cenas trabalham o clima do ambiente e não a ação.
Henrique não é apresentado como um bufão ou um mulherengo. Aqui ele é um homem extremamente preocupado com o futuro da monarquia. Se sentindo pressionado a gerar um herdeiro homem, ele vive em um constante conflito pessoal e político, se agarrando a qualquer justificativa que possa levá-lo à solução de sua situação. Tentando manter o controle, ele busca por aliados que sejam capazes de lhe oferecer conselhos para este e outros problemas. Assim, logo percebe o potencial de Cromwell para ocupar este cargo.
Quando a história começa, Henrique já está envolvido com Ana Bolena, que mora no palácio, embora ainda não seja casada com o Rei. Catarina de Aragão (Joanne Whalley) está exilada e Wolsey resiste às pressões do Rei, que exige que a igreja católica anule a união dos dois. Entra Cromwell, advogado que trabalha com Wolsey. Tal qual Henrique, e os demais personagens, Cromwell não é apresentado como uma caricatura. As artimanhas normalmente vistas quando o personagem é retratado em outras produções foram deixadas de lado para dar lugar a um homem pragmático que compreende a situação como ela se apresenta e busca uma forma racional de solucioná-la.
Isto não significa que a minissérie não trabalhe as emoções dos personagens. Elas estão presentes a cada cena. Os conflitos emocionais dominam boa parte da história, razão pela qual a trama se torna interessante de se acompanhar: emoção x razão conduzem os personagens.
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| Jonathan Price como Wolsey |
Adotando uma postura observadora, quase melancólica, Cromwell acompanha tudo o que acontece ao seu redor. Guarda para si cada informação e mudança de comportamento ou de opiniões daqueles que o cercam, para utilizá-las no momento necessário. É assim que ele chega à solução do problema de Henrique em relação à Ana. Através deste olhar de Cromwell, o público percebe a evolução do personagem em sua relação com os membros da corte. Também é com esta postura de observador que ele lida com seus problemas pessoais, como a morte da família, bem como a de Wolsey, seu mentor. Aparentemente, as funções de seu cargo estão acima de qualquer interesse pessoal. No entanto, a conduta do personagem também deixa dúvidas ao telespectador sobre até onde os interesses pessoais de Cromwell poderiam estar ditando suas atitudes, a exemplo de sua lealdade a Wolsey.
Embora tenha sido bem recebida pela crítica, a obra de Mantel (e consequentemente a minissérie) foi criticada por alguns historiadores, que não gostaram da forma como Cromwell foi retratado. Alegando que ela transformou um personagem historicamente conhecido como manipulador e calculista em um quase herói, eles classificaram sua obra como ficcional.
Apesar das críticas, a minissérie, enquanto produção, é muito boa, em termos de condução de roteiro e direção, que trouxe um tom sombrio para a história. O elenco está bem equilibrado, embora as nuances de Henrique merecessem ter sido melhor trabalhadas. Quem destoa é Jessica Raine, que interpreta Jane Rochford, cunhada de Ana, retratada como uma ‘vilã de novela das oito’.
A minissérie foi lançada em DVD no Brasil pela Paris Filmes.
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| Claire Foy como Ana Bolena |
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Matéria originalmente publicada em 2015 no blog Nova Temporada da VEJA.com, onde fui colunista entre 2010 e 2016.




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