Dublagem x Som Original


O dublador e diretor de dublagem Nelson Machado postou na Internet um manifesto em relação à briga que existe no Brasil sobre a valorização, ou não, da dublagem brasileira a filmes e séries estrangeiras.

Em tempos de globalização, as culturas se mesclam e muitos aspectos relacionados a um determinado país, que vai desde o idioma até a ida à padaria da esquina ou ao cinema de bairro, se perdem em meio a multinacionais e interesses internacionais econômicos. Por outro lado, estamos testemunhando a produção de séries, assunto deste Blog, que estão iniciando um movimento novo, o de explorar aspectos característicos de uma determinada cultura, querer conhecer como o vizinho vive e pensa. Esse é o lado bom da globalização cultural, estimular o interesse em conhecer o cotidiano de diferentes povos. Não que esse tipo de produção não existisse, mas a abordagem era diferente.

A guerra da nova geração de fãs de séries que odeia dublagem e se manifesta na Internet exigindo seus direitos acaba entrando em choque em relação aos direitos do vizinho. Relegando o fã da dublagem à TV aberta - que, para quem gosta de acompanhar séries sabe que não vale nada, com raras exceções - é o mesmo que selecionar quem pode pertencer a um lugar ou não.

Uma das alegações do fã do som original, é que ele paga pela TV a cabo e que, por isso, tem o direito de ver as séries no original. É verdade. Mas quem gosta de dublagem também paga. E sabemos que quem tem gato em casa independe do gosto, mesmo porque, relegar o fã da dublagem a esse nível é puro preconceito. Nesse segmento também existem empresários, advogados, juízes, jornalistas, professores, artistas, economistas, publicitários e muitos outros. É ignorância classificar os fãs da dublagem como representantes de classe econômica/cultural baixa, crianças, analfabetos ou pessoas da terceira idade. O fato deles não se manifestarem em massa na Internet não significa que não existam. Significa que eles não estão se preocupando em se justificar perante pessoas que já não lhes dão valor.

O fato é que os fãs do som original, sozinhos, não pagam o suficiente para manter a TV a cabo. Ninguém é dono dela. Nem os fãs do som original, nem os fãs da dublagem. O dono da TV a cabo é o lucro. Ela necessita de lucro para se manter ativa, caso contrário, não tem o porquê de existir.

Há mais de dez anos, quando aportou no Brasil, esperava-se um crescimento rápido e seguro. Não aconteceu. Agora, com a TV Digital nascendo e potencializando a TV aberta a ter centenas de novos canais (sabe-se lá quando, mas o potencial existe), a Internet possibilitando os downloads mais rápido do que a TV paga tem condições de colocar uma série no ar, os lançamentos em DVD, mesmo que mais lentos, chegando a qualquer pessoa que deseje acompanhar uma determinada série, faz com que a TV a cabo vá se tornando cada vez menos interessante, prioritária, essencial. Então, para conseguir se manter, ela precisa se oferecer ao público em geral, dentro de uma programação segmentada.

A tecnologia da Tecla SAP existe desde que a TV a cabo chegou. Mas, praticamente, foi esquecida, a não ser por um ou outro canal. Ao invés do público, fã de séries em geral, se unir e exigir a Tecla SAP para que possam ter a opção de áudio/legenda, perdem tempo manifestando e destilando ódio e preconceitos, separando "o joio do trigo", se colocando acima de terceiros, que nem conhecem, para denegrir seu nível cultural ou seus direitos e interesses. Bem como desclassificando a profissão do dublador, tradutor ou técnico, generalizando seus defeitos, como se os próprios não tivessem nenhum, seja em suas vidas ou no exercício de suas profissões.

É dividindo que se conquista e o público de séries está dividido entre som original e som dublado; entre séries atuais e séries clássicas. Até agora, a TV a cabo e as distribuidoras têm se alimentado dessa desunião pois era interessante para elas, visto que dublar é mais caro que legendar. Mas agora, já estão percebendo que escolher um lado em detrimento de outro, seja qual for, não é bom negócio. No entanto, com essa falta de união dos fãs, o mercado se mantém assim: quebrado, hora pendendo para um lado, hora para o outro. Se existisse união desse segmento, as exigências seriam levadas em consideração para atender ao todo. Com isso, poderíamos ter um eqülíbrio na programação e distribuição de séries antigas e novas, com a opção do áudio/legendas para todos, exigindo-se qualidade, seja na tradução, seja na legenda, seja na dublagem, seja na técnica.

Afinal, que importa se assisto às séries sentada na poltrona ou deitada no sofá? O importante é assistir e, cada um, apreciar do jeito que bem lhe convém.

Comentários

Lindomar disse…
Acho que há espaço para ambos: dublagem e legenda. Basta as operadores de tv por assinatura disponibilizarem a opção de ativação de legendas (junto com a tecla SAP) que todo mundo fica contente.
E isso não é nada de outro mundo, a tecnologia já está disponível.
Anônimo disse…
Um problema é que ativação de legendas só é possível com tecnologia digital, e a maioria esmagadora das pessoas ainda tem tv paga analógica.

E problemas não faltam: as tecnologias e software das diversas operadoras sao diferentes, exigindo dos canais negociacoes e desenvolvimento de sistemas para cada uma das operadoras.

(aliás, essa é outra confusão das pessoas, a operadora nao tem *NADA* a ver com a disponibilização das legendas, isso é um problema de cada um dos canais).

Que mais? Outro problema que as pessoas esquecem (ou ate mesmo nao sabem) é que o canal SAP tem um áudio muito pior que o som do canal principal. Desta forma, se a tecla SAP for usada, qual a turma que fica com o som pior? (eu voto que o áudio original deve ser sempre exibido no canal principal, e que o portugues seja colocado no canal SAP, até porque quem gosta de dublagem é uma pessoa que não dá a menor importância à qualidade do áudio mesmo, ou nunca iria preferir assistir dublado...)

Enfim, o problema nao é simples...

[ ] Rubens
Fernanda Furquim disse…
De fato o problema não é simples, caso contrário já teria sido resolvido.

O problema da discriminação e do preconceito, o problema tecnológico atrelado a benefício maior que o custo e por aí vai. A humanidade está cheia de exemplos de problemas que não são simples, nem por isso ela deixou de avançar, mesmo que tecnológicamente.

A tecnologia avança mais rápido que a humanidade, veja o exemplo do computador dos anos 60 e o de hoje. Veja o exemplo do VHS e o do DVD, o qual já está passando por uma transformação maior e mais rápida em relação ao VHS e o DVD.

A própria qualidade do áudio dublado já mudou muito em relação ao que era, alguns gostam, outros não, mas também está mudando.

É claro que o Brasil é mais lento em relação aos EUA ou Europa, visto que o investimento financeiro aqui, em qualquer que seja a área, é capenga.

Já a humanidade, continua lutando contra o preconceito. As próprias séries que tanta gente gosta de ver, falam basicamente disso.
AspenBH disse…
TV's analógicas também têm opção de SAP e CC, e o som do segundo canal de áudio pode ser tão bom quanto o do canal original (desde que a emissora queira). Atualmente não existe nenhuma limitação para que se agrade a gregos e troianos, a não ser nas mentes dos próprios usuários.
PRIMEIRO, PARABÉNS PELO POST,ABORDA DE FORMA CLARA E DIRETA ESSA QUESTÃO DA "DUBLAGEM" E DO SOM "ORIGINAL". É OBVIO QUE A SAÍDA É OFERECER AS DUAS VERSÕES. TEM QUE TER ESPAÇO PARA TODOS (QUE PAGAM!), NÃO É UMA QUESTÃO DEFAVORECER A UM LADO OU A OUTRO, A TV ESTÁ BUSCANDO AUMENTAR A SUA RECEITA, EU TAMBÉM NÃO ABRIRIA MÃO DE UM SEGMENTO EM NOME DE UM RADICALISMO BOBO!
Olá. Fiquei sabendo desse artigo pelo Poltrona.tv. Só queria deixar meus parabéns por um artigo tão bem escrito. Adorei as palavras, principalmente no trecho sobre o "selecionar quem pode pertencer a um lugar ou não".
Fernanda Furquim disse…
Oi Kenshin, obrigada pela visita e por sua mensagem!
Anônimo disse…
Peguei birra pela dublagem apenas porque os canais não dão a opção de se ouvir o audio original. Gosto de assistir as series e Live-actions em seu audio original e nem isso tenho conseguido ver ultimatente.... Quando liguei no Sony estes dias e vi Grey's Anatomy dublado, mudei de canal mais do que depressa. Mais a maior reclamação é com relação a Disney que rotula a programação como infantil e não libera o SAP. Isso é engraçado, porque o Discovery Kids que é um canal pra crianças de 0 a 4 anos disponibiliza o SAP.
Nessas horas e melhor assistir em DVD, que tem se mostrado grande aliado para acabar com esse problema.
Rubens disse…
Aspen-bh, pena que voce provavelmente nunca irá ler essa resposta, mas o seu comentário não está correto, infelizmente.

Na tv analogica (e quando eu falo "tv" estou me referindo ao veículo televisao e sua tecnologia, e nao ao aparelho que voce tem na sua casa) o som do SAP não, eu disse não "pode ser tão bom quanto o do canal original (desde que a emissora queira)". Isso é falso.

Na própria definição do padrão NTSC o canal de áudio principal é stereo (com opcao de Dolby 2.0), enquanto o canal SAP é mono. O resultado dos dois pode ficar até igual num televisor, aparelho que normalmente possui caixinhas de som extremamente limitadas e totalmente inapropriadas para apreciar um bom filme/seriado, mas para quem usa um bom receiver (home-theater), e tem ouvido, a diferença é perceptível (se o programa tem mesmo som stereo gravado certinho - porque tem muita emissora que simplesmente repete o mesmo som nos 2 canais).

Então isso é ponto pacífico: SAP é pior que o canal principal. Ao menos para quem se preocupa com a qualidade do som.

[ ] Rubens

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