Heimat, um Clássico Alemão


Por Fernanda Furquim


Esta é uma dica para quem gosta de produções europeias. Heimat/Heimat – Eine Deutsche Crhonik (que na tradução significa Pátria) é uma bela série alemã exibida entre 1984 e 2013, tanto nos cinemas (em versão integral) quanto na TV. Apresentando a trajetória de uma família ao longo de 80 anos, tornou-se um clássico, tendo sido apresentada em diversos países.
Ela foi criada por Edgar Heitz, em parceria com Peter F. Steinbach. Dizem que o sucesso da minissérie Berlin Alexanderplatz em 1980 (outro clássico alemão sobre o qual poderei falar em outra ocasião) garantiu a produção de Heimat que foi escrita em 1979. As filmagens da primeira temporada, composta de onze episódios, tiveram início em 1981, sendo que ela estreou em 1984, levando a temporada a um total de cinco anos para ser desenvolvida, produzida e exibida.
Em entrevistas da época, Heitz disse ter decidido contar a história de Heimat depois de ter assistido à minissérie americana Holocausto. Acreditando que as pessoas estavam restringindo a história de seu país no Século XX  ao que o nazismo fez, Heitz decidiu produzir uma trama que retratasse as lembranças que ele tinha da Alemanha que conheceu quando criança. Por isso, Heimat não é sobre culpa ou um pedido de desculpas. Trata-se de uma produção sobre a vida de pessoas simples e comuns que passam por momentos importantes da história da Alemanha. Não há aqui uma abordagem política, não vemos o holocausto judeu, nem tampouco temos as questões nazistas tratadas de forma profunda, embora ela esteja presente na trama através de situações vividas pelos personagens, e também não temos a divisão política do Muro de Berlim. Justamente por não ter levantado um debate didático sobre o nazismo (e outras questões políticas), a série chegou a ser criticada por alguns veículos que a classificaram como uma versão romantizada da vida na Alemanha.
Lucie e Eduard

Ela, de fato, faz uma viagem romântica, e por vezes inocente, ao passado alemão, mas está longe de ser superficial. Seu objetivo é mostrar como o sentimento de se pertencer a um lugar é importante na formação da personalidade de pessoas que valorizam os aspectos culturais da região onde nasceram. Desta forma, o que Heimat faz é focar sua atenção às questões pessoais e domésticas vividas pelos personagens dentro de um ambiente em transformação (o mesmo que Mad Men fez na TV americana entre 2007-2015).
Heimat inicia em torno dos membros de duas famílias que vivem em uma zona rural, sendo que, ao longo dos episódios, vemos não só as transformações pelas quais eles passam, mas também a modernização da vila, que ao fim da série já é uma cidade bem movimentada. As famílias se unem através do casamento de Paul (Michael Lesch) com Maria (Marita Breuer), que se torna a personagem de referência da trama. Os Simon vivem todos juntos em uma grande casa construída no ano de 1773, na qual a cozinha serve de ponto de encontro dos personagens. No início, a vida isolada do mundo permite que eles se reúnam no final do dia em volta do fogão para conversar. Mas, conforme a história progride, e a modernização toma conta, percebemos como a cozinha vai se esvaziando, com cada personagem seguindo seu rumo.
A primeira temporada é situada em Schabbach (local ficcional), região de Hunsrück, na Alemanha. Ao longo dos episódios, vemos como as mudanças pelas quais o país passou entre 1919 e 1982 afetaram cada membro da família Simon e dos Wiegand (pai e irmão de Maria). Heimat inicia com uma fotografia em preto e branco, trazendo apenas algumas cenas coloridas. Conforme os anos vão passando, a cor vai se tornando uma presença mais constante, até que, sem que o público se dê conta, a série tem a cor como base e a fotografia em preto e branco é vista de forma esporádica. A narrativa é lenta, acompanhando a vida bucólica dos moradores. Com as mudanças sociais, culturais e tecnológicas que vão ocorrendo, o ritmo da cidade muda, acelerando também a narrativa (embora não chegue ao ritmo que estamos acostumados hoje em dia).
(E-D) Anton, Ernst e Maria

Neste meio tempo, testemunhamos as mudanças de mentalidade dos moradores. Problemas simples vão se tornando mais complexos, bem como os relacionamentos e o comportamento de cada um. A história, que antes era focada em pequenos momentos do dia a dia, passa a dar atenção à forma como cada personagem se relaciona com as mudanças que vão ocorrendo ao seu redor, com a vila se transformando em cidade, a evolução do nazismo na cultura alemã (que é retratado aqui em choque com a inocência, fragilidade, simplicidade e enraizamento cultural do local), os avanços tecnológicos (que são introduzidos aos poucos e sem muito alarde como foi feito em Downton Abbey), e a forma como eles se adaptam aos problemas sócio-culturais e econômicos que surgem com o fim da 2ª Guerra Mundial, culminando com a influência americana na reconstrução do país. Essa influência é retratada pelo personagem de Paul que, após o conflito, retorna à Alemanha totalmente americanizado, decidido a ajudar a família financeiramente, e buscando influenciar suas opiniões e atitudes (mas sem se impor), com sua atual visão sobre a sociedade e os negócios.
A história tem início em 1919. Com o fim da 1ª Guerra Mundial, Paul volta para casa. O alívio de ter conseguido voltar e seu desejo de resgatar a vida que ele tinha antes do conflito são substituídos pela depressão e a tristeza, bem como a dificuldade de se readaptar a uma existência pacata, simples e sem grandes perspectivas de futuro. Filho de Mathias (Willi Burger), um ferreiro, o futuro de Paul é seguir a profissão do pai. Em 1928, Paul se casa com Maria, a filha do prefeito, com quem tem dois filhos, Anton (Rolf Roth/Marcus Reiter/Mathias Kniesbeck) e Ernst (Ingo Hoffmann/Roland Bongard/Michael Kausch). Mas o desejo de mudar o rumo de sua vida o leva a abandonar tudo. Uma certa manhã, ele sai de casa e da cidade, embarcando em um navio rumo aos EUA, sem avisar ninguém. Seu sonho é se tornar um engenheiro elétrico e trabalhar com rádio, sua grande paixão.
Neste meio tempo, Maria passa de uma jovem tímida e insegura a uma mulher forte e determinada. Ela cria seus filhos e com o tempo assume o comando da casa, onde também vivem os sogros, o cunhado e a nora. Katrina (Gertrud Bredel) é a mãe de Paul. Uma mulher marcada pelo tempo e pelo sofrimento. Ainda assim, é ela quem mantém o otimismo da família e comanda as atividades da casa até ficar doente e ser substituída por Maria nesta função.
Otto e Maria

Eduard (Rudiger Weigang), irmão de Paul, se torna o prefeito de Rhaunen, cidade vizinha. Ele se casa com Lucie Hardtke (Karin Rasenak), ex-prostituta de um bordel em Berlim, com quem tem um filho, Horst (Andreas Mertens), que morre em 1948, aos 14 anos de idade. Pauline (Eva Maria Bayerwaltes), irmã de Paul, conhece Robert Kröber (Arno Lang), um relojoeiro em Berlim, com quem tem dois filhos, Gabi e Robert. A boa vida do casal acaba quando a guerra tem início. O marido de Pauline morre, forçando-a a voltar para a casa da mãe, levando com ela os filhos.
Com a chegada da 2ª Guerra Mundial, Anton e Ernst partem para os campos de batalha. Anton se torna cameraman da equipe de cinegrafistas que faz propaganda nazista. Depois de passar um tempo na Rússia, Anton segue à pé até a Turquia e depois para a Grécia, antes de chegar em casa. Em 1945, Paul (Dieter Schaad), agora um empresário americano rico, reencontra Maria e os filhos na esperança de poder ajudá-los como uma compensação por tê-los abandonado. Assim, com o dinheiro do pai, Anton  monta seu próprio negócio: uma fábrica de lentes para câmeras fotográficas, de cinema e de equipamentos médicos. Esta fábrica se torna um dos símbolos da cultura regional que a série defende, ao colocá-la como defensora da economia local sustentável, bem como da preservação do estilo de vida do interior. Esta postura de Anton acaba colocando-o em conflito com seus irmãos que, apesar de viverem na região, adotam uma postura de alienação ao potencial cultural e pessoal que a vida no interior lhes proporciona.
Ernst se torna piloto da Luftwaffe durante a guerra, sendo abatido em um ataque à França. Depois da guerra, ele se envolve com o mercado negro, que lhe dá dinheiro suficiente para comprar um helicóptero, com o qual passa a fazer transporte de madeira. Mais tarde, monta uma fábrica de casas pré-fabricadas e se casa com uma mulher rica. O casamento e os negócios de Ernst não vão bem. Falido e divorciado, volta a morar com a mãe até se restabelecer novamente. Sua postura cínica o leva a se dedicar aos novos negócios, os quais o conduzem a uma obsessiva postura modernista (que não surge pela ideia de evolução, mas pelo dinheiro e estabilidade que ele poderá obter).
Paul com a família em 1919

Pouco antes da guerra, Maria conhece Otto Wohlleben (Jörg Hube), um engenheiro de origem judia que trabalha na expansão das rodovias. Os dois têm um filho, Hermann (Peter Harting), que mais tarde será o protagonista da segunda e terceira temporada. Quando a guerra inicia, Otto se une à equipe de desarmamento de bombas.
Heimat também acompanha a vida de outros personagens, entre eles, o pai de Maria, Alois (Johannes Lobewein), prefeito de Schabbach, que se torna o representante da política nazista na região. Ele, seu filho Wilfried (Hans-Jürgen Schatz), um oficial da SS que leva judeus para os campos de concentração e executa oficiais britânicos, bem como Eduard, que também se torna oficial, são os representantes do nazismo na trama. Mas eles retratam o nazismo de diferentes formas. Eduard é o inocente útil que, sem perceber, é manipulado pelo governo sem se dar conta de como suas ações prejudicam terceiros; Alois é o nacionalista apaixonado, sincero e dedicado, cego aos aspectos negativos da política que ele abraça; e Wilfried é aquele que assume seu posto consciente de seus atos e suas consequências, mas que os considera como parte de seu dever, o qual ele realiza sem qualquer problema de consciência.
A história é belamente narrada por Karl Glasisch (Kurt Wagner) através de fotografias tiradas por Eduard e que são mostradas ao público no início de cada episódio. Através das fotos a produção consegue fazer um resumo dos eventos ocorridos nos últimos episódios, além de utilizá-las também como forma de avançar no tempo, informando o público sobre o destino de cada personagem que vai desaparecendo da história conforme ela caminha.
Paul (encostado na pilastra) com a família em 1945

Glasisch é filho de Marie-Goot Schirmer (Eva Maria Schneider), irmã de Katrina e tia de Paul. A fofoqueira da cidade é casada com Mäthes-Pat (Wolfram Wagner). Outro irmão de Katrina é Hans Schirmer (Alexander Scholtz), pai de Fritz, um comunista que, após passar um tempo nos campos de concentração, retorna para casa, onde morre em 1937, deixando a viúva Alice e sua filha Lotti (Andrea Koloschinski/Grabrielle Brum), que mais tarde vai trabalhar na fábrica de Anton.
A primeira temporada avança no tempo passando pelas décadas de 1950 e 1960, com a evolução sócio-cultural, política e econômica, muitas das quais são retratadas através dos filhos de Maria conforme eles vão crescendo. O último episódio da temporada foi produzido para retratar a transição entre passado e presente. Ele inicia com a morte de Maria, em 1982. Ao longo do episódio vemos seus três filhos percorrerem a cidade relembrando momentos da infância; também acompanhamos a despedida dos filhos à casa e pertences da mãe, recheadas de lembranças do cotidiano que viveram com ela.
A morte de Maria ocorre no dia em que tem início uma celebração na cidade e é neste momento que vemos a transição do passado para o presente ocorrer. Aos poucos, as cenas de festividades vão tomando conta, substituindo as lembranças e introduzindo personagens que nada têm a ver com a trama, como as duas prostitutas bêbadas que se reencontram após dois anos de separação e decidem colocar a conversa em dia. A morte de Glasisch no final do dia determina a despedida do passado, que se vai sem que o presente perceba. Esta transição é acompanhada de longe por Maria que, após sua morte, é recepcionada em um salão por todos aqueles que passaram por sua vida e já faleceram (mesma situação retratada na americana Lost décadas depois).
Paul parte de Heimat para a América

O grande sucesso conquistado pela primeira levou à produção da segunda temporada, que estreou em 1993. Na segunda, a história acompanha a vida de Hermann (Henry Arnold) em Munique entre os anos de 1960 e 1970, com um total de treze episódios. Aos 19 anos de idade, ele chega na cidade para estudar música no Conservatório e, aos poucos, passa a mergulhar na vida cultural de Munique. A temporada também acompanha a rotina de seus amigos, Renate (Franziska Traub), uma estudante de direito que tenta seduzi-lo; Clemens (Michael Stephen), um baterista que toca música jazz em clubes noturnos; Clarissa (Salome Kammer), uma violoncelista que teme se envolver intimamente com as pessoas; e Juan (Daniel Smith), um chileno que não consegue se matricular no Conservatório porque sua música sofre uma forte influência folclórica. Isto o leva, juntamente com Hermann, a mergulhar na cultura avant-garde, onde conhecem estudantes de cinema.
Em 2004 estreou a terceira temporada, com seis episódios cobrindo os anos entre 1989 e 2000. Na história, durante as comemorações da queda do muro de Berlim, Hermann (Arnold), agora um compositor famoso, reencontra Clarissa (Kammer), com quem reinicia um relacionamento. Os dois se mudam para Schabbach, onde Ernst (Kausch) e Anton (Kniesbeck) ainda vivem. Lá eles iniciam uma família, que passa a interagir com as novas gerações que vivem na cidade.
A quarta temporada, que estreou em 2013 com quatro episódios, é um prelúdio da série. Com o título de Die andere Heimat – Chronik einer Sehnsucht, a história é situada entre 1840 e 1844, e acompanha dois irmãos da família Simon que deixaram Hunsrück com suas respectivas famílias para buscar melhores condições de vida no Brasil. Após a guerra prussiana, Jakob (Jan Dieter Schneider) e Gustav (Maximilian Scheidt), filhos de Margareth Simon (Marita Breuer, que interpretou Maria na primeira temporada), decidem migrar junto com outras famílias para o interior do Brasil, onde passam a sofrer com os problemas da imigração da época e com o sistema feudal que encontram no local. Vale mencionar que, no enterro de Maria no final da primeira temporada, aparecem dois personagens que são descendentes de Jakob e Gustav.
Cena da quarta temporada de Heimat

Além da série, também foi produzido um filme em 2006 com o título de Heimat-Fragmente – Die Frauenretratando a vida das mulheres Simon entre as décadas de 1900 e 1960. 
Embora as demais temporadas tenham sido bem recebidas pela crítica e pelo público, foi a primeira que causou um impacto maior, tornando-se um clássico da produção alemã. A temporada também teria impressionado diretores como Francis Ford CoppolaStanley KubrickMichael Mann Susan Sontag, que citaram a obra em entrevistas. Também temos o caso de The Village, produzida pela BBC entre 2013 e 2014. A série foi criada por Peter Moffat, fortemente influenciado por Heimat. Apesar da produção alemã ter sido criticada por não debater didaticamente as questões políticas, em especial a dos períodos da Grande Depressão e da 2ª Guerra Mundial, ela chegou a ser listada por diferentes veículos ao longo dos anos como uma das melhores séries alemãs de todos os tempos.
Quem tiver interesse em conhecer Heimat, ela está disponível em DVD no mercado internacional, com legendas em inglês. Episódios também podem ser encontrados na íntegra no YouTube em alemão sem legendas.
______________________
A primeira versão deste texto foi publicada em 2013 no blog Nova Temporada da VEJA.com, onde fui colunista entre 2010 e 2016.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Os Pioneiros no TCM

I Love Lucy Entre os Próximos Lançamentos em DVD (atualizado)

Fotos de Bastidores de Os Smurfs Revelam a Imagem de Gargamel