sexta-feira, 22 de maio de 2009

A Crise Econômica Atinge a Nova Temporada Americana (com adendo)

Uma pesquisa realizada pelo analista americano Bruce Leichtman e divulgada pelo The Hollywood Reporter revelou que a exibição de episódios gratuitos e completos via Internet ainda não atingiu seu público alvo. Ao menos, não da forma desejada.

Segundo o relatório foram avaliadas 1.250 residências divididas em grupos de 250 adolescentes entre as idades de 12 e 17 anos. O resultado apontou que apenas 8% deles assistem à programas de TV online em comparação aos 24% que assistem novos clips, 20% que acompanham os videos do You Tube e 15% que acompanham as novidades esportivas.

O relatório aponta que a audiência online existe, mas ainda é muito baixa para que a Internet possa ser considerada hoje uma alternativa viável para a televisão. O público que assiste a videos na Internet aida prefere os formatos de curta duração, como os clips.

No quadro geral, ou seja, independente da idade, apenas 8% do público online revelou que assiste menos à TV, sendo que destes, 18% são adolescentes. E apenas 3% dos adultos disseram que considerariam trocar a TV pela exibição online. Este número caiu em relação ao número do ano passado, visto que uma pesquisa anterior apontava que 4% trocariam a TV pela Internet.

Uma pesquisa realizada pelo The Conference Board em 2007, mostrou um número mais alto. De uma amostragem de 10 mil residências, 19% assistiam séries, filmes e noticiários online.

Até o final do ano de 2008, 68 milhões de americanos estavam conectados à banda larga nos EUA onde existem sites que transmitem via online episódios completos de séries de TV, entre eles o Hulu.com. Infelizmente, este tipo de serviço somente está disponível nos EUA. No Brasil, alguns portais e sites de canais oferecem a exibição completa de alguns títulos pré-selecionados, via online.

A Internet é vista como o futuro da televisão, mas sua exploração ainda é incerta. No momento, ela tem servido apenas para divulgar com maior facilidade a programação televisiva, tornando-as mais conhecidas. Mesmo séries produzidas diretamente para a Internet tem uma audiência ou popularidade menor que aquelas exibidas na televisão. Espera-se que com a TV Digital seja possível unir os dois veículos, o que trará inúmeras vantagens e opções de uso.

Atualmente com a crise econômica que atingiu em cheio a sociedade americana, e com ela a televisão, muito se discute sobre alternativas e cortes de produção. A propaganda nos intervalos comerciais ainda é o que sustenta a programação televisiva. Anúncios dentro da trama, venda para donwloads e para produtos agregados são apenas um suporte, ao menos até o momento.

O investimento dos anunciantes neste ano deve cair entre 5% a 10%, nas melhores das hipóteses, ou mesmo 10% a 20%. No ano passado, as emissoras abertas conseguiram arrecadar 9.2 bilhões de dólares. Este ano a expectativa é que chegue a 7 bilhões.

O número de episódios de uma temporada de uma série é definido pelo número de semanas que anunciantes se comprometem a divulgar seus produtos naquele canal, dia e horário. Novas séries tiveram números reduzidos de episódios encomendados em função do risco que correm de não agradar e serem canceladas.

Outras já estabelecidas podem ter números de episódios reduzidos para compensar gastos com outras produções ou simplesmente diminuir o custo, como já é o caso de "Lei e Ordem" e "Southland". Independente disso, foram negociados com várias séries a redução de orçamento como foi o caso com "Dollhouse", "Better off Ted", "Gary Unmarried", "Scrubs", "Bones", "Cold Case" e "Chuck" que somente foram renovadas porque aceitaram os cortes impostos pelos canais. Outras como "Samantha Who?", "Without a Trace", "The Unit" ou "My Name is Earl" não conseguiram se encaixar no orçamento proposto e foram canceladas.

Desde os anos 50 qua a criatividade enfrenta o orçamento de produção das séries. Este ano não foi diferente, mas segundo analistas americanos, foi mais intenso. Recém saídos de uma greve de 100 dias dos roteiristas, que prejudicou a qualidade da temporada de 2008-2009, a televisão americana precisou driblar a crise que os atingiu em cheio nestes últimos dois anos.

Séries foram canceladas devido a seu alto custo de produção, outras foram renovadas por terem um orçamento mais baixo, mesmo algumas tendo uma audiência ou uma aceitação crítica menor. A economia este ano já começou na produção dos pilotos que seriam avaliados para serem escolhidos. Além dos cortes, o incentivo fiscal também foi uma alternativa de peso.

Séries mudaram sua produção para Nova York onde o incentivo é maior que em Los Angeles. O Canadá é um país que desde os anos 90 vem sendo utilizado para a produção de séries americanas em função de sua política de incentivo fiscal. Já que a produção americana invadiu e massacrou a grade da TV canadense, uma forma de compensar é ter algum lucro com isso.

No entanto, outros países passaram a ser utilizados com mais freqüencia pelos mesmo motivos. A Nova Zelândia vem sendo utilizada desde os anos 90. Recentemente, o continente africano entrou na lista, embora em menor escala, mas com grande potencial. A co-produção com outros países também intensificou nos últimos anos, em especial com a Inglaterra, além dos países da América Latina, com o investimento da HBO e Fox Latinas, e o Canadá, sendo que atualmente são três séries em co-produção com este país que fazem parte da grade de programação americana: "Flashpoint", e as novatas "The Bridge" e "The Listener".

Em paralelo ao drama da crise, as séries de televisão ainda vêm sofrendo a perda de sua audiência para os reality shows. Para a televisão, é uma forma de ganhar dinheiro rápido e fácil, visto que não necessitam de roteiristas, diretores especializados ou mesmo de atores caros. Os reality shows vêm abocanhando o grosso da audiência que até os anos 90 pertencia às séries de TV. Episódios conquistavam 30, 40 ou 50 milhões de telespectadores. Agora este número, mais reduzido em função das alternativas de entretenimento, cabe aos reality, que chegam a ter uma média de 20 milhões contra 10 milhões em média dos episódios de séries de sucesso.

A televisão americana ainda não sabe o que fazer para se adaptar às mudanças de hábitos de seu público que rapidamente abraça o surgimento das novas mídias como os dvds, TiVo ou internet. Muito embora para este último, como já citado no início do texto, o número ainda não seja alarmante. De qualquer forma, cada vez mais os telespectadores tomam o controle de seu próprio tempo, assistindo aos programas quando lhes convém, fugindo do domínio da televisão que até há alguns anos conseguia decidir a que horas as pessoas sentavam-se na frente do aparelho, e com isso, a televisão explorava ao máximo este poder.

O crescimento das novas mídias pode promover a mudança na mais tradicional forma de um produtor lucrar com seu produto: a venda para canais regionais/syndication, visto que o telespectador poderá ter à mão, via DVD ou exibição/download de arquivos online, a série ou programa que desejar ver a qualquer hora ou dia.

Além disso, as alternativas de entretenimento e o acesso à produção de diferentes países deverá forçar à televisão americana (e brasileira) a criar produtos que vençam a concorrência, o que gera custos maiores e melhor criatividade. Afinal, oferecer sempre a mesma coisa ou mesma fórmula, por mais bem escrita que seja, chegará uma hora que não atrairá mais o público. E visto que a Internet promove a ansiedade e a necessidade do internauta de exercer seu controle sobre aquilo que está recebendo, os programas oferecidos terão que ser cada vez mais atraentes. Por outro lado, o acesso a diferentes produtos provoca um olhar crítico que leva o telespectador a ficar mais exigente quanto aquilo que está sendo oferecido.

(texto elaborado com base em dados divulgados pelo jornal The Hollywood Reporter).

2 comentários:

Roberto Fraga Jr (Uncle Bob) disse...

Fernanda,

Parabéns pelo blog.

Creio que a fórmula de sucesso será o espectador escolher o programa e elaborar a sua própria grade de programação.

Será uma mudança e tanto.


Saudações!

Celeste Morrigan disse...

Já tinha lido algo sobre essa crise estar afetando os seriados (com corte de atores e episódios) e essa reportagem foi um ótimo complemento!

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